O super poder da vontade humana
Alexandre Augusto Tavares, 18/7/2022
· Apologética ·
“Querer é poder!” É mesmo?!
Talvez. Em primeiro lugar, a afirmação pressupõe que o querer seja intenso e perseverante; em segundo lugar, dependerá obviamente da sensatez do desejo: não basta “querer” ganhar na loteria (mesmo que intensamente) para acertar os números sorteados.
Do ponto de vista sobrenatural, querer é apenas o primeiro passo do poder; mas não o mais importante, pois tudo o que se refere a Deus depende da sua divina Graça. E esta, sim, é o fator determinante da aquisição do poder. Jesus disse “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5), mas “comigo tudo é possível” (cf. Lc 1, 37; Mt 19, 26). Eis a fonte do poder de Paulo, quando declarou “tudo posso n’Aquele que me fortalece” (Fl 4, 13).
Vivemos numa época em que o poder é algo altamente desejado, pois a humanidade se sente débil e impotente. Não é verdade que mesmo os “poderosos” que dominam o mundo, seja pela influência, pela ciência, pelo dinheiro ou pelo cargo diretivo, carecem de equilíbrio físico e psíquico?
Tratamos deste assunto no item O fenômeno G-20 (Geração Séc. XX), no livro Quero ir para o Céu.
E para, de alguma forma, tentar suprir essa atual fragilidade do querer humano, são amplamente divulgadas certas teorias “assertivas” sobre a força, a capacidade e o poder da mente para “conseguir”, “conquistar”, “controlar”, “atrair”: leis herméticas, lei da atração, gnose, yoga, auto-hipnose, programação neurolinguística, blá-blá-blá...
Aí a pessoa estuda empenhadamente teorias dessas e, após colocá-las em prática, se dá conta de que o resultado é pífio, minguado ─ senão nulo.
A bem da verdade, se o objetivo for medíocre ou meramente natural, até se pode alcançar algum benefício. Mas tais conhecimentos ou práticas de nada valem para chegar à vida de perfeição proposta no Evangelho, a única capaz de nos levar ao estado de real equilíbrio mental e, em consequência, físico. Pois elas ignoram o “NADA podeis fazer sem mim”.
Para sermos ainda mais justos, digamos que alguns desses conhecimentos acima mencionados ─ como a neurolinguística ─ podem colaborar para a prática da virtude, se bem filtrados e aplicados numa vida de oração totalmente conectada e submissa a Deus.
O aprofundamento na fé e na conexão com Deus levam ao conhecimento necessário para o estado de perfeito equilíbrio, que corresponde à santidade; mas o simples conhecimento racional não leva à perfeição. A razão (inteligência) e a vontade do homem são falhas e desordenadas.
No Paraíso Terrestre, o homem era íntegro. Ou seja, sua vontade tendia naturalmente ao bem e suas faculdades físicas e mentais ordenadas o encaminhavam à perfeição. E mesmo neste estado de integridade, ele desobedeceu, por orgulho, as ordens divinas. Agora decaídos e desequilibrados pelo pecado Original, tendemos à desordem. E nela viveríamos sempre, inevitavelmente, não fosse a ajuda da Graça de Deus.
Para irmos ainda mais longe na consideração da miséria das criaturas, pensemos que até os anjos, superiores aos homens em natureza, se revoltaram contra Deus no Céu, também por um desequilíbrio intelectual e volitivo, causado pelo orgulho e egoísmo.
Fujamos, portanto, dos atuais discursos que exaltam o poder e a capacidade natural do homem: isto é uma cilada, que leva à vaidade e prepara grandes quedas.
É, pois, na humildade, na alegre submissão à vontade de Deus, na conexão amorosa com Ele que se encontra o único e verdadeiro equilíbrio, a paz interior.
A ideia deste artigo surgiu durante a leitura do livro intitulado The Power of Concentration (O Poder da Concentração), de Theron Q. Dumont (1862-1932). Ele condensa boa parte dessas teorias de empoderamento natural. Após filtrado pela doutrina católica, pode-se tirar dele certo proveito, mas acaba sendo perigoso para quem não consegue distinguir o que ali está em desacordo com a pureza e humildade do Evangelho...
Imaginei pessoas lendo aquele conteúdo e se pondo em seguida a empreender grandes projetos e negócios, motivadas por uma autoestima e uma autoconfiança ilusórias, apoiadas num autopoder fictício. Até aí, tudo bem: mérito do Dumont por ter convencido e levantado gente que vivia atolada num sofá, só assistindo vídeos nas redes sociais.
Se a empresa der certo, confirmam-se as teorias e sobe o nível da autoconfiança ─ e quanto mais alto ela subir, maior poderá ser o tombo... Se, por outro lado, o projeto não se concretizar, podem haver duas reações contrárias: uma, de frustração e desânimo; outra, de “missão cumprida”, “experiência válida”, “conhecimento adquirido”, e “enriquecimento intelectual”.
Somando e subtraindo, dividindo e multiplicando, concluí: para um empreendimento material, até que o livro pode ser útil. Mas para a vida espiritual, as regras precisam ser adaptadas aos princípios do Evangelho.