Livro

Copyright © 2006
by Alexandre Augusto Tavares
Impresso em São Paulo – 2006

Carta de Apresentação

Caraguatatuba,
5 de março de 2006

Querido amigo Alexandre,

Li atentamente seu livro. Pareceu-me bastante oportuno e benfazejo.

Do ponto de vista doutrinário, não encontrei erro algum; pelo contrário, vejo nele um eco fiel do nosso magistério eclesiástico.

Desejo-lhe, como se diz em minha Polônia natal, Całkowite powodzenie (sucesso total)!

Rogando-lhe as bênçãos de Maria,

Pe. Dislau Nurczyk

Oferecimento

Ao Pe. João Scognamiglio Clá Dias dedico esta obra, com extremos sentimentos de carinho e gratidão. Suas sábias conferências e seus piedosos retiros foram os pilares de minha formação religiosa.

Fervoroso devoto da Santa Igreja, o Pe. João Clá dedica sua vida à oração e ao apostolado. Sua recente ordenação sacerdotal veio coroar de forma brilhante a trilha de santidade que traçou para si.

Como fundador e presidente dos Arautos do Evangelho (associação pontifícia internacional), trabalha de forma eficaz e incansável para levar a Boa Notícia de Jesus Cristo a todos os povos.

Que a Santíssima Virgem, a quem se consagrou como escravo incondicional de amor, recompense aqui e na eternidade seus esforços em prol da civilização cristã!

O Autor

Carta de Mons. João Clá, em resposta à dedicatória:

Introdução

Ao interrogar Jesus, Pilatos fez-lhe uma pergunta que parece ecoar ainda hoje na mente de muitas pessoas: “Quid est veritas? – O que é a verdade?” (Jo 18, 38).

A razão humana busca instintivamente a verdade, e não se contenta enquanto a dúvida existir.

Infelizmente, no mundo globalizado em que vivemos, somos vítimas de torrentes de informações duvidosas, sobre temas importantíssimos da religião. Surgem então problemas de toda ordem, que prejudicam enormemente nossa caminhada rumo ao Céu.

Buscaremos nesta obra dirimir algumas dessas dúvidas e tratar sobre importantes verdades da fé católica, colaborando assim com a árdua tarefa evangelizadora da Igreja.

Em meio a tantas crises e dúbias opiniões, é um alento poder contar com uma Igreja infalível que nos indica o verdadeiro caminho, e com a qual Jesus prometeu estar “todos os dias até a consumação dos séculos. (Mt 28, 20)”

Por mais que se espalhem pela terra falsos profetas e doutrinas perversas, por mais que o demônio pareça dominar o mundo inteiro, confiemos sempre na promessa do divino Mestre: As portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja (Cf. Mt 16, 18).

O Céu Empírio

Encerramos o Credo de nossa fé proclamando com esperança que acreditamos na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Sim, “todos ressuscitarão com os corpos de que agora estão revestidos”

IVº Concílio de Latrão: DS 801.

Deus, que ressuscitou a Jesus Cristo dos mortos, há de dar igualmente a vida aos vossos corpos mortais” (Rm 8, 11).

São Paulo ensina que somos cidadãos do Céu e de lá esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo miserável, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso com o mesmo poder que Lhe permite sujeitar ao Seu domínio todas as coisas” (Fl 3, 20-21).

Tendo sido arrebatado ao terceiro Céu, São Paulo voltou dizendo que o homem não é capaz de falar sobre as coisas que lá existem (Cf. 2 Cor 12, 1-6). Nosso vocabulário e as melhores imagens terrenas são insuficientes.

Este Céu material, ao qual foi levado São Paulo, chama-se Céu Empíreo.

Empíreo: palavra de origem grega, significando “inflamado”. Empregada para designar a parte superior do Céu, cuja luminosidade se assemelha à luz do fogo. Normalmente se supõe que haja sete Céus: o primeiro é o da atmosfera (firmamento); o segundo, formado pelos astros, planetas e galáxias; a partir do terceiro já é o Paraíso celeste.

Tudo lá é sublime, quintessenciado. Aqui na terra conhecemos quatro essências: terra, água, fogo e ar. No Céu existem muitas outras essências, superiores às nossas.

Podemos imaginar palácios magníficos, com paredes de pedras preciosas; jardins com flores e aromas paradisíacos; lagos, rios e mares cristalinos com temperatura e coloração variadas; encantadores animais.

No Céu, com o corpo ressurrecto e glorioso, nosso organismo estará livre de qualquer dor, cansaço, sono, transpiração, necessidades fisiológicas, deterioração ou envelhecimento. Seremos sempre belos e joviais, sem qualquer defeito.

O corpo glorioso é cheio de luz, mas pode aparecer quando e como quiser.

O brilho dos corpos celestes difere do brilho dos terrestres. Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua e outra a claridade das estrelas; e ainda uma estrela difere da outra na claridade. Assim também é a ressurreição dos mortos. O corpo ressuscita incorruptível, glorioso, vigoroso, espiritualizado (Cf. 1 Cor 15, 35 a 44).

Querendo não aparecer, será invisível; desejando mostrar-se num manto de diamantes ou alguma pedra celeste, assim será visto. Poderia vestir-se de matérias sólidas, líquidas ou gasosas. Querendo, exalará perfumes próprios. Falará e cantará com voz belíssima, sendo ouvido apenas por quem determinar. Sentirá odores sublimes de humanos, animais, ervas, minerais e até anjos que o exalem. Sentirá o perfume de Jesus e de Maria. No Céu tudo é limpíssimo, não há sobras nem detritos. Tudo agrada à vista.

Alimentos e bebidas causarão degustação perfeita, sem os inconvenientes do processo digestivo. Continuaremos no Céu a banquetear com Jesus, como fizeram os Apóstolos: “Nós comemos e bebemos com Ele, depois da Sua ressurreição” (At 10, 40-41).

Melodias atraentes e arrebatadoras encantam os ouvidos celestes.

A inteligência compreenderá grandes mistérios da criação, hoje insondáveis. A cada instante poderemos aprender coisas novas, sem que elas jamais se esgotem. Nossa vontade será sempre atendida, e nunca desejará algo ruim.

O convívio entre os bem-aventurados é perfeito. Sozinho ou acompanhado, ninguém sentirá medo, dúvida, vergonha, timidez, desagrado, incômodo, preguiça, inveja, orgulho, vaidade, ódio, gostos extravagantes, desejos inesperados e intemperantes, paixão descontrolada, ou qualquer outro sentimento desregrado.

No Céu tudo é solene e grandioso. Mas podemos nos deslocar à velocidade do pensamento: se pensarmos em Saturno, lá estaremos instantaneamente. O corpo glorioso atravessa objetos sólidos ou líquidos sem se deixar tocar por eles. Tem domínio completo da gravidade, podendo se deslocar em qualquer sentido, mesmo vertical.

Tudo o que tocarmos é macio, suave, nunca machuca nem causa atrito. Já livres de qualquer apetite carnal, o corpo gozará deleites sem equiparação a qualquer prazer terreno. Nossa sensibilidade será sempre bem atendida.

O corpo glorioso é todo espiritualizado e reluzente. As partes mais castigadas na terra brilharão de forma especial.

No Céu o parentesco espiritual substitui o parentesco genético. Não há povos, nações ou línguas. Todos falam um mesmo idioma, lindo, completo, contendo todas as expressões necessárias para exprimir as maravilhas celestes.

No Céu não há cores nem formas desagradáveis. A aparência de qualquer corpo glorioso supera de longe os seres mais belos que a terra gerou.

No Céu não há fadiga, nada cansa, tudo agrada. As novidades são intermináveis, e as repetições sempre mais atrativas. O sono, agora facultativo, é um momento de intimidade com Deus, no qual Ele nos revela seus mistérios e grandezas.

Tudo o que possamos imaginar para o completo deleite dos nossos sentidos são ínfimas e distorcidas figuras do que é a bem-aventurança: “O olho não viu, o ouvido não escutou, nem o coração humano imaginou tudo o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor2, 9).

A visão beatífica

Por maior que seja a satisfação do corpo glorioso, nada no Céu se assemelha ao gáudio da visão beatífica: “Ego ero merces tua magna nimis – Serei eu mesmo a tua recompensa demasiadamente grande” (Gen 15, 1). Eis um presente de Deus que não pode ser mais perfeito: a visão beatífica. A Perfeição se deixa ver por nós.

Segundo São Tomás de Aquino, veremos Deus “todo”, mas não “totalmente”: Totus, sed non totaliter (Summa Theologica). Só o próprio Deus pode ver-se totalmente.
Sobre a visão beatífica, disse ainda o Papa Bento XII: " As almas completamente purificadas entram no Céu e contemplam imediatamente a essência divina, vendo-a face a face, pois a referida Divina essência lhes é manifestada imediata e abertamente, de maneira clara e sem véus" (Benedictus Deus, de 29/1/1336).

Esta visão nos acompanha sempre, em qualquer lugar que estejamos, pois Deus é sumamente visível. Onde está Deus? À maneira do ar que penetra e preenche todos os espaços, Deus está em todas as partes; ou melhor: todas as partes é que estão n´Ele.

Tudo o que foi criado está dentro de Deus, pois o “fora de Deus” não existe: ele é Infinito. “Nele vivemos, nos movemos e existimos.” (At 17, 28) Nele nascemos e morremos, dentro dele estão todos os corpos, planetas e galáxias; nele estão todos os espíritos angélicos do Céu e do Inferno. Ele sustenta a existência de tudo e de todos, a cada fração de segundo: “Deus tem em seu poder a alma de todo ser vivo e o espírito de todo homem carnal” (Jó 12,10).

A onipresença de Deus faz com que Ele seja visível pelos bem-aventurados em qualquer lugar.

Só não O vemos aqui nesta vida porque nossos olhos não estão preparados. Assim como a coruja não pode ver a luz, assim também não vemos a Deus; e do mesmo modo que a águia fita o sol, assim veremos a Luz eterna, quando alcançarmos o estado de glória.

A Moisés Deus aparecia “de costas” no alto de um monte. Após esta visão, quando o Patriarca voltava para junto do povo, era tal a luminosidade de seu rosto, que ninguém conseguia olhar para ele. Precisava cobrir a face com um véu (Ex 34, 29-35).

Foi este o efeito de uma visão “velada” de Deus. A visão “completa” da Divindade é tão rica e extasiante, que somente os bem-aventurados estão preparados para suportá-la.

Quem é Deus

Quem é este Deus criador, que será nosso prêmio na eternidade? Deus é um espírito perfeitíssimo, que sempre existiu, dotado de sabedoria e poderes infinitos.

A visão de nossa imagem no espelho nos dá uma noção de como somos. Deus, olhando-se no “espelho” de suas perfeições infinitas, gera uma imagem tão rica de si mesmo que, esta imagem, é outra Pessoa. Como esta segunda Pessoa foi gerada pela primeira, damos o nome de Filho, e à que gerou: Pai.

Conforme rezamos no Credo, Jesus é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.

Do perfeitíssimo relacionamento entre Pai e Filho procede um amor tão perfeito que, este amor, é outra Pessoa. Esta terceira pessoa, Amor infinito entre Pai e Filho, é o Espírito Santo.

Deus não pode “criar” outro Deus, pois o criado não seria Deus, e sim “criatura”. Por isso, o Filho e o Espírito Santo não são outros Deuses: são o mesmo Deus; são o Deus único e trino.

As três Pessoas são Deus de forma idêntica: se uma d’Elas fosse menos que outra, não seria Deus. O que as distingue é a relação: de Pai, de Filho e de Amor. A tal ponto são um único Deus que, ao pensarmos em uma das Pessoas, já estamos pensando na Trindade. A trindade divina é una, e sua unidade é trina. Misterioso? Sim. O relacionamento das três Pessoas entre si, conhecido como pericórese, constitui o principal mistério da nossa fé: a trindade e unidade de Deus.

A Criação

Deus é auto-suficiente: vive eternamente feliz, sem necessidade de nada nem ninguém. Não precisava ter criado o universo. Mas a infinita Bondade quis partilhar sua glória eterna: “Deus criou o mundo não para aumentar sua glória, mas para manifestá-la e comunicá-la”.

São Boaventura, In II Sent. I, 2, 2, 1.

Entretanto, não convinha a Deus fazer uma única criatura, porque ela, sozinha, não seria capaz de espelhar suas grandezas infinitas. Pela mesma razão, não convinha criar seres iguais. Por isso, o universo foi criado em cinco categorias distintas.

No nível mais elevado da criação estão os anjos, por serem espíritos puros. No segundo nível estão os homens, com espírito e corpo material.

Espírito e matéria não são duas naturezas unidas no homem, mas a união deles forma uma única natureza. O corpo é produzido pelos pais, mas a alma é criada diretamente por Deus (Cf. Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, São Paulo, 2000, pp. 365-366. Nas próximas citações do Catecismo constará apenas a sigla “CIC”).

Abaixo dos homens estão os animais, que além de estarem unidos a um corpo material, não possuem inteligência, e sua alma é mortal. Abaixo dos animais estão os vegetais, sem alma e sem capacidade de locomover-se. Mas possuem vida. E no último nível da criação estão os minerais que não possuem vida: são matéria pura.

Somente podem participar da glória divina as criaturas inteligentes, anjos e homens.

Jesus, centro da Criação

O ser humano é o elo que une o espiritual ao material, pois resume todos os níveis da criação: angélico (espírito), animal (corpo), vegetal (sistema nervoso, cabelos, etc.) e mineral (ossos, dentes, etc.). O homem é um micro-universo, está no centro da criação. Por isso, neste nível foi criado o ser mais perfeito de todos, o elo entre Deus e a criatura. E, para este ser, Deus não concedeu apenas a maior participação na sua divindade: uniu-se a ele de tal forma que o tornou Deus. Seu nome é JESUS. Através dessa misteriosa encarnação divina, chamada união hipostática, Jesus é ao mesmo tempo Homem e Deus. Deus humano e Homem divino: uma perfeita e misteriosa união.

Jesus não é em parte Deus e em parte homem, nem é o resultado de uma mescla confusa entre o divino e o humano: Ele se fez verdadeiramente homem permanecendo verdadeiro Deus (Cf. CIC, 464).

Deus Filho, a segunda Pessoa da Trindade foi quem se encarnou em Jesus para divinizá-lo. Jesus tem, portanto, duas naturezas: a divina e a humana. Mas sua Pessoa é uma só: a divina (o Verbo, segunda Pessoa da divindade). Segundo os Apóstolos, Jesus é o “Verbo”, que “é Deus”, a “imagem do Deus invisível” (Cl 1, 15), o “resplendor de sua glória e a expressão do seu ser” (Hb 1, 3).

Maria, Mãe de Deus

Outra criatura participaria ativamente no plano da união hipostática: Maria, a mãe de Jesus. Como Jesus deveria surgir dentre os homens, Deus não quis criá-lo do nada, como criou Adão. Obedeceu à regra da procriação que ele mesmo havia imposto: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). Jesus deveria, portanto, nascer de um pai e uma mãe. Contudo, sendo Ele Homem e Deus, seus pais deveriam ser: um divino e outro humano.

Ora, só o processo normal de gestação poderia caracterizar um nascimento humano. Por isso Jesus nasceu de mãe humana. O pai foi o próprio Deus, conforme as palavras do anjo a Maria: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado filho de Deus” (Lc 1, 35).

Por ter sido fecundada por Deus, e por ter gestado Jesus, Maria é a mãe legítima do Homem-Deus. Ela é mãe da Pessoa divina de Jesus, portanto de Deus.

Desde toda a eternidade Deus escolheu a mãe ideal para seu Filho. Embora humana, deveria Ela ter algo de divino, pela dignidade incomparável de ser Mãe de Deus. Maria é a mais perfeita das criaturas, excetuada a natureza humana de Jesus. Foi concebida sem a culpa original, possuía em altíssimo grau todas as virtudes e dons que lhe convinham.

José, pai adotivo de Jesus

Para respeitar a ordem natural, pela qual um homem nasce de um pai e uma mãe, Deus quis que Jesus tivesse também um pai humano. Entretanto, como seu pai natural foi o Espírito Santo, José tornou-se pai “adotivo” de Jesus. E, na qualidade de esposo de Maria, tinha direitos paternos efetivos sobre Jesus.

Cada membro da Sagrada Família recebe um culto particular: a Jesus prestamos latria (adoração, culto exclusivo a Deus); a Maria veneramos com o culto de hiperdulia (super veneração); e a José veneramos com o culto de protodulia (primeira veneração, acima de todos os santos). Aos outros santos da Igreja prestamos a dulia (veneração).

Segundo a tradição da Igreja, São José é considerado o padroeiro da boa morte, por ter dado seu último suspiro assistido por Jesus e Maria.

Anjos e demônios

Após ter criado os anjos, Deus comunicou-lhes que se uniria de forma misteriosa a um homem, divinizando-o. Este Homem-Deus e sua Mãe tornar-se-iam os Senhores absolutos do universo criado.

Entretanto, Lúcifer, o mais alto dos anjos, ao ouvir esta comunicação, encheu-se de inveja e ódio. Não quis aceitar que Deus escolhesse o gênero humano – e não o angélico – para unir-se. Mais especificamente, seu orgulho rejeitaria qualquer união que não fosse com ele próprio. Causou-lhe extremo desagrado saber que uma mulher seria elevada acima da categoria angélica, e deveria ser reverenciada como Mãe de Deus.

Então, aquele que era o primeiro dos anjos, revoltou-se e gritou: “Non serviam – Não servirei!” E com ele um terço dos anjos se revoltou contra Deus. Foi o primeiro pecado cometido no universo.

Miguel, um anjo fiel e submisso, indignado contra a revolta de Lúcifer, bradou: “Quis ut Deus?! – Quem como Deus?!” Houve então no Céu uma grande batalha entre anjos fiéis e anjos revoltados, ao cabo da qual todos os espíritos maus (demônios) foram precipitados num lugar inferior chamado Inferno. Cada um deles foi incorporado a uma chama punitiva, por toda a eternidade.

Por um único pecado foram os demônios castigados eternamente. Isto se deve ao fato de que os anjos possuem inteligência e vontade superiores: vêem as coisas com extrema clareza, e optam por elas de forma irrevogável. Se a um demônio fosse oferecida uma ocasião de arrepender-se e pedir perdão a Deus, ele jamais aceitaria.

A criação do homem

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, em estado de santidade e justiça inicial. Esta graça original era uma participação na vida do próprio Deus.

No início havia uma relação de amizade entre Criador e criatura. O homem estava em completa harmonia consigo mesmo e com as criaturas que o rodeavam.

Enquanto mantivesse suas boas relações com Deus, o homem não sofreria nem morreria.

Embora tivesse o homem uma natureza mortal, Deus o destinava à imortalidade (Cf. Sb 2, 23).

Estaria livre de qualquer inclinação ou paixão desregrada. Era também perfeita sua relação com a natureza. O Senhor deu-lhe o domínio sobre os peixes, as aves e todos os animais.

Depois o Senhor criou o jardim de Éden (Paraíso terrestre) e nele introduziu o homem, para que o cultivasse e guardasse. E deu a Adão uma ordem: “Podes comer de todas as árvores do jardim, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque no dia em que comeres, morrerás” (Gn 2, 16-17).

Não quis o Senhor que Adão fosse o único ser humano: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe será adequada.” (Gn 2, 18) Provocou então um profundo sono em Adão, durante o qual tirou-lhe uma das costelas, e dela fez a mulher.

O Pecado Original

A serpente, o mais astuto dos animais, seduziu e enganou Eva, dizendo que se comesse do fruto proibido “seria como Deus”.

Eva, desobedecendo então à ordem do Senhor, comeu do fruto proibido. Do mesmo modo que a serpente a enganara, Eva levou Adão a comer do fruto proibido.

Após terem pecado, desobedecendo ao Senhor, sentiram-se diferentes: notaram que estavam nus e se envergonharam. Estava assim introduzida a malícia na Humanidade.

Por aquele ato de desobediência, conhecido como pecado original, Adão e Eva foram expulsos do Éden. Como castigo, a mulher passou a ter incômodos durante a gravidez e dores no parto; tornou-se dependente do homem. O homem, que tinha o alimento à sua disposição, agora deve trabalhar para tirar da terra sua sustentação. Ambos tornaram-se mortais, bem como toda a sua descendência.

Eva pecou primeiro. Se apenas ela tivesse pecado, só ela seria punida e expulsa do Paraíso terrestre. Mas como Adão também pecou – e ambos constituíam “toda a humanidade” – o castigo foi aplicado a todos nós, seus descendentes.

O pecado Original foi o grande desastre da Humanidade. Mas Deus nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal.

Cf. Santo Agostinho, De Libero Arbitrio, I, 1, 2.

Como diz o provérbio popular, há males que vêm para bem. Na realidade, “nada pode acontecer, que Deus não tenha querido. Tudo o que Ele quer, por pior que possa parecer-nos, é o melhor para nós.”

São Tomás Morus, The Correspondence of Sir Thomas More, Ed. E. F. Rogers, Princton, 1947, p. 531.

De fato, a providência toda-poderosa de Deus pode extrair um bem até das conseqüências morais de um mal.

Por isso, embora o pecado Original tenha sido um tremendo malefício para a Humanidade, a liturgia católica exclama: “Ó feliz culpa, que nos trouxe um tão bom Salvador!”

Leitura, na Missa do Sábado de Aleluia.

A Redenção

Como conseqüência do pecado de nossos primeiros pais, o Céu se fechou, e a humanidade tornou-se indigna da glória eterna. O Pecado Original foi uma ofensa de gravidade infinita, porque o ofendido era o próprio Deus. E o homem, mera criatura, não podia reparar crime tão imenso.

Todos os filhos de Adão, quando morriam na graça do Senhor, eram levados para um lugar chamado Limbo. Neste local não há sofrimento, mas também não se vê a Deus. Durante milênios os justos do Antigo Testamento, impossibilitados de entrarem no Céu, foram povoando o Limbo, aguardando a vinda do Redentor.

Sim, somente Jesus poderia resgatar o gênero humano. Porque sendo homem como nós, também é Deus. Suas ações divinas têm méritos infinitos, capazes portanto de reparar aquela ofensa original de nossos primeiros pais, cuja gravidade era infinita.

Segundo alguns teólogos, ainda que não houvesse o Pecado Original, Deus Filho se encarnaria em Jesus. Mas sua missão Redentora não fez senão aumentar e enriquecer a grandeza de sua missão.

Chegada a “plenitude dos tempos”, o Verbo se fez carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus. O Pai enviou-nos seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados (Cf. Jo 4, 10).

A vocação do homem

Para que existo? O que é a vida? O que acontece quando minha ela termina?

Sendo o homem criado por Deus e para Deus, o desejo de encontrar seu Criador está escrito em seu coração: “Para vós nos fizeste e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós”.

Santo Agostinho, Confissões, I, 1, 1.

O homem é, portanto, um ser religioso por natureza.

Santo Inácio de Loyola assim define a vida humana: “O homem é criado para servir, louvar e glorificar a Deus e, mediante isto, salvar sua alma.”

Exercícios Espirituais, Princípio e Fundamento.

A razão de nosso existir está diretamente voltada para Deus, tanto nesta quanto na vida futura.

A noção do bem e do mal

Como ensina São Paulo, mesmo os pagãos têm à sua disposição os meios necessários para chegar ao conhecimento e amor de Deus:

O que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornaram visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. (...)

Por isso Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. (...)

Deus os entregou a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno” (Rm 1, 19 a 28).

O livro da Sabedoria reforça esta verdade de que o conhecimento de Deus pode e deve ser adquirido através das criaturas: “São insensatos por natureza todos os que desconheceram Deus, e, através dos bens visíveis, não souberam conhecer aquele que é, nem reconhecer o artista, considerando suas obras” (Sb 13, 1).

Todos nascemos com a noção do bem e do mal, que começa a se manifestar antes mesmo de adquirirmos o uso da razão.

A faculdade da razão se apresenta mais ou menos aos sete anos de idade, embora possa aparecer bem antes.

A criança inocente (que nunca pecou) sabe distinguir as coisas boas das más, as belas das feias, e as verdadeiras das falsas. Por isso fica com o rosto enrubescido ao mentir, abaixa a cabeça quando é surpreendida fazendo algo errado e tem medo das coisas feias.

A esta percepção, que aumenta com a chegada da razão, damos o nome de princípio sinderético ou sindérese da razão.

À medida que a criança viver sem pecar, essa noção vai aumentando; a adesão ao bem se reforça e, em sentido oposto, cresce a rejeição ao mal. Por isso, uma pessoa que não peca vai adquirindo uma certa infalibilidade. Torna-se dona da verdade. Participa, em certa medida, da visão que o próprio Deus tem das coisas.

O pecado cega

O pecado é uma ação contrária a Deus, contrária à ordem do universo, e contrária à nossa consciência. Por sermos racionais, quando cometemos um pecado, buscamos logo uma justificação para aquele ato. E como nada pode justificar o pecado, a nossa inteligência cria uma falsa razão.

Com a repetição de pecados assim “justificados”, em nossa inteligência vai-se enevoando a distinção entre bem e mal. A cada pecado cometido nos tornamos mais cegos: “O pecado cria uma propensão ao pecado; gera o vício pela repetição dos mesmos atos. Disso resultam inclinações perversas que obscurecem a consciência e corrompem a avaliação concreta do bem e do mal. Assim, o pecado tende a reproduzir-se e a reforçar-se, mas não consegue destruir o senso moral até a raiz” (CIC, 1865).

O que é pecar?

O que é propriamente o pecado? É praticar de forma consciente e voluntária uma ação ruim que viola algum dos Mandamentos. Em outros termos, o pecado foi definido por Santo Agostinho como “uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna”.

Para haver pecado é necessário saber que estamos cometendo uma ação má, e mesmo assim desejá-la.

Algumas ações aparentemente boas são, na realidade, pecado: “O ato moralmente bom supõe a bondade do objeto, da finalidade e das circunstâncias. Uma finalidade má corrompe a ação, mesmo que o seu objeto seja bom em si (como, por exemplo, rezar e jejuar ‘para ser visto pelos homens’)”. (CIC, 1755)

O pecado é uma falta contra a razão, contra a verdade e a reta consciência. É faltar no amor de Deus, por apego a bens passageiros.

A pior conseqüência do pecado é a perda do bom relacionamento com Deus. Com o Batismo, a Santíssima Trindade passa a morar em nossa alma. Ao pecarmos, expulsamos Deus de nosso templo interior e nos tornamos merecedores do Inferno.

Para reparar um só pecado, ainda que venial, Jesus teria oferecido todos os tormentos de sua Paixão e Morte. Nada é pior do que o pecado: ele é a causa de todos os males.

Mas lembremo-nos de que Deus, em sua infinita bondade, nos permite a qualquer instante, restabelecer o sagrado convívio com Ele (estado de graça), através do arrependimento sincero e da Confissão.

Para recebermos a misericórdia divina é mister confessarmos nossas faltas. Se dizemos que não temos pecados, enganamo-nos a nós mesmos e mentimos. Se, porém, confessamos nossos pecados, Deus nos perdoará (Cf. 1 Jo, 1, 8-9).

A morte

Enquanto leio estas linhas, muitas pessoas estão morrendo em diversas partes do mundo. Todos morrem; eu também morrerei. Quando? Só Deus sabe. Talvez daqui a anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos... Mas o momento chegará. Por isso rezamos sempre, na ave-maria, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.

O que acontecerá então comigo, quando morrer? O meu corpo entrará em decomposição. Apodrecerá e será comido pelos vermes.

Então deixarei de existir? Não! Os seres inteligentes, uma vez criados, existirão para sempre. A morte é apenas um episódio da minha vida.

Não existe “reencarnação” depois da morte: Os homens morrem uma só vez, e logo em seguida vem o juízo. (Cf. Hb 9, 27).

Com a morte, minha alma comparece diante do supremo Juiz, que proclamará uma sentença eterna, de acordo com a minha vida. Se morrer na graça de Deus, minha alma ouvirá: “Vinde, bendita, para a glória eterna!” E se morrer em pecado: “Ide, maldita, para o fogo eterno!” Uma vez pronunciado o julgamento, jamais haverá mudança na sentença. Estarei eternamente no Céu, ou eternamente no Inferno.

O Catecismo ensina que “cada homem recebe em sua alma imortal a retribuição eterna a partir do momento da morte, num Juízo Particular que coloca sua vida em relação à vida de Cristo, seja por meio de uma purificação (no Purgatório), seja para entrar de imediato na felicidade do Céu, seja para condenar-se de imediato para sempre” (CIC, 1022).

A alma que se esforça para viver na graça do Senhor prova às vezes um ardente desejo de se encontrar com Deus na outra vida. Alguns Santos, como Teresa de Ávila, chegavam a afastar essa ideia como tentação, pois lhes tirava o ânimo de enfrentar as dificuldades da vida.

É o que levou São Paulo a dizer sobre a morte: “O meu desejo é partir e ir estar com Cristo” (Fl 1, 23). E quando realmente sentiu aproximar-se o momento de sua partida definitiva, exclamou: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia” (2 Tm 4, 6 a 8).

Que bom chegar ao fim da vida tendo combatido o bom combate, tendo entregado a Deus todo o nosso ser, amando-O acima de todas as coisas! Quem vive assim não teme a morte, pois ela será realmente o “dia da libertação”.

Em uma das cartas de Santa Teresinha encontramos: “Eu não morro, entro na vida”.

A ressurreição dos mortos e o Juízo Final

Após a morte meu corpo se decompõe. Mas minha alma continua a existir, separada do corpo. Esta separação é temporária. Em determinado momento, ainda que do meu corpo só restem cinzas ou minúsculas partículas espalhadas por diversos lugares, ele será ressuscitado e voltará a unir-se à minha alma, como agora está unido: será esta a grande ressurreição dos mortos, conforme rezamos no Credo.

Neste momento, Cristo “virá em sua glória, e todos os anjos com Ele” (Mt 25, 31). “Todos os que repousam nos sepulcros ouvirão sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 28-29). Jesus então dará início ao Julgamento Final.

Os mínimos atos humanos, bons e maus, serão revelados ao conhecimento de todos. Iludem-se, portanto, aqueles que pensam agir às escondidas em determinadas circunstâncias: tudo está sendo visto por todos!

É muito proveitoso considerarmos que no dia do Juízo Final todos os nossos atos, até os pensamentos e desejos mais íntimos, poderão ser vistos por toda a Humanidade. A compenetração desta verdade de fé nos ajuda a optar sempre pelo bem.

Muitas almas vão para o Inferno

Raros são os que encontram o caminho da vida” (Mt 7, 14). São muitos, portanto, os que morrem em pecado. Alguns até aparentam ser bons, mas, como disse Jesus, “nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor´ entrará no Reino dos Céus” (Mt 7, 21).

Santo Agostinho chegou a afirmar que o Inferno está cheio de gente de “boa vontade”.

Numa das aparições de Nossa Senhora em Fátima, Ela mostrou aos Pastorinhos o Inferno. Suas fisionomias sérias e contraídas, fotografadas na ocasião, registraram quão terrível foi aquela visão:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor.

Os demônios se distinguiam por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta visão durou apenas um momento (...). Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Em seguida, levantamos os olhos para nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:

“– Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores? Para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.”

A Mensagem de Fátima, transcrição 7.

Não nos iludamos, portanto, com aquelas frases heréticas tão disseminadas em nossos dias: “Inferno não existe!” ou “o Inferno já é aqui, nesta terra!” ou “o Inferno existe, mas quase ninguém vai para lá, porque Deus é muito bom”...

Sim, Deus é a Bondade, mas não pode deixar de punir os que O ofendem, porque Ele é também a Justiça.

O Purgatório

Depois da morte, deveremos passar a eternidade no Céu ou Inferno. Não há outra opção.

As crianças que morrem antes de ter o uso da razão, e sem o Batismo, vão para o Limbo. As que morrem batizadas, mesmo recém-nascidas, vão para o Céu. Daí a importância de batizar os bebês o quanto antes.

Contudo, as almas que se salvarem, mas ainda não estão totalmente prontas para ver a Deus face a face, deverão passar um tempo no Purgatório, a fim de se purificarem.

Todo ser humano tem uma “quota” de santidade que deve atingir até o momento da morte. Caso tenha morrido em graça, mas sem completar esta “quota”, deve fazê-lo no Purgatório, antes de entrar no Céu.

À exceção dos mártires – que se purificam no próprio ato do martírio e estão, portanto, dispensados desta pena –, até grandes santos tiveram que provar o fogo do Purgatório. Santa Teresa de Jesus precisou passar por ele, durante o tempo de uma genuflexão. Outros passam horas, dias, meses, anos... Algumas almas estão condenadas a este tormento até o fim do mundo, quando entrarão no Céu.

É ainda preciso lembrar que, após a morte, a contagem do tempo obedece a um parâmetro diferente. Cada minuto aqui na Terra pode equivaler a muito tempo no Purgatório.

É ótimo costume rezar pelas almas do Purgatório. Sofrendo tormentos inenarráveis, elas esperam, ansiosas, o momento de entrar no Céu. Uma só ave-maria rezada aqui na terra pode pôr fim ao tormento de uma dessas santas almas. Por isso a Igreja oferece missas e diversas orações nesse sentido.

Em algumas ocasiões Deus permite que as almas do Purgatório se manifestem aos vivos, a fim de pedir-lhes orações. Costumam deixar então uma forte impressão no vidente, ou algum sinal no local, como queimaduras, marcas, mal-cheiro, etc.

É costume dos fiéis, rezarem três ave-marias pelas almas do Purgatório, quando necessitam acordar numa determinada hora, e não possuem despertador. Ao despertar, rezam mais três ave-marias para agradecer o favor.

Nesta ocasião as almas não costumam se manifestar de forma perceptível: a pessoa que pediu o favor tem a impressão de ter acordado por conta própria.

A tentação e a resistência da graça

Não há mal algum em ser tentado; o que não se pode é ceder à tentação. Até Cristo foi tentado em diversas ocasiões: no deserto, no Horto das Oliveiras, no Calvário. Em uma das vezes o pai das trevas propôs a Jesus que o adorasse. Como podia Satanás tentar o próprio Cristo? O demônio não tinha certeza de que Jesus era o Homem-Deus. E essa dúvida persistiu até o momento de Sua morte na Cruz.

O demônio não entendia Jesus, porque não consegue ver a graça. Quanto mais graça tem uma pessoa, mais ela é misteriosa para o diabo. A graça o cega.

Jesus foi, portanto, o maior dos mistérios para Satanás. Depois de Jesus, Maria, a mãe da graça divina. E assim acontece com todos os santos.

Toda alma em estado de graça é uma incógnita para os espíritos malignos. Eles conhecem nosso corpo e nossa alma, mas não vêem a ação da graça sobre nós. Por isso, não entendem como podemos resistir às suas tentações.

Como descobrir as sugestões do demônio

Tanto os anjos quanto os demônios podem sugerir-nos pensamentos, lembranças e imaginações. Como então discernir entre o bom e o mau espírito?

Se nos vem à mente uma imagem, ideia ou recordação imoral, não podemos ter dúvidas de que se trata de uma sugestão diabólica. A dúvida se põe quando a sugestão é ambígua ou aparentemente boa ou neutra, a tal ponto que pareça vir de nós mesmos.

São sinais característicos da presença diabólica: mal-estar físico, cansaço, doenças e perturbações interiores.

No caso da possessão diabólica, o demônio exerce (com permissão de Deus) domínio completo sobre o corpo da vítima, privando-a da liberdade de movimentos. Mas não pode dominar sua alma, que estará sempre livre para rejeitar o demônio e glorificar a Deus, ainda que neste estado.

São inspirados pelo maligno todos os sentimentos que nos causem desânimo, preguiça, tristeza, angústia, desespero e distância de Deus. A agitação, febricitação ou inquietude são sinais comuns da presença inimiga.

Aos que vivem no pecado, o espírito maligno fará imaginarem cenas imorais e prazeres sensuais fictícios. Aos que caminham na virtude, sugerirá escrúpulos, dúvidas e remordimentos de consciência.

Santo Inácio de Loyola diz que o demônio porta-se como mulher que, embora débil, tem muita força de vontade. Quando o homem a enfrenta, desanima e desiste; mas se o homem foge, ela vira uma fera. Assim também o demônio fica enfraquecido e perde o ânimo, fugindo com suas tentações, quando nos exercitamos nas coisas espirituais; mas quando demonstramos temor e desânimo ao enfrentar as tentações, o inimigo se torna feroz e parte para nos dominar.

Cf. Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais – Regras de discernimento de espíritos.

Outra característica do demônio é agir como um sedutor sensual, que usa de sua lábia para atrair uma menina de família ou a mulher de um bom marido, mas quer que suas palavras e sugestões fiquem secretas. Sabe que seu plano nefasto fracassará se for descoberto. Assim também o demônio é derrotado quando a alma tentada se abre a um confessor ou a uma pessoa espiritual de confiança.

O demônio age também como um chefe militar que, antes de atacar o inimigo, procura informar-se de todos os seus pontos fracos. Analisa-nos atentamente, para saber quais são as nossas fraquezas e necessidades.

Falácia sutil do espírito mau é sugerir bons pensamentos no início, e depois ir migrando paulatinamente rumo à imundície. Por exemplo, traz-nos à memória uma boa ação que fizemos, mostrando como Deus nos ajudou naquela ocasião... Começamos a recordar o episódio. Aproxima-se então (na imaginação) uma pessoa – que não estava na cena real – e faz-nos um elogio muito enfático. Nós agradecemos e pensamos: “Realmente, o que eu fiz foi genial!” Quando nos dermos conta, já estaremos atolados na lama da vaidade. O primeiro pensamento foi bom, mas a continuação levou ao mau.

Nestes casos, após notarmos a armadilha, convém refazer o caminho inverso que o inimigo usou para nos conduzir. Isso nos deixará mais atentos para discernir futuras enganações. Aprenderemos assim como o demônio age.

Há outra tentação de difícil percepção, na qual o inimigo se aproveita de nossos bons sentimentos, fazendo-os migrar até a perversidade:

Recebemos efetivamente uma graça de Deus, e enchemo-nos de consolação. Ficamos então meditando naquele favor divino. Em certo momento a ação divina se faz menos intensa e desaparece. Sem nos darmos conta de que Deus já não está ali, continuamos meditando, mas agora sob a influência de outro espírito, que nos levará para um mau pensamento.

Devemos, portanto, ficar muito atentos para saber o exato momento em que a consolação cessou.

Como notar a ação da graça

Em via de regra, a graça age de forma oposta à ação diabólica. Porém, é mais difícil de ser notada. Deus, os anjos e os santos são humildes, não fazem questão de que percebemos sua boa inspiração. A ideia parecerá nossa... Mas devemos aprender a reconhecê-la, e dar graças a Deus, sem apropriarmo-nos do que não nos pertence.

A inspiração divina está sempre envolta em paz e tranqüilidade, dando-nos ânimo no serviço do Senhor. A graça esclarece, eleva, fortifica, impulsiona, dá esperança, alegra e consola. Ela pode manifestar-se em forma de remorso na consciência, caso estejamos no mau caminho. É uma forma de provocar-nos o arrependimento. Também, se Deus quiser nos provar, nos privará da sensibilidade de sua graça, deixando-nos na aridez.

O próprio da graça é elevar o pensamento, mostrando as riquezas de Deus e da criação. Às vezes se apresenta de forma muito repentina e sensível, causando grande alegria, esclarecendo mistérios sublimes da divindade, podendo levar-nos ao êxtase ou à levitação. Produz tal bem-estar físico e moral, que trocaríamos um minuto desta sensação por todos os prazeres que a terra pode oferecer.

Quando Deus nos fala à alma provamos, por um instante, o sabor do Céu; degustamos um bocadinho da glória eterna. Esta ação sensível da graça se faz notar com certa freqüência para aqueles que começam a servir o Senhor. São as graças primaveris. Guardemo-las no coração com muito esmero, para delas nos lembrarmos nos momentos de provação.

A tríplice concupiscência

O demônio, o mundo e a carne, conhecidos como tríplice concupiscência, são três grandes sedutores do pecado.

Concupiscência: paixão desordenada. As paixões, em si mesmas, não são boas nem más; a razão e a vontade é que lhe darão qualificação moral. Ou o homem comanda suas paixões e obtém a paz, ou se deixa subjugar por elas e se torna infeliz (Cf. Eclo 1, 22).

O demônio é nosso principal inimigo. Trabalha incessantemente para nos levar à perdição. O mundo é o conjunto de hábitos e opiniões das pessoas que não vivem segundo Deus. A carne é a atração desregrada que sentimos pelo próximo, especialmente parentes. Entende-se também por carne o apetite sensual.

O poder do demônio

O demônio é um anjo decaído, que trabalha sem descanso para levar ao Inferno o maior número de pessoas. Embora extremamente agitado e impaciente, sua malícia e desejo de perdição podem transformar a pressa em cautelosa espera, a fim de armar-nos ciladas mais eficazes. Ele conhece todas as nossas fraquezas. É capaz de jogar com nossos sentimentos e pensamentos.

Note-se que o demônio não pode ler nosso pensamento; só Deus tem este poder. Mas assim como nós conseguimos intuir o que alguém está pensando, através das atitudes exteriores, o demônio também consegue, como bom psicólogo que é, fazê-lo de forma precisa.

Pode incutir-nos sensações, inspirar-nos idéias e imaginações, do mesmo modo que os anjos bons.

Com a permissão de Deus, pode dominar a lei da gravidade, apresentar-se em diversas formas, até com aparência humana ou animal, e pode possuir um corpo, dando-lhe os movimentos que quiser.

O sonho do demônio

O sonho do demônio é ser adorado. Ele gostaria de mostrar-se para toda a humanidade, recebendo as mesmas glórias e homenagens devidas a Deus. Mas repugnante como ele é, não pode fazê-lo de forma tão fácil.

Há muito tempo Satanás vem trabalhando para obter do mundo este reconhecimento. Suas imagens estão espalhadas por toda parte, em filmes, desenhos animados, livros, propagandas, etc. Normalmente aparece em forma de monstro, ora assustador, ora simpático e amigável. Apresenta-se como dotado de inteligência extremamente superior à humana, capaz de solucionar os problemas mais complicados e de criar máquinas e instrumentos de alta tecnologia.

Desde o berço, vai preparando as crianças para encontrar-se com ele. Os tais “monstrinhos” e bonecos estranhos que servem de “inocentes” brinquedos são, na realidade, instrumentos eficazes para atenuar sua imagem assustadora.

Imagens do demônio

Cem anos atrás, visse alguém um desses monstrinhos, diria: “É um boneco do demônio”. Hoje em dia eles vivem no meio das crianças com plena aceitação. Não é de se espantar que, aparecendo realmente a uma delas na forma de um boneco conhecido, seja muito bem recebido...

Um “ET” (extraterrestre), que outrora aterrorizava nossos antepassados, apresenta-se hoje como amigo afetuoso, sábio e caritativo. Não é essa uma vitória de Satanás?

Quando baixar um disco voador trazendo remédios que curem doenças como o câncer e a Aids, não é verdade que muita gente os receberá com entusiasmo?

Uma vez que Deus criou inteligentes apenas os anjos e os homens, os “extraterrestres” – inteligentes, não humanos e horríveis – só podem ser... demônios! Ainda que se apresentem como “habitantes de outros planetas”, sua moradia permanente não é outra senão o Inferno.

E ainda vão dizer: “Ele pode ser esquisito, mal-cheiroso e ter um aspecto bem grotesco... Mas ele nos curou! Quer nosso bem!” Mentira! O demônio nunca quer o bem de ninguém: vai exigir em troca a sua adoração, e a conseqüente negação de Deus.

Falsas promessas do demônio

O demônio nunca dá o que promete. Se ele vem oferecendo lazer, dará cansaço; se alegria, tristeza e sofrimento; se prazer, decepção e frustração; se dinheiro, pobreza. Ele é o “pai da mentira” (Jo 8, 44), cheio de lábia, enganoso. O que ele nos promete é o que na realidade deseja roubar-nos.

Deus age em sentido oposto: se nos pede sofrimento, é para dar alegria; se sacrifícios, é para dar prazer; se humilhações, é para exaltar-nos. E como é Infinito, mais tem Deus para dar, do que o demônio para tomar.

Jesus, que veio pregando o sacrifício e a renúncia, disse: “Suave é o meu jugo, e o meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30). Porque “ao homem que lhe agrada, Deus dá sabedoria, e conhecimento, e alegria; mas ao pecador dá trabalho” (Ecl 2,26).

O mundo

"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (Jo 15, 17).

Podemos dizer que o mundo é uma opinião, uma mentalidade e uma forma de agir sem Deus. O mundo é uma espécie de “juiz” oculto, que julga todas as nossas atitudes, aprovando-as ou condenando-as. Esse “juiz” mal-intencionado nos obriga a andar sempre na moda, nos dita os gestos e atitudes que devemos tomar, e até os assuntos sobre os quais devemos conversar. Apresenta-se como onipotente, incontestável. Impõe-se e quer a submissão universal.

Quaisquer gestos, palavras ou atitudes que fujam aos padrões mundanos são mal vistos. Sobretudo é mal visto o católico que leva a religião a sério, sem medo de enfrentar o mundo, para ser fiel ao Criador do mundo.

Ao medo de enfrentar essa opinião pública malfazeja, damos o nome de “respeito humano”. É a vergonha de mostrar-se católico, de levar no peito uma medalha de Nossa Senhora, um escapulário, de rezar o rosário em público, de fazer o sinal-da-cruz diante de uma igreja, de dizer que frequenta os sacramentos, de entrar numa fila de confissão, de defender a boa doutrina diante de quem a ridiculariza, etc.

O respeito humano é pecado, pois a Deus devemos respeitar em primeiro lugar.

Ninguém deve ter medo de declarar-se católico, nem de opor-se radicalmente às opiniões mundanas e professar a verdadeira fé. Assim fizeram os santos e os mártires, mostrando sua inquebrantável fidelidade às palavras de Jesus:

Quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai” (Mt 10, 32-33).

A carne

Eis outro grande adversário da santidade: a carne.

Através de preceitos e conselhos, Deus protegeu e santificou a união entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre os próximos em geral. Mas quando tais uniões se opõem à suprema união com Ele, perdem as bênçãos de Deus e se tornam reprováveis.

Todo vínculo parentesco que nos afasta da nossa vocação, que impede nosso bom relacionamento com Deus, é rejeitável: “Se alguém vem a mim e não odeia se pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. (...) Qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26 a 33).

Ao discípulo que queria enterrar seu pai antes de seguir o divino Mestre, Jesus disse: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus” (Lc 9, 59-60).

Grande é a recompensa, nesta e na outra vida, para quem rompe suas relações afetivas e segue o Senhor: “Ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna” (Lc 18, 29-30).

A necessidade da perseverança

Militia est vita hominis super terram – A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1). Sim, estamos em estado de prova. Nossa vida é uma árdua batalha para alcançar um prêmio gigantesco, de proporções infinitas.

Por isso, Jesus afirmou: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á. Pois que aproveitará o homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 34-35).

Mesmo se vivêssemos cinco mil anos, não valeria a pena perder um minuto sequer, com coisas que não agradam ao Senhor. Pois a única coisa que importa é a glória d´Ele e nossa salvação eterna. A vida acaba logo: o que são cem anos em comparação à eternidade? É, pois, a eternidade que está em jogo em tão poucos anos de vida.

São Paulo nos convida a fazermos tudo como se nada fizéssemos, pois a vida terrena é curta: “Eis o que vos digo, irmãos: o tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 29 a 31).

Por isso, mais vale nos sacrificarmos, que termos vida regalada: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição, e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida, e raros são os que o encontram” (Mt 7, 13-14).

Todos os bens terrenos são passageiros: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro está teu coração” (Mt 6, 19-21).

Se nosso tesouro for só Deus, nós o amaremos na terra, e gozaremos de sua presença durante a eternidade. Porque Ele é o único tesouro que podemos levar para o Céu.

Portanto, nossa renúncia deve ser radical. O Céu é dos violentos: "Se a tua mão te escandaliza, corta-a: pois é melhor para ti entrares maneta na Vida do que tendo as duas mãos, ires para o Inferno, para o fogo inextinguível, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. E se teu pé te faz tropeçar, corta-o: pois é melhor entrares na Vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no Inferno onde o fogo não se apaga e os vermes não morrem” (Mc 9, 43-48).

O fenômeno G-20

Esse discurso categórico de Jesus pode assustar a nossa geração. Aliás, não deixava de assustar os judeus daquele tempo. Mas o homem de então tinha uma força de vontade mais robusta.

Santo Inácio de Loyola, estando em recuperação de uma perna quebrada, notou que o osso ficara torto. Ordenou então aos médicos que o quebrassem novamente, para ficar no lugar. Note-se que naquele tempo não havia anestesia. Esta é uma atitude típica de pessoas com maior força de vontade.

Numa pessoa bem estruturada, a inteligência deve dominar a vontade, que por sua vez dominará a sensibilidade. Este é o equilíbrio perfeito entre as potências.

Mas quando a sensibilidade subjuga a vontade e a inteligência, o ser humano fica desequilibrado, sujeito à escravidão dos vícios.

Ora, o homem é racional, e precisa de razões para justificar suas atitudes. Se a ação não for uma conseqüência da razão, esta última terá que se adaptar à ação e justificá-la: Quem não vive como pensa, acaba por pensar como vive. Nascem daí toda sorte de idéias e concepções erradas que, ao abandonarem o âmbito pessoal, tornam-se correntes de pensamento, filosofia de vida, falsas religiões, etc.

Se estudarmos com acuidade o comportamento humano nas últimas décadas, notaremos um aumento significativo da sensibilidade, em detrimento da razão e da vontade.

Este fenômeno parece ter afetado também a capacidade de memorizar. São muitos os jovens que se sentem fracos de memória, o que por vezes causa-lhes desânimo e transtornos psíquicos.

Quanto mais nos aproximamos dos dias em que vivemos, menos trabalha a razão, e mais o sentimento; o homem tende a guiar-se apenas por seu instinto animal. Força de vontade é uma qualidade rara, sobretudo quando se trata de praticar a virtude.

A este fenômeno, característico das gerações mais recentes, daremos o nome de “G-20” (geração século XX).

Até há quem se desdobre para ganhar dinheiro, fama ou conquistar glórias pessoais. Mas os que querem empenhadamente servir a Deus... são raros!

A “Geração Século XX” é fraca de vontade, e preguiçosa de inteligência. Faz o que dá na cabeça, age segundo seus caprichos; é inimiga de todo esforço físico e intelectual. A luz da razão e até a da memória parece ofuscada e tênue.

O indivíduo G-20 só vai bem nos estudos porque o grau ínfimo de esforço exigido atualmente por grande parte das escolas é compatível com sua preguiça. Mas ai do professor que exigir muito! Será alvejado de todas as formas possíveis.

Que efeito tem o fenômeno G-20 sobre a vida de santidade? Ao contrário do que parece, pode até facilitar.

G-20 e santidade

Quando um G-20 se entrega à ação da graça, ninguém pode com ele, nem mesmo o demônio: “Tudo posso, naquele que me fortalece” (Fil 4, 13).

O fato de sentir-se fraco fá-lo recorrer com mais humildade e freqüência a Deus. E o Senhor, para suprir sua debilidade, dá-lhe graças mais abundantes.

O G-20 deixa-se levar mais facilmente pelo sopro do Espírito Santo. A boa estrutura humana de nossos antepassados fazia deles pessoas mais autoconfiantes, mais capazes de agir por si sós; nossa fraqueza, pelo contrário, clama pelo auxílio divino.

E quanto mais clara for a noção da nossa miséria, tanto mais predispostos estaremos a receber as graças de Deus.

O que os nossos antepassados faziam com vinte por cento de ajuda de Deus, nós só fazemos, digamos, com oitenta por cento. O resultado é feliz: entrando mais porcentagem divina, a ação é mais santa, mais perfeita. Por isso disse São Luís Grignion de Montfort que os santos dos últimos tempos seriam como carvalhos, comparados a graminhas.

Onde está o mérito desta santidade? Está em deixar-se levar pela divina Providência. Nas obras de Deus, o mais importante não é fazer, mas deixar que Ele faça.

Sim, parece simples... Mas o fato de o homem ter vontade própria – ainda que fraca como a do G-20 – faz com que ele queira caminhar por suas próprias pernas, correr livremente por onde melhor entende.

Pôr-se no “colo” de Deus para que Ele nos conduza sempre segundo sua graça é um ato heróico de virtude. É este o segredo da santidade: ser escravo da graça. Assim, o G-20 que se põe nas mãos de Deus para vencer a vida, facilmente surpreende por suas ações, nas quais brilham uma inteligência e uma força de vontade que ele parecia não ter. De fato, não tem, mas Deus lhe dá, e com abundância.

Como a ação da graça não costuma ser permanente, o G-20 se sente muitas vezes débil e amedrontado quando se vê abandonado à sua miséria. Isto é ótimo, pois ele terá sempre a convicção de que suas boas ações não vêm de si, mas de Deus.

A rejeição ao pecado e a busca da perfeição

A natureza humana, enfraquecida pelo pecado Original e pelos pecados individuais, tende a praticar o mal. Quanto mais pecados comete, mais quer cometer.

O justo peca sete vezes ao dia”, diz a Escritura (Pv 24, 16). E “não há homem que não peque” (Ecle 7, 21). Todos cometemos imperfeições, ainda que pequenas.

Nem mesmo Deus fez todas as coisas em seu auge de perfeição. Somente três criaturas são impassíveis de aperfeiçoamento: a visão beatífica, Jesus e Maria.

A visão beatífica porque é a visão do próprio Deus, infinitamente perfeito; a natureza humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, por estar hipostaticamente unida a Deus; Nossa Senhora, porque a dignidade de ser a Mãe de Deus e Rainha do Universo não é compatível com qualquer imperfeição.

Todas as outras criaturas, à exceção dessas três, poderiam ter sido criadas mais perfeitas.

Em sua sabedoria e bondade, Deus criou o mundo em estado de “caminhada” rumo à perfeição, para que nós pudéssemos colaborar no aperfeiçoamento de tudo. É para Deus uma glória ter criaturas que levem à perfeição aquilo que Ele começou.

Por isso, existem graus diversos de perfeição e defeito nas criaturas. Algumas nascem, outras morrem; algumas são construídas, outras destruídas; algumas são belas, outras feias; algumas boas, outras são más.

É uma honra, para o homem, participar deste aperfeiçoamento. De certa forma é colaborar no ato criador de Deus. Deste ato participamos todas as vezes que melhoramos as coisas boas, ou quando destruímos as más, eliminando assim um erro ou uma maldade da criação. É como se limpássemos e lapidássemos uma pedra preciosa, que estava incrustada de minerais feios e sujos.

De todas as coisas que podemos melhorar no mundo, nada é mais importante do que nós mesmos. E o grau de perfeição que devemos atingir é não apenas insondável, mas infinito: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

Neste sentido, evitar o pecado e praticar a virtude é uma obra “criadora”. Devemos, pois, a todo custo evitar o pecado e buscar a santidade. Não uma santidade comum, mas a santidade do próprio Deus.

A prática do bem

Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, tudo o que há de louvável, honroso, virtuoso ou de qualquer modo mereça louvor” (Fl 4, 8).

Quem quer ir para o Céu deve buscar em tudo a perfeição. Não basta ser “bonzinho”, não basta levar uma vida medíocre, sem grandes horizontes e perspectivas. Deus rejeita a mediocridade, tem nojo dela: “Oxalá fosses frio ou quente! Mas como és morno, nem frio e nem quente, vou vomitar-te” (Ap 3, 15-16). A tibieza é adversária declarada das almas que buscam a santidade.

Para ser proclamada santa pela Igreja, uma pessoa deve praticar a virtude de forma heróica. E herói é aquele que faz proezas, que arrisca a vida para praticar o bem. No Céu todos são heróis. Ali só há gente que batalhou duramente contra seus defeitos e vícios, que venceu o demônio, o mundo e carne, que se renunciou para seguir Jesus.

Do mesmo modo consideremos vida de virtudes. Fazer o bem não é só ir à missa no domingo e dar de vez em quando uma esmolinha. A santidade exige renúncias e sacrifícios, que estão resumidos nos dez Mandamentos.

Os Mandamentos

Embora já escritos em nossas almas desde o nascimento, Deus quis instruir-nos paternalmente com os Mandamentos de sua divina lei.

“Os dez mandamentos estão gravados por Deus no coração do ser humano” (CIC, 2073). “A lei natural se acha escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque ela é a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar. (...) A lei divina e natural mostra ao homem o caminho a seguir para praticar o bem a atingir seu fim. A lei natural enuncia os preceitos primeiros e essenciais que regem a vida moral” (Idem, 1954-1955).

Entregou-os a Moisés para servir-nos de “corrimão” na escada que leva ao Céu. A partir de então ficou delineado um exato limite entre o bem e o mal.

O primeiro e mais importante dos mandamentos é amar a Deus sobre todas as coisas. Amar a Deus, portanto, não é para o homem uma opção: é uma obrigação. E não podia ser diferente: Deus nos criou do nada e nos oferece contemplá-Lo durante toda a eternidade! Como não amá-Lo acima de tudo?

O segundo preceito nos obriga a respeitar o Nome de Deus, a não empregá-lo de forma banal. O terceiro manda guardar os dias santos. O quarto nos obriga a honrar nossos pais. O quinto, a não matar. O sexto, a não pecar contra a castidade. O sétimo, a não roubar. O oitavo, a não mentir. O nono, a não desejar o cônjuge de outrem. E o décimo, a não cobiçar as coisas alheias.

São apenas dez as regras que devemos guardar para chegar ao Céu.

Para garantir aos fiéis uma participação mínima indispensável na vida eclesial, a Igreja promulgou cinco leis positivas, que devem ser cumpridas juntamente com o Decálogo: 1) Abster-se de ocupações de trabalho e participar da missa inteira no domingo e outras festas de guarda; 2) Confessar-se ao menos uma vez por ano; 3) Receber o sacramento da Eucaristia ao menos pela Páscoa da ressurreição; 4) Jejuar e abster-se de carne, nas ocasiões estipuladas pela Santa Igreja; 5) Ajudar a Igreja em suas necessidades.

Mas ninguém pode, por si só e de forma estável, praticá-las na sua totalidade, sem a graça de Deus. Aliás, não podemos sequer pronunciar o nome de Jesus com mérito e piedade, sem o auxílio da graça: “Eu sou a videira, e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).

O amor a Deus

Amar a Deus sobre todas as coisas é o principal dos Mandamentos. Quem ama a Deus em primeiro lugar, tem facilidade para praticar os outros preceitos; e quem falha no cumprimento de qualquer dos outros nove Mandamentos, falhou também no primeiro. Quando Deus está no centro, tudo vai bem; quando não, tudo vai mal, ainda que pareça bem. O amor de Deus está no centro de tudo o que é feito de bom no mundo.

O que é amar? Amar é “querer bem”, é querer o bem de quem se ama. É estar junto de quem amamos, é não conseguir passar muito tempo sem pensar no amado. O amor une, torna semelhante, transforma, iguala. O amor faz tudo para não magoar o amado. Ele se desdobra, cresce, progride. Ele é meigo, cheio de afeto e carinho. O amor é criativo, perseverante, incansável. Ele prevê e previne. Ele ajuda, aconselha, respeita. Protege o amado, e enfrenta seus inimigos.

Bons pensamentos e sentimentos, bons desejos e ações são adornos perpétuos do amor. O amor é dedicado e desinteressado, fiel e confiante. Sofre sem titubear, está disposto a dar a vida pelo amado, a qualquer instante. O amor ama quando vê e quando não vê, quando ouve e quando não ouve; ele ama quando o amado está presente e quando está ausente; ama quando se sente amado, e ama quando desprezado; ama sentindo o amor, e ama na aridez da sensibilidade. O amor não pensa no seu próprio sentimento, mas só no amado. Sim, porque o amor não está no sentir, mas no querer. Amar é “querer bem”.

O amor gera intimidade. Nada nesta vida pode se equiparar aos deleites de privar intimamente com Deus, ouvir Sua voz no silêncio de nosso interior, encostar o ouvido em Seu Coração para compartilhar Seus planos, intenções e sentimentos.

Certa vez estava Santa Teresa de Jesus em seu convento, quando notou a presença de um estranho. Aproximou-se e percebeu que se tratava de um menino. Espantada pela audácia do pequeno intruso, perguntou a Santa: Ei, menino, quem é você?! Ele, então, com ar de superioridade, devolveu a pergunta: Eu é que pergunto: quem é a senhora?!

Eu sou Teresa de Jesus!

E eu sou Jesus de Teresa.

Assim Deus costuma tratar as almas que lhe são íntimas. Por vezes até “brinca” e “graceja” com elas.

A limitação do amor

Embora não pareça, o amor humano é limitado. Só o de Deus não tem medidas. Por isso, nossa quota de amor é dividida entre tudo o que amamos: parentes, amigos, objetos, interesses pessoais, lazer, diversão, sensações, comodidades, boa comida, pequenos ou grandes vícios, etc.

Dependendo da intensidade e quantidade do amor que aplicamos às coisas terrenas, o que sobra para Deus é... nada, ou quase nada. Neste caso, não é a Deus que amamos “sobre todas as coisas”, mas sim “todas as coisas” mais do que Deus.

Santo Agostinho diz que só há dois amores: o que devotamos a Deus, e o amor-próprio. Ou seja, é por amor a nós mesmos que nos apegamos a tudo o que não é Deus.

Note-se que amar a Deus “sobre todas as coisas” não significa “amar só a Deus”. Devemos amá-Lo com um amor principal e exclusivo, como Ele merece; e a todas as outras coisas criadas, amaremos por amor d´Ele. A beleza do universo é um constante convite ao amor de Deus: “A grandeza e a beleza das criaturas levam, por analogia, à contemplação de seu Autor” (Sb 13, 5).

Deus está presente em todas as coisas, para sustentá-las na existência. Além disso, tudo o que é verdadeiro, bom e belo, reflete a Deus como num espelho. A criação é o telescópio através do qual podemos ver a Deus. E sendo o homem a criatura visível mais semelhante a Deus, devemos “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos”.

Para amar a Deus, não nos preocupemos tanto com as coisas que devemos fazer, ou com a maneira de fazê-las. Nossa primeira preocupação deve ser amá-lo: o resto vem por si. “Ama et quod vis fac – Ama e faz o que quiseres”, diz Santo Agostinho.

Jesus não se importa com o que fazemos, desde que o façamos por Ele, com Ele, n´Ele e para Ele: “Fili, relinque te et invenies me – Meu filho, deixa-te, e tu me encontrarás”. “Non quæro dona tua, sed te – Não quero os teus dons, mas a ti”.

Thomas Kempis, Imitação de Cristo, Livro III, cap. 37, 1 e Livro IV, cap 8, 1.

O amor a Deus rejeita o pecado e frutifica em boas ações. “Permanecei em meu amor. Se observais os meus mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15, 9-10).

O amor ao próximo

A caridade era uma virtude desprezada até a vinda de Nosso Senhor. Amar o próximo foi uma grande inovação que Jesus trouxe ao mundo, em nível de relacionamento humano. “Dou-vos um mandamento novo: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13, 34).

Devemos amar ao próximo “como Jesus nos amou”. Como foi que ele nos amou? Entregando sua vida por nós e morrendo na Cruz: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1 Jo 3, 16). Para a caridade, pois, não há limites.

Antes da vinda do Messias, o relacionamento humano era deveras primitivo, chegando ao animalesco. Depois que Jesus pregou o amor fraterno, era comum ouvir dos pagãos este elogio ao afeto dos cristãos: “Como eles se amam!”

Aos coríntios, São Paulo assim descrevia a caridade cristã: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará” (1 Cor 13, 4 a 8).

Não imaginemos, porém, que o amor ao próximo se aplica somente àqueles que têm por nós alguma afeição ou simpatia: é preciso amar os antipáticos, os que nos causam repulsa, que nos acusam, que tramam contra nós, que nos odeiam e querem nos destruir.

Eis o extremo de caridade que nos pede o Salvador: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam; abençoai aqueles que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos caluniam. E a quem te bate numa face, apresenta-lhe também a outra. E a quem te leva o manto, não recuses a túnica. Dá a quem te pede e não reclames de quem toma o que é teu. Como quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. E se amais apenas os que vos amam, que méritos tereis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem aos que vo-lo fazem, que méritos tereis? Até mesmo os pecadores agem assim” (Lc 6, 27-33).

Jesus derramou seu preciosíssimo Sangue por todos nós, santos, medíocres e bandidos. Por isso, todos são dignos do amor fraterno. É bom ainda considerar que, até o último instante de vida, qualquer bandido, por pior que seja, pode receber a graça da conversão.

Ninguém deve contar com uma graça final de conversão para se salvar. Seria uma afronta a Deus julgar que podemos levar uma vida devassa e nos converter no fim da vida. Como diz o provérbio latino, “talis vita, finis ita” – Assim como foi a vida, assim será a morte. Morre-se como se viveu.

Esclareçamos apenas que o amor aos pecadores exclui a complacência com o pecado deles. Sejamos misericordiosos com os pecadores, mas ponhamos limites à sua ação quando começam a comprometer a salvação de outros.

Assim agiu o divino Mestre quando deblaterou tantas vezes contra os fariseus e expulsou com sua própria correia os vendilhões do Templo.

Por isso, a mãe que castiga seu filho e lhe diz duras palavras demonstra amor e zelo por ele. Pelo contrário, “o pai que poupa a vara a seu filho o odeia” (Prov 13, 24).

A Humildade

Todas as virtudes são interligadas, de forma que o progresso de uma favorece as outras. Em sentido oposto, se relaxarmos na prática de uma só delas, todas enfraquecerão.

Algumas virtudes dependem de outras para serem bem praticadas. Portanto, umas são mais importantes que outras. A humildade é a principal das virtudes.

Ser humilde consiste em aceitar a realidade a nosso respeito, sem atribuir-nos qualidades ou defeitos que não temos. Por isso se diz que a humildade é a verdade.

Os dois grandes pecados cometidos no universo foram contra humildade. Primeiro, o dos anjos revoltados; depois o Original, de Adão e Eva.

Lúcifer julgou-se um espírito superior, que não podia ter ninguém acima de si. Por isso revoltou-se contra Deus.

No Paraíso, Eva cedeu à tentação de querer “ser como Deus”. Eis a tentação máxima de todo ser inteligente: ser como Deus.

Todo homem tende a julgar-se superior aos outros em algum ponto – quando não em muitos! Curiosamente, considera-se superior com facilidade nas qualidades que não possui.

Por exemplo, o que acrescentaria a Camões, receber um elogio de que era “um excelente escritor”? Nada, porque merecida e reconhecidamente ele o era! Mas suponhamos que Camões não tivesse boa voz e, de vez em quando, cantarolasse uma cançãozinha popular. Se alguém o elogiasse dizendo “que voz bonita!”, ele facilmente se julgaria um cantor extraordinário...

Havia na França um rei que, em suas horas vagas, punha-se a pintar quadros. Certa feita, recebendo a visita de um renomado pintor, perguntou-lhe o que achava de suas obras de arte. O pintor sentiu-se um tanto constrangido em dizer que não eram belas. Então respondeu: “O que diria Vossa Majestade se eu, pintor, nas minhas horas vagas resolvesse governar a França?...”

Este rei podia ser ótimo governante, mas disso certamente não se envaidecia. Porém, um elogio a alguma de suas discutidas qualidades facilmente o encheria de orgulho.

O humilde é indiferente à crítica ou à aprovação. Aliás, prefere a humilhação, que é eficaz para reparar os pecados e acumular prêmios no Céu.

Deus se compraz deveras com o coração humilhado, e rejeita o orgulhoso: Derruba do trono os poderosos e exalta os humildes (Cf. Lc 1, 52).

São João da Cruz, ao narrar uma grande provação pela qual passou, disse: “Desci tão baixo, tão baixo... que toquei com as mãos nas estrelas”.

A Confiança

A confiança é uma virtude indispensável nos momentos de provação. Na dificuldade, não basta saber que Deus pode e quer nos ajudar; é preciso ter a convicção de que Ele efetivamente nos ajudará. Deus ama esta confiança, e a premia de forma especial. Os grandes santos tiveram sua confiança provada, às vezes em grau espantoso. Mas sempre, ainda que à última hora, chegou-lhes o auxílio divino.

No Antigo Testamento temos um exemplo comovente. Abraão leva para o alto de uma montanha seu próprio filho para sacrificá-lo, a pedido de Deus. O mesmo filho através do qual Deus havia dito que teria uma descendência mais numerosa que as estrelas do Céu. Abraão, demonstrando uma confiança inabalável na Providência divina, conduziu seu único filho até o monte e, num gesto inusitado de confiança, levantou o cutelo para sacrificá-lo. Deus, tendo provado ao extremo a confiança do santo, enviou um anjo para impedir o sacrifício no último instante.

Não menos angustiante foi a provação de São José, o castíssimo esposo de Maria. Sabendo que a Santíssima Virgem Maria era totalmente incapaz de traí-lo, tinha contudo, diante dos olhos, as evidências de uma gravidez. Ambos haviam feito, por inspiração do Senhor, voto de celibato desde a infância. Sabendo, portanto, que não era ele o responsável pela gravidez, restava-lhe somente a perplexidade. Segundo as leis então em vigor, deveria denunciar a esposa às autoridades, a fim de que ela fosse punida.

Sem entender a situação, mas confiante nos desígnios da Providência, decidiu apenas deixar sua esposa, mudando-se para outro lugar. Dormiria em casa sua última noite, e partiria no dia seguinte. Mas durante o sono apareceu-lhe um anjo do Senhor, dizendo que a gravidez de Maria era obra do Espírito Santo, e que o Messias prometido nasceria de sua esposa.

Deus nunca nos pede um sacrifício sem dar-nos a força para suportá-lo: "Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além do que podem as vossas forças, antes fará que tireis ainda vantagem da mesma tentação, para a poderdes suportar!" (1 Cor 10, 13).

Mas às vezes nos deixa quase sucumbir, antes de apresentar a solução. Outras vezes vai atrasando a solução, e dando-nos mais forças para agüentar o fardo: “Deus qui ponet pondus, suponet manus” — Deus que põe o peso, sustenta-o com a mão.

Nada pode ser para nós razão de desânimo ou descofiança. Até nas mínimas coisas devemos contar com a providência divina: “Não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou, que iremos beber? (...) Vosso Pai celeste sabe que tendes necessidades de todas essas coisas. Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos virão por acréscimo” (Mt 6, 31-36).

Sim, Deus vela por nós, cuida até da nossa alimentação, das coisas mais simples de que precisamos. Quanto mais não cuidará da nossa salvação!

O próprio Senhor é quem traça o destino da Humanidade e da História: “Muitos são os projetos do coração humano, mas é o desígnio do Senhor que permanece firme” (Pr 19, 21). Em termos populares, o homem propõe e Deus dispõe.

Nosso coração só bate porque Deus lhe dá a vida a cada instante, a cada milésimo de segundo. Só Ele é o Autor da vida, e só Ele pode determinar o fim de cada existência. Por isso diz a Bíblia que nenhum fio de cabelo cai de nossa cabeça sem que Deus o saiba.

Aproximemo-nos, pois, de Deus e a Ele nos entreguemos inteiramente. Fujamos para Ele e n´Ele nos refugiemos sempre. Pensemos n´Ele, para que Ele pense em nós.

A Castidade

No Paraíso o homem possuía o dom da integridade, que lhe dava o equilíbrio perfeito das paixões. Depois do Pecado Original, nosso lado carnal passou a exercer uma influência maléfica sobre o lado espiritual: "A carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne" (Gl 5, 17).

A prática da pureza eleva a alma e espiritualiza o corpo; a impureza rebaixa o corpo e materializa a alma.

Castidade é a abstinência da relação sexual fora do matrimônio. E por matrimônio entende-se exclusivamente o Sacramento da Igreja que oficializa a união de um homem com uma mulher. Qualquer união que não seja matrimonial é uma ofensa a Deus, devendo ser desfeita ou oficializada de forma sacramental.

O catecismo nos ensina como práticas contrárias à castidade: a luxúria (desejo ou gozo desregrado do prazer venéreo); a masturbação (excitação voluntária dos órgãos genitais, a fim de conseguir um prazer venéreo); a fornicação (união carnal fora do casamento entre um homem e uma mulher livres); a pornografia (exibição de atos sexuais ou matéria impudica a terceiros); a prostituição (prática do ato sexual em troca de algo); o estupro (penetração à força, com violência, na intimidade sexual de uma pessoa).

Mais grave ainda é o incesto, estupro cometido pelos pais ou educadores contra as crianças que lhes são confiadas (Cf. CIC, 2351 a 2356).

Para vencer as tentações contra a castidade é preciso fugir e rezar. Algumas tentações, como a preguiça e a gula, são vencidas com o enfrentamento, com força de vontade; a impureza só se vence fugindo e rezando.

A partir do instante em que notamos o primeiro sinal de tentação, devemos interromper imediatamente o contato com a causa desta sensação. Se a interrupção não for imediata, começa aí o pecado.

A lentidão para afastar a tentação já é pecado venial, podendo tornar-se facilmente mortal. Mais: o fato de pôr-se em ocasião de pecar já é pecado. De fato, "quem ama o perigo nele perecerá" (Eclo 3, 27).

A virtude da castidade é comandada pela virtude cardeal da temperança, que tem em vista fazer depender da razão as paixões e os apetites da sensibilidade humana. O domínio de si mesmo é um trabalho a longo prazo. Nunca deve ser considerado definitivamente adquirido. Supõe um esforço a ser retomado em todas as idades da vida (Cf. Tt 2, 1-6).

A mortificação é, pois, uma forte arma para se fortalecer contra o espírito da impureza. São Paulo se mortificava severamente para livrar-se das tentações da carne: "Castigo o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros, eu mesmo venha a ser réprobo" (1 Cor 9, 27).

O Apóstolo se via de tal modo atormentado pelas solicitações da carne, que pediu a Deus o fim dessas tentações: “Três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2 Cor 12, 8-9). Vemos, pois, que muitas vezes Deus permite o flagelo de tais tentações para manter seus servos na humildade.

Para evitar a impureza é preciso ter muita vigilância. A pureza pode ser comparada a uma esfera sobre a qual estamos equilibrados: qualquer movimento, ainda que pequeno, leva facilmente à queda.

Assim, não é preciso pôr em prática uma ação sensual para pecar contra a pureza: o fato de desejá-la já é pecado: “Quem olhar para uma mulher com intenção impura no coração, já adulterou com ela” (Mt 5, 27-28). Daí o Mandamento: “Não desejarás a mulher de teu próximo” ou, para melhor interpretação: “Não desejarás o cônjuge de outrem”.

Claro está que a consumação do pecado ainda aumenta sua gravidade, tornando o réu merecedor de penas maiores.

Há tentações que só vencemos enfrentando, como a gula, a preguiça, a tristeza. Mas outras só são derrotadas quando fugimos. Assim é com a inveja, a soberba e a impureza, da qual estamos falando. A arma mais eficaz é a fuga.

Fugir significa não contra-argumentar com o demônio: é preciso imediatamente mudar de assunto, de pensamento ou de lugar conforme a necessidade. Quem se põe a dar razões para não ceder, sem fugir, leva sempre a pior, pois o espírito pode até estar pronto, mas a carne é fraca.
É interessante notar que a tentação não costuma se prolongar, desde que sejamos categóricos em rejeitá-la logo no início. O que parecia tão forte e imponente desaparece num instante. E já livres da ação preternatural, notamos que teria sido um absurdo pecar.

Os olhos desempenham um papel importantíssimo na prática da pureza, pois o que os olhos não vêem, o coração não sente. Qualquer imagem desagradável que por eles entre, poderá depois ser trabalhada pela memória, ocasionando grande risco de pecado.

Nosso Senhor disse: “São os olhos as lâmpadas do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas” (Lc 11, 34). E Santo Agostinho adverte: "Não digais que tendes almas puras se tendes olhos impuros, porque os olhos impuros são mensageiros dum coração impuro".

Epist. 211, n. 10; PL 33, 961.

No Sermão da montanha Jesus proclama “bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!” (Mt 5, 8). Comentam os teólogos que, nesta passagem, “ver a Deus” significa vê-lo ainda aqui na terra, antes da visão beatífica (pois lá todos O verão). Significa vê-lo nas almas dos justos, através do dom de discernimento dos espíritos.

Com efeito, a castidade é a virtude que mais recompensa aqueles que a ela se entregam: torna a alma leve, introduzindo uma paz que já é um antegozo da felicidade celeste.

A deificação do homem

Na Constituição Gaudium et Spes, João Paulo II afirmou: “Não é lícito ao homem desprezar a vida corporal; ao contrário, deve estimar e honrar seu corpo, por ser criado por Deus e destinado à ressurreição no último dia”.

Item 14, 1.

Com o batismo, nosso corpo se torna “templo do Espírito Santo” (1 Cor 6, 9). No tabernáculo que é nosso corpo, vive de forma efetiva a Santíssima Trindade. Por onde formos, levamos Deus como num relicário.

Mais ainda. O Batismo imprime caráter e é indelével. Dá-nos uma nova vida: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2 Cor 5, 17).

Ao recebermos o santo Batismo, Deus nos adota como filhos, de tal forma que passamos a participar da própria vida d´Ele: “A graça é uma participação na vida divina; introduz-nos na intimidade da vida trinitária” (CIC, 1997).

A graça nos santifica e nos deifica.

Como diz Santo Atanásio, “o Filho de Deus se fez homem para nos fazer deus”.

De Incarnatione, 54, 3.

Quão diferentes seriam nossas atitudes, se tivéssemos esta verdade sempre em vista! Tal divinização do homem, através da graça, confere-lhe uma responsabilidade extremamente séria. “A quem muito foi dado, muito será pedido” (Lc 12, 47-48).

O fato de Deus habitar em nós exige uma atitude de total sacralidade da nossa parte. Devemos agir segundo a condição de deuses, à qual fomos elevados pela graça, buscando a perfeição em tudo o que fizermos. Pensar, falar, gesticular, comer, beber, sentar-se, levantar-se, caminhar, brincar, praticar esportes, estudar, trabalhar, vestir-se... tudo toma outra dimensão quando consideramos que estes atos são praticados por um ser divinizado.

O Deus a quem só os bem-aventurados podem ver, o Deus que me criou, que me redimiu e que me ama com amor infinito, este Deus vive em mim, dando-me uma participação em Sua própria natureza. Que mistério inefável!

Quando for me dirigir a Deus, não preciso imaginá-lo num Céu distante: Ele está aqui, comigo, agora. Vai comigo por todas as partes, acompanha-me nas alegrias e provações, conhece minha alma e meu corpo mais do que eu mesmo; sabe quais são as minhas intenções, os meus desejos, meus pensamentos e segredos mais íntimos.

Em seu livro Confissões, Santo Agostinho escreveu: “Eu te procurava fora de mim e não te encontrava; longe de mim e não te encontrava, porque tu estavas dentro de mim. Fizeste o nosso coração inquieto e não descansará até que não se encontre em ti".

Quanta gente passa a vida buscando Deus, sem suspeitar que Ele vive “escondido” no interior dos seus filhos.

Esvaziemo-nos, pois, de tudo o que é mundano, terreno e material, para deixar espaço ao Deus infinito. Que Ele nos tome por inteiro, preenchendo o vazio que há em nós!

A pobreza evangélica

Jesus convidou um jovem rico a abandonar tudo o que possuía para segui-lo. Mas o jovem entristeceu-se, porque amava suas riquezas. Jesus então comentou com os presentes: “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” (Lc 18, 25). O comentário causou espanto aos seus ouvintes: “Quem então poderá salvar-se?” Jesus respondeu: “O que é impossível aos homens é possível a Deus”.

A pobreza evangélica, praticada e ensinada por Jesus, é de uma beleza indiscutível. Mas é preciso entender bem que ser pobre não é sinônimo de viver na miséria. A riqueza material, a prosperidade, o sucesso nos negócios podem com facilidade afastar uma alma de Deus. Mas podem também ser motivo de muita união com Ele.

Como explica Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais, devemos ser indiferentes à pobreza ou à riqueza, segundo o que Deus queira nos dar. De uns Deus pedirá a pobreza completa; de outros pedirá a riqueza. Mas todos deverão viver no desprendimento. Esta é a verdadeira pobreza.

Do que adianta ser pobre, mas viver desejando a riqueza? Do que adianta não ter sequer onde dormir, mas viver revoltado contra Deus? Do que adianta ter pouquíssimos bens, mas viver apegado a eles?

A verdadeira pobreza evangélica não consiste apenas em desapegar-se dos bens materiais, mas sobretudo no desapego do coração. Com efeito, o próprio Jesus, modelo supremo de pobreza, usava uma túnica rica, inconsútil, tecida por Nossa Senhora. Também era amigo íntimo da família de Lázaro, uma das mais abastadas de seu tempo.

Por isso a Igreja católica constrói e orna com beleza e bom gosto os seus templos. Para Jesus, presente no sacrário, demos sempre o melhor: ouro, prata, pedras preciosas, tecidos ricos, etc. Assim nasceram as magníficas catedrais edificadas pela cristandade, e tantas outras maravilhas do mundo.

O melhor da pobreza não está na ausência de bens, mas no despojamento do espírito: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos Céus” (Mt 5, 3).

A pobreza de espírito, amiga íntima da humildade, consiste no desapego aos bens do espírito.

Certa vez uma religiosa francesa foi ter com sua madre superiora e disse: Ah, Madre, estou tão contente! Consegui desapegar-me de tudo, sinto-me tão leve! A Superiora, experiente na prática da humildade, respondeu: Então, minha filha, só lhe falta uma coisa: desapegar-se do seu próprio desapego.

O perigo do elogio

O elogio é um dos maiores inimigos da humildade. Tem um poder incalculável de destruição, se dirigido a alguém que não possui virtudes. Quando se trata de uma criança, é preciso cuidar muito para evitar elogios excessivos a qualidades pessoais, roupas, arranjos de cabelos, etc. O elogio incute na criança a idéia de que é ótimo ser e aparecer bela diante dos outros.

Frases como “meu filho é um gênio”, “ele é muito inteligente”, “é muito capaz”, “é bem esperto”, podem introduzir na alma da criança uma raiz de vaidade que poderá acarretar conseqüências funestas até o fim da vida.

Muitos pais pensam que fazem um favor a seus filhos, quando exaltam a beleza, a inteligência, ou qualquer habilidade deles. Pelo contrário, isso pode introduzir na alma da criança a idéia que ela é um ser superior, digno de receber as homenagens de todo o universo. A criança ficará mimada, caprichosa, dará muito trabalho no futuro.

Temos obrigação moral de elogiar as boas ações de todos, seus atos de virtude, de heroísmo, e isso é ótimo. Mas evitemos exaltar qualidades naturais, sobretudo das crianças. Lembremo-nos de que é pecado receber um elogio e julgar que o bem que fizemos vem de nós. Ora, a criança não está preparada para restituir aquele bem a Deus.

Que mal há em receber um elogio? Nenhum, desde que se reconheça que Deus é a causa de todo bem. Ou seja, não podemos “devorar” um elogio, como se a única causa da boa ação em questão fosse nossa habilidade.

O pecado de vaidade se dá justamente quando “saboreamos” algo que nos “engrandece”. Entendemos aqui por “saborear” aquela espécie de “ar” que invade os pulmões, chegando a “refrescar” até a coluna vertebral, alterando a respiração e as batidas do coração. Degustar esta sensação, forte mas fugaz, constitui o pecado de “vaidade” ou “orgulho”.

Para sermos humildes nesses casos, devemos recusar o prazer desta sensação, afastando-a de nós. Para isso, é bom pensar em outra coisa, ou nas falhas que houve em nossa “boa ação”. Tudo o que fazemos de bom tem falhas e pode ser melhor. Ao receber um elogio, fixemos somente as falhas. Poderemos sorrir e responder “muito obrigado” a quem nos elogia, mas internamente pensemos: “Ih... poderia ter sido tão melhor...!”

Cada ato de humildade assim praticado sobe até Deus como incenso de agradável odor, enriquecendo nosso tesouro no Céu.

Conta-se que certa vez um monge foi enviado a um mosteiro abandonado para reativá-lo. Em pouco tempo reformou toda a obra, decorou-a e encheu-a de religiosos. Veio então o visitador apostólico para averiguar o resultado. Receoso de que o monge atribuísse a si os méritos da reforma, o visitador dizia, a cada coisa nova que o monge mostrava: “Graças a Deus, por Ele ter feito isso”.

Após ter mostrado todo o mosteiro, ouvindo sempre o “graças a Deus” do visitador, o monge disse: “Sim, ‘graças a Deus’, mas o senhor tinha que ver como estava o mosteiro antes de eu chegar, quando Deus estava aqui sozinho...!”

Deus se serve de nós como instrumentos para realizar muitas obras boas, nas quais temos efetiva participação. O que não podemos é julgar que só de nós elas dependem, e que foram feitas sem a ajuda d´Ele.

A autocontemplação

A vaidade é tão antiga quanto o pecado. “Vaidade” vem do latim vanitas, que significa fútil, oco, sem substância. É bem o que a exprime: um sentimento vazio, pois não leva a nada, a não ser ao pecado.

É comum ouvir, em nossos dias, o emprego da palavra vaidade como se fosse uma qualidade: Eu sou uma pessoa muito vaidosa, passo horas diante do espelho... Ora, esta frase deveria causar vergonha, pois a vaidade é um defeito, um pecado. Ninguém deve contemplar suas próprias qualidades, sejam elas espirituais ou corporais. A autocontemplação é altamente prejudicial ao ser humano, de qualquer sexo ou idade.

Em uma de suas aparições a Santa Teresa de Ávila, Jesus mostrou-lhe o lugar que ela ocuparia no Inferno, se tivesse cedido a um único pecado de vaidade. A santa, estupefata, perguntou: “Mas, Senhor, por um só pecado?!” E Jesus respondeu-lhe: “Por este só, não. Mas este te levaria a outro, e mais outro, e assim você iria, de pecado em pecado, até o Inferno”.

Desejo de aparecer

Companheiro inseparável da vaidade é o desejo de aparecer, de sobressair. Por vezes esse desejo se torna uma febre, uma “crise de anonimato”. A pessoa dominada por este defeito emprega todos meios para estar no centro das atenções: tom de voz escandaloso, brincadeiras, piadas, gestos, opiniões, comentários e palpites. Perde a noção de como é indesejada sua presença. Os meios que usa para conquistar simpatia acabam produzindo, ao revés, antipatia.

Um “exibido” desses só pensa em si, durante todo o dia e, por vezes, até durante o sono.

As tais “crises de anonimato” se dão mais acentuadamente em determinadas épocas, que podem variar para cada pessoa. Por exemplo, uma no momento que começa a puberdade, outra ao completar a maioridade, outra aos trinta, outra aos quarenta, aos cinqüenta, etc. São marcos psicológicos da vida, onde o indivíduo sente que o tempo está passando, e que ele ainda não se tornou aquele personagem mítico que sempre desejou ser.

O exemplo do divino Mestre nos ensinou o contrário: devemos nos refugiar no anonimato. Se for da vontade de Deus, Ele mesmo nos fará brilhar: “Os poderosos serão humilhados, e os humildes serão exaltados”.

Nosso Senhor nos convidou a uma via oposta ao exibicionismo: “Quando jejuardes, não tomais um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim não aparecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto. E teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á” (Mt 6, 16-18).

Jesus viveu entre nós durante trinta e três anos. Apenas um décimo desse tempo, dedicou à vida pública. Os outros trinta anos permaneceu no anonimato. Anonimato, sim, para os homens; mas diante de Deus ninguém é anônimo.

A Preguiça

No século XVII, a fundadora das concepcionistas de Quito, Madre Mariana de Jesus Torres, teve uma visão mística, na qual via futuras superioras de seu convento condenadas ao Inferno por terem sido omissas na formação de suas subordinadas.

A maior responsável pelos pecados de omissão é a preguiça. Nosso Senhor deixou isso claro, na parábola dos talentos: o servo que não fez render o dom que lhe foi confiado, mereceu a punição.

A preguiça se encarrega de manter os vícios, impossibilita a criação de grandes obras, apaga e esconde muitos gênios, rouba preciosos talentos.

Em todas as épocas encontramos pessoas que se tornaram notáveis por seus feitos. No campo dos negócios, temos exemplos de bilionários bem-sucedidos que começaram sua carreira em minúsculos empreendimentos. A força de vontade e o combate à preguiça foram fatores determinantes do sucesso. Às vezes, um ato de generosidade pode mudar o rumo da história. Assim foi com a Virgem Maria, que dizendo “sim” ao anúncio do anjo, iniciou a era da Redenção.

A preguiça tem uma companheira: a mediocridade. A ausência de grandes perspectivas e realizações são conseqüências inevitáveis de uma vida pacata e acomodada, sem desejo de progresso.

Quanta gente deixa os estudos, só por preguiça! Muitos preguiçosos deverão prestar contas a Deus pelos dons que lhe foram dados, mas que não desenvolveram: músicos, compositores, escritores, cientistas, descobridores, educadores e profissionais em todos os campos. Essa responsabilidade aumenta, à medida que o dom esteja mais ligado ao serviço do Senhor, como no caso das apostasias.

Muita gente começa um estudo ou empreendimento, e o abandona assim que aparece a primeira dificuldade. Não quer ter complicações, nem sofrimentos. Preguiça! Não há obra que não exija sacrifícios.

Nem todos os que tentam, chegam à vitória; mas todos os vitoriosos um dia tentaram. Todo gênio ou pessoa bem-sucedida teve de enfrentar dificuldades. Máxime os santos. Não se chega à santidade sem muita força de vontade, sem passar por terríveis vendavais, tormentas de toda espécie, sacrifícios espantosos. O Céu não é dos preguiçosos; o Inferno, sim, está coalhado deles.

A tentação de preguiça deve ser enfrentada com rapidez e violência. A dificuldade está em que, para vencer a preguiça é preciso ter força, exatamente o que falta ao preguiçoso... A solução está em levar uma vida de disciplina. Por exemplo, ao deitar-se, calcular sempre o momento do despertar. Ao soar do despertador, levantar-se imediatamente. É preciso prever as dificuldades e preparar-se psicologicamente para enfrentá-las, ainda que haja probabilidade de elas não se efetivarem.

Outro exercício eficaz de autodisciplina é, quando tivermos mais de um trabalho a fazer (sem prioridades), começarmos pelo mais difícil.

Não percamos ocasião de nos movimentar durante o dia: ir buscar as coisas de que precisamos, em vez de pedir que outros as tragam até nós; usar escadas em vez de elevadores; praticar esportes, fazer exercícios freqüentes, etc.

Mas lembremo-nos de que a força de vontade não é suficiente para vencer um defeito: só a graça de Deus pode nos levar à virtude. E para receber a graça é preciso pedir. Aí está outra dificuldade do preguiçoso: não gosta de rezar. E a oração é alavanca que o libertaria da preguiça. O primeiro passo seria, então, pedir a graça de rezar. Sim, rezar para poder rezar.

Oremos sobretudo com muita confiança em Deus, pois “o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26).

Alegria X tristeza

A preguiça e a tristeza estão unidas para nos trazer o desânimo, um dos piores empecilhos no caminho da virtude.

Pode ser boa a tristeza quando contemplamos, por exemplo, a Paixão do Salvador. Mas neste caso ela não produz desânimo, e sim estímulos para praticar o bem.

Do mesmo modo, existe uma boa e uma má alegria, segundo o efeito que produz em nós. Se nos leva à virtude, ao entusiasmo pela vocação, será boa; se nos leva ao desejo de coisas mundanas, afastadas da virtude, será perversa.

Servir a Deus nem sempre é fácil. Inúmeras são as ocasiões em que o nosso sangue se faz necessário, para manter-se fiel e reparar os nossos pecados. Entretanto, nosso sacrifício não deve deixar-nos cabisbaixos: “Alegre-se o coração dos que buscam o Senhor” (Sl 105, 3).

Não há no mundo alegria comparada àquela que o Senhor comunica aos seus filhos. Deus é alegria, e sua infinita bondade não espera nossa entrada no Céu para nos encher de gáudio. Daí o fato de ser a alegria uma característica de quem serve o Senhor.

Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8, 28). Sim, porque o Senhor ama aqueles que se entregam a Ele com entusiasmo: “Hilarem datorem diligit Deus – Deus ama aos que dão com alegria” (2 Cor 9, 7). E como os ama, da-lhes já aqui na terra uma pregustação da felicidade eterna.

Sejamos, pois, alegres no serviço do Senhor, e transformemos nossa felicidade em ação de graças: “Rendei graças, sem cessar e por todas as coisas, a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo!” (Ef 5, 20).

Em outra epístola, São Paulo recomenda: ''Vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é a vosso respeito a vontade de Deus em Jesus Cristo'' (1 Ts 5, 16-18).

Dissipação X atenção

A dissipação é o oposto da vida interior. Ela nos faz esquecer de Deus e do sobrenatural. A dissipação é sempre uma preparação para o pecado.

Existem duas vias para evitar a dissipação: vigiar nossa intenção e nossa atenção. O ser humano possui várias atenções: uma principal e outras secundárias. Podemos, por exemplo, estar dirigindo um automóvel e, ao mesmo tempo, ouvindo música, conversando com o passageiro do lado e lendo uma placa de sinalização. As atenções se dividem, dando importância ora mais para um assunto, ora para outro.

A meta de quem busca a perfeição é manter na primeira atenção os assuntos sobrenaturais, durante o maior tempo possível.

Outra maneira de evitar a dissipação é pôr intenções em tudo o que fazemos. As obras mais santas podem não ter qualquer valor diante de Deus, se a intenção não é bem direcionada.

Em conseqüência do pecado Original, nossas intenções tendem a voltar-se só para o nosso “ego”. Precisamos então corrigir esta tendência egoísta, direcionando sempre nossa intenção para o serviço do Senhor.

Ofereçamos um trabalho cansativo pela nossa perseverança; um estudo para nos livrarmos de um vício; uma dor de cabeça pela perseverança de um irmão; uma conversa desagradável para ter sucesso em algum empreendimento; uma viagem para curar-se de alguma doença, uma doença em reparação de nossos pecados, etc.

Por menor que seja o incômodo, não tenhamos receio de entregá-lo ao Senhor. Este será um excelente exercício de perfeição, pois é mais fácil ser fiel nas grandes coisas, do que nas pequenas.

Tudo ofereçamos a Deus, e renovemos a oferta durante a ação e depois dela. Este contínuo oferecimento nos põe na presença de Deus e torna meritórias as ações mais singelas.

O sacrifício

Sacrifício é a oferta de uma dor, de um sofrimento ou adversidade.

Todos sofremos, e ai de quem não sofre! Mas quanta gente sofre sem oferecer a Deus! Perda de tempo, padecimento vão e sem méritos. Se pudéssemos medir a dimensão de glória que nos está reservada por cada ínfimo sofrimento que unimos ao Sangue derramado por Cristo, nossa generosidade voaria em direção à Cruz.

Lembremo-nos também de que a conquista do Céu merece qualquer esforço. Foi o que disse São Paulo aos romanos: “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada” (Rm 8, 18).

Quando o sofrimento nos arranca lágrimas, lembremo-nos de que não faltará a consolação. Foi o que Jesus ensinou: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5, 4).

Um dos maiores benefícios do sofrimento é desprender a alma de si mesma, prendendo-a em Deus. O Prof. Plínio Corrêa de Oliveira dizia: A dor é como um oitavo sacramento. O sofrimento é de tal modo benéfico à alma, que um único ato de generosidade interior pode romper cem barreiras. Muita gente se oferece para rezar, mas poucos querem sofrer. Entretanto, o homem vale na medida em que sofre.

Paulista nascido em 1908, Plínio faleceu em 1995, oferecendo sua vida pela Santa Igreja.

Este episódio um tanto cômico revela quanto Deus incita seus eleitos a sofrerem: Santa Teresa de Ávila estava atravessando uma ponte, quando desequilibrou e caiu num charco. Apareceu-lhe então Jesus e disse: “Teresa, assim eu trato os meus amigos”. A Santa, enlameada, respondeu sem ocultar seu temperamento espanhol: “É por isso que eles são tão poucos!”

A oração

Orar (ou rezar) é “elevar a mente a Deus”. Há várias formas de oração: petição, ação de graças, louvor, meditação, contemplação, quietude, leitura piedosa, etc. A oração pode ainda ser mental ou vocal. A vocal deve ser acompanhada sempre pela mental.

O rosário é uma excelente oração, que reúne os aspectos vocal e mental, com enorme proveito para os que o rezam.

Todos os dias alimentamos nosso corpo, para poder sobreviver. Ora, a vida interior é muitíssimo mais importante que a exterior. E o alimento da alma é a oração.

Santo Afonso é categórico, ao afirmar: “Quem reza, se salva; quem não reza, se condena”.

Santo Afonso Maria de Ligório, A Oração.

Deus quer que peçamos as graças atuais e habituais para a nossa perseverança: “Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa” (Jo 16, 24), disse Jesus.

Mas se depende só de um pedido, vou então dizer: “Meu Deus, nunca mais quero pecar. Pronto! Minha salvação está assegurada”. Infelizmente não é assim tão simples. Este pedido é uma oração que deve acompanhar todas as ações de nossa vida. Se com uma única súplica recebêssemos tudo de uma só vez, seria muito fácil viver santamente e alcançar o Céu!

A filosofia ensina que nemo summo fit repente – nada que é grandioso se faz num instante. E a conquista do Céu é algo demasiado grande para ser alcançado com um simples pedido. A cada passo de nossa caminhada rumo ao Céu necessitamos o auxílio de Deus, e é pedindo que obteremos. Não um único pedido, mas inúmeros. A perseverança na oração é muito grata a Deus. É até uma das condições para que Deus não recuse nossos pedidos.

Assim como a mãe que se contenta em ver seu bebê procurando-a e chamando-a com empenho, assim também Deus se agrada ouvindo nossas preces. A tal ponto que às vezes demora em socorrer-nos, só pelo prazer de nos ouvir clamar.

Deus pode tardar, mas sempre nos socorre: “Quando me invocardes, ireis em frente. Quando orardes a mim, eu vos ouvirei. Quando me procurardes, vós me encontrareis, quando me seguirdes de todo o coração, eu me deixarei encontrar por vós” (Jer 29, 12 a 14).

Quando Nossa Senhora apareceu em Paris a Santa Catarina Labouré, sob a invocação de Senhora das Graças, saíam-lhe dos dedos fachos de luz, simbolizando as graças que Deus concede à humanidade. Entretanto, de alguns dedos não saía luz. Explicou então a Senhora que estes dedos representavam as graças que seriam dispensadas apenas a quem as pedisse.

Importante também é ressaltar a necessidade da humildade na oração. O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a humildade é o fundamento da oração” (2559). Ao levantarmos, pois, nossos olhos ao Céu, baixemos a nossa soberba e reconheçamos o nosso nada.

Segundo S. João Crisóstomo, a oração não pode ser fria: “Para que a nossa oração se ouvida depende não da quantidade de palavras, mas do fervor de nossas almas”.

Ecl. 2: pg. 63, 583ª.

Por fim, consideremos que a oração é um combate contra nós mesmos e contra o demônio, que faz tudo para desviar-nos dela. A nossa forma de vida depende, em grande escala, da oração. Reza-se como se vive, e vive-se como se reza (Cf. CIC, 2725).

Quem vai bem na oração, vai bem na vida; quem é negligente na oração, também o é na vida. Quem é orgulhoso e altivo no trato com os irmão, também é altivo na oração, em relação a Deus; quem é humilde na oração, trata com respeito seus irmãos. A oração é um termômetro da vida.

A mediação dos santos

São Luís Grignion de Montfort explica como é vantajoso recorrer a Deus através dos embaixadores celestes. Para isso recorre a um exemplo da realeza.

Quando um camponês desejava entregar ou pedir algo ao rei, era mais fácil fazê-lo através da rainha ou de algum cortesão. E como os membros da corte têm mais acesso ao rei, o pedido ou encomenda chegaria mais rápido.

A Deus todos temos acesso, à hora que quisermos, em todos os lugares e situações. Mas Ele ama algumas almas mais que outras.

Aos bem-aventurados que já estão junto d´Ele no Céu, é certo que os ama com grande predileção. Daí o costume de nos dirigirmos a Deus através dos santos e, sobretudo, d´Aquela a quem Jesus amou mais do que todas as criaturas: sua Mãe santíssima, Maria.

Outra razão torna a mediação mais agradável a Deus: a humildade daquele que se acha indigno de dirigir-se diretamente a Ele.

A Igreja, família de Cristo

Assim como outrora Noé construiu uma enorme arca para salvar das águas aqueles que Deus escolhera, Jesus também constituiu a Igreja, arca do novo Noé e da nova Aliança, a única que pode salvar-nos do dilúvio (Cf. 1 Pd 3, 15-21).

Ao fundar sua Igreja, Jesus conferiu-lhe uma invencibilidade perpétua, pois enquanto militante não será derrotada pelos Infernos, e enquanto gloriosa existirá para sempre no Céu. Constituiu-a também senhora e mestra da verdade, por seu dom da infalibilidade.

“Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força de seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé ou aos costumes. (...) A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro” (Lumen Gentium, 25).

Quando se fala em Igreja, pensa-se com freqüência em um grupo de pessoas reunidas para louvar o Senhor. A Igreja transcende em muito esta idéia. Igreja é cada um dos católicos: sacerdotes, religiosos ou leigos; Igreja é o conjunto dos fiéis devidamente batizados, que se encontram espalhados por toda a terra.

A Igreja é a mãe acolhedora e carinhosa, é o pai atento e cheio de bons conselhos, é o irmão que ajuda e protege. A Igreja ensina, educa, eleva. Ela cura, socorre e liberta. Ela é nobre e santa. É misteriosa, insondável e mística. É discreta, mas visível e presente. Conduz os que pecam e os que erram, sem pecar nem errar. Ama e perdoa, mas sabe repreender e corrigir. É doce e suave, porém forte e invencível.

A Igreja é imensa, grandiosa e imponente, mas sabe curvar-se e acariciar seus filhinhos. Ela não muda, mas sempre tem novidades. A Igreja é inocente como uma criança, mas sábia como um santo ancião. Ela é reta e justa, mas doce e misericordiosa. Atrai sem impor, e cativa sem bajular.

A Igreja luta na terra, padece no purgatório e rejubila-se no Céu. Ela ama Cristo, ela é de Cristo, vive n´Ele e d´Ele se alimenta. A Igreja é filha de Cristo, pois Ele a criou; é irmã de Cristo, porque filha de Maria e do Espírito Santo; é a esposa de Cristo que forma com Cristo um só corpo, seu corpo místico.

A Igreja é una, santa e universal. Ela é virgem, apóstolo, confessor, mártir. É matriarca, patriarca e profeta. Como Jesus, ela é humana e divina. Com Jesus ela vive e dá vida. Com Jesus ela é crucificada, morre e ressuscita. Com Jesus ela prega, anuncia, escolhe e congrega.

A Igreja é a missionária que anuncia o reino de Deus e o leva a todos os povos para que um dia, conhecido por todos o Evangelho, venha o Supremo Juiz para julgar os vivos e os mortos.

Cf. Lumen Gentium, 5.

Os Sacramentos

Dando-nos o livre arbítrio, “Deus deixou o homem nas mãos de sua própria decisão” (Eclo 15, 14). Nós mesmos decidimos se queremos ou não salvar-nos. Santo Agostinho assim traduz o livre arbítrio: “Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.

Mas, de forma paternal e carinhosa, Deus pôs à nossa disposição diversos meios para alcançarmos a glória celeste.

Um dos auxílios mais eficazes para nossa santificação são os Sacramentos. Instituídos pelo próprio Cristo em sua Igreja, os Sacramentos são sinais eficazes da graça, por meio dos quais nos é dispensada a vida eterna.

Através do sacramento do Batismo, Deus nos adota como filhos, tornando-nos portanto, herdeiros de sua glória eterna.

Pela Confirmação (Crisma), recebemos os dons do Espírito Santo, para nos fortalecer ainda mais no caminho do bem.

O sacramento da Eucaristia nos une misticamente a Jesus, dando-nos uma garantia de salvação.

A Confissão nos permite reatar com Deus a amizade, e o regime de graças interrompido pelo pecado.

A Unção dos Enfermos nos proporciona o perdão completo de nossos pecados, restabelecendo a inocência batismal e dando-nos forças especiais para a perseverança final.

O sacramento da Ordem imprime o caráter de sacerdote e representante de Jesus.

O Matrimônio santifica a união dos casais em Cristo, favorecendo a fidelidade conjugal.

Os Sacramentais

Além dos Sacramentos, a Igreja põe à nossa disposição os Sacramentais. São eles veículos da graça, que nos predispõem a melhor receber os Sacramentos. Sempre vêm acompanhados de uma oração e um determinado sinal, como as bênçãos, a aspersão da água benta, o sinal-da-cruz, o exorcismo, etc.

A água benta

Dentre os dons místicos de Santa Teresa de Ávila, estava o de notar a presença do demônio.

Certa vez, estando em seu quarto, viu um demônio entrando pela janela. Logo se persignou, e o espírito maligno recuou, saindo pela mesma janela. Mas, passado algum tempo, voltou a entrar. A santa repetiu o sinal-da-cruz, e o demônio fugiu novamente. Tendo voltado mais uma vez, ela persignou-se com a água-benta. Desta vez o demônio se foi e não mais voltou.

A água benta é usada com freqüência nas bênçãos e exorcismos, para afugentar o demônio. Ótimo costume é ter em casa uma ou mais pias de água benta. Também é aconselhável levar consigo um frasquinho da água, para usar em ocasiões em que notarmos alguma ação diabólica.

O Rosário

Instrumento eficaz na luta contra o demônio é o santo rosário. Desde que Nossa Senhora o entregou a São Domingos na Idade Média, este objeto de piedade vem fazendo inúmeros milagres ao longo dos séculos.

Em Fátima, Nossa Senhora apareceu com o rosário entre as mãos, recomendando-o novamente.

Com o acréscimo dos mistérios Luminosos, o Papa João Paulo II tornou ainda mais agradável e atraente esta sublime oração. A meditação dos vinte mistérios da vida de Jesus e Maria leva-nos, através da recordação, até aqueles dias santos em que fomos redimidos.

O rosário é para Maria uma oração tão grata que, através dele, nossos pedidos se tornam irresistíveis.

Não há quem tenha provado, por algum tempo, a recitação do rosário, sem ter sentido muita paz interior. O rosário pacifica, fortifica e anima.

Escravidão a Maria

Depois de ter passado nove meses no ventre de Maria, Jesus viveu com Ela durante trinta anos, dedicando somente três deles à Sua missão pública.

Inefável mistério encerra este sagrado convívio entre o Filho de Deus e Sua Mãe Santíssima.

A maior honra de Maria é a de ser Mãe de Deus. Todos os privilégios e atributos de Maria são decorrentes de sua maternidade divina. Ela é a Senhora absoluta de todo o universo criado, Co-Redentora do gênero humano, Rainha dos anjos e dos homens, Medianeira de todas as graças.

Santo Irineu diz que o nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria. Por Eva veio a morte, e por Maria, a vida.

Adv. haer., 3, 22, 4 in CIC, 494.

Ela é o Auxílio dos Cristãos e a Mãe de Misericórdia, a quem podemos recorrer em todas as nossas dificuldades, com a certeza de que seremos sempre atendidos.

Como diz São Bernardo em sua belíssima oração “Lembrai-vos”, nunca se ouviu dizer que alguém que tenha recorrido à proteção de Maria, implorado sua assistência e reclamado seu socorro tenha sido por Ela desamparado.

Com efeito, desde o início da Cristandade a devoção a Maria como caminho seguro que leva a Deus, foi se espraiando por todas as igrejas, trazendo enormes benefícios aos seus devotos.

No início do século XVIII, São Luís Maria Grignion de Montfort propagou uma forma especial de devoção à Santíssima Virgem: a escravidão de amor a Jesus através de Maria.

Para aqueles que buscam uma vida de santidade e perfeição, São Luís ensina um segredo, ao qual dá o nome de "Segredo de Maria".

Cf. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.

Diz o Santo que assim como a natureza oculta segredos que podem trazer muitos benefícios e facilidades aos que os descobrem, do mesmo modo, na vida sobrenatural existem segredos. E o grande segredo para chegar a Jesus de forma rápida, segura e sem esforços hercúleos, consiste em fazer todas as coisas por, com, em e para Maria.

Por Maria - Antes, durante e depois de todas as nossas ações, devemos renunciar a nós mesmos e ao demônio, consagrando-nos a Maria. A Ela devemos entregar todas as nossas boas obras, a fim de que Ela as purifique e apresente a seu divino Filho. Isto se faz facilmente com um ato da vontade ou, por exemplo, dizendo interiormente: "Minha Mãe, renuncio-me a mim mesmo, e dou-me inteiramente a Vós". Quanto mais repetirmos essa renúncia e entrega, mais nos transformaremos em Jesus.

Com Maria - Devemos tomar Nossa Senhora como modelo, imitando-a em tudo. A cada ação nos perguntaremos “como Ela faria se estivesse em nosso lugar?”, a fim de imitá-La. Deste modo nos assemelharemos mais a Ela e, em conseqüência, a Jesus.

Em Maria - Nossa união com Maria não estaria completa se apenas a imitássemos e lhe entregássemos todas as nossas boas ações. É preciso mergulhar no interior de Maria, como uma pedra que é atirada ao mar, e se deixa penetrar e embeber totalmente pelas águas. Escondamo-nos no interior de Maria como Jesus, que aí esteve durante nove meses. Em Maria não entra o demônio, não entra o pecado. Aí, em seu interior, estaremos seguros e protegidos. Esta união mística com Maria é um dom que devemos pedir ao Espírito Santo.

Para Maria - Purifiquemos nossa intenção, dirigindo todos os nossos atos exclusivamente para Maria. Ela nunca fica com nada, sempre entrega tudo a Jesus. Façamos, pois, tudo para Maria, nada para nós.

Eis o grande segredo de Maria, via segura de santidade e união com Deus, que permite chegar em pouco tempo a um patamar que muitos santos levaram toda uma vida para alcançar (sem esta forma particular de escravidão a Maria).

Jesus vive entre nós

Deus não nos é totalmente invisível, não se deixou ficar pura e simplesmente inacessível a nós. (...) Incessantemente vem ao nosso encontro, através de homens nos quais Ele se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia”.

Bento XVI, em sua primeira Encíclica, Deus Caritas Est, Parte I, 17.

Do mesmo modo que apareceu aos seus apóstolos e discípulos, Jesus vive entre nós, ressurrecto na Sagrada Eucaristia. Em todos os sacrários do mundo onde estiver o Pão consagrado, ali está Jesus, à nossa espera.

Quando São Tomás de Aquino precisava de um conselho, nunca deixava de “consultar” Jesus eucarístico. Chegava muitas vezes a abrir o sacrário e pôr lá dentro sua cabeça, para sentir-se mais próximo do Senhor.

A hóstia, uma vez consagrada, deixa de ser pão: passa a ser Jesus, em corpo, sangue, alma e divindade. Apenas as aparências são de pão, mas a substância é Deus.

Qual não seria nossa reação se recebêssemos uma comunicação de que Jesus, pessoalmente, viria nos visitar em nossa casa? Pois ao receber a santa Comunhão é Ele mesmo que vem nos visitar, no “templo” de nosso corpo.

O que Ele vem fazer em nós? Perguntar-nos sobre nosso progresso espiritual? Ver como O desprezamos e esquecemos desde a última comunhão? Pedir contas sobre os pecados que cometemos? Alertar-nos de que estamos no mau caminho? Cobrar-nos a fidelidade que não Lhe demos? Não. Jesus vem amar, perdoar, dar forças, santificar, purificar, aperfeiçoar. Mais do que tudo, Jesus vem dar-Se a nós. Vem ouvir-nos, servir-nos.

Durante o tempo que estiver conosco, fica à nossa disposição para o que quisermos. Como O recebemos? Sempre em estado de graça? Damos a Ele a atenção merecida, durante os aproximadamente dez minutos em que permanece conosco? Fazemos bem nossa ação de graças? Após receber a sagrada comunhão, agimos de acordo com o Encontro que acabamos de ter? Ou voltamos à nossa dissipação habitual, como se Jesus não tivesse vindo a nós?

Após a comunhão, a presença eucarística de Jesus pode deixar-nos, mas Ele continuará morando em nós pela graça: Eu sou o pão que desci do Céu; quem não comer minha carne e não beber meu sangue não terá vida eterna. Mas quem come da minha carne e bebe do meu sangue permanece em mim, e eu nele (Cf. Jo 6, 35 a 59).

Adverte a Santa Igreja que “quem quer receber a Cristo na comunhão eucarística deve estar em estado de graça. Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem ter recebido previamente a absolvição no sacramento da penitência” (CIC, 1415).

Mensagem do Coração de Jesus

No início do século XIX, Jesus ditou na França uma comovente mensagem, na qual podemos contemplar a abundância insondável da misericórdia e do amor divinos.

A Irmã Josefa Menéndez foi a escolhida para ouvir as palavras de Jesus, no convento da Sociedade do Sagrado Coração, em Les Feuillants (Poitiers). Eis alguns trechos:

Deixa-te nas minhas mãos. Não me importam tua pequenez e tua fraqueza; o que peço é que me ames e ofereças tudo para consolar meu Coração. Quero que saibas quanto te amo, e que tesouros meu Coração te reserva.

Quero que descanses sem medo em meu Coração. Olha para ele, e verás que esse fogo é capaz de consumir tudo o que há de imperfeito em ti. Abandona-te ao meu Coração, e não pensa em outra coisa, senão dar-me prazer” (25/8/20).

Meu Coração arde querendo consumir as almas no amor. Deixa-me agir em ti, humilha-te, que eu te buscarei em teu nada, para unir-te a mim” (8/11/20).

A alma que ama deseja sofrer, e o sofrimento aumenta o amor. O amor e o sofrimento unem a alma estreitamente a Deus, até transformá-la n´Ele” (26/1/21).

Lembra-te que o teu nada é o ímã que atrai meu olhar” (14/3/21).

O amor apaga tudo [o que fizeste de errado]” (15/3/21).

Farei todo o trabalho; nada tens que fazer, a não ser amar e abandonar-te. Não te preocupes com o teu nada, nem com tua debilidade, nem mesmo tuas quedas. Meu Sangue apaga tudo: basta saber que te amo. Abandona-te” (17/3/21).

Meu Coração se consola perdoando. Meu único desejo e alegria é perdoar. Quando, depois de uma queda, uma alma me procura, é tão grande o consolo que me dá, que quase reverte para ela em benefício, porque a considero com particular amor” (29/3/21).

Se tu és um abismo de miséria, eu sou um abismo de bondade e misericórdia” (18/5/21).

Quando despertares, entra logo no meu Coração e oferece a meu Pai Eterno todas as ações do dia, unidas às palpitações do meu Coração. Une teus movimento aos meus, como se já não fosses tu mesma, mas eu agindo em ti” (14/6/21).

Não sabes que quanto mais miseráveis são as almas, mais as amo? Tu me roubaste o Coração, por causa da tua pequenez e da tua miséria” (19/8/22).

Porque és pequenina, pudeste entrar tão fundo em meu Coração” (21/10/22).

Sabemos que a misericórdia de Deus é infinita, mas ao ouvir palavras como estas, nossa confiança aumenta. Não passemos, pois, um só minuto em pecado. Se cairmos, levantemo-nos em seguida e peçamos perdão. Antes mesmo de procurar a Confissão, façamos nosso ato de arrependimento, e voltemos às graças com o Coração de Jesus. Creiamos no poder da oração, e na bondade de Deus!

Uma simples ave-maria, rezada com arrependimento, pode restaurar numa alma a graça rejeitada durante anos de pecado.

Confiantes, pois, na poderosa intercessão da Rainha do Céu, roguemos a nossa Santa Mãe que nos guie durante a travessia deste Vale de Lágrimas, e nos conduza por via segura ao Paraíso celeste, para vivermos com Ela e seu Divino Filho, pelos séculos dos séculos. Amém.