Egolatria
Alexandre Augusto Tavares, 13/5/2022
· Espiritualidade ·
Dentre os seres mais lindos criados por Deus, encontra-se o pavão: o que se poderia tirar ou acrescentar para torná-lo mais belo? Símbolo da ostentação majestosa, do poder e da perfeição, reflete no entanto o pior de todos os defeitos humanos: o orgulho. Daí o verbo “pavonear-se”.
Pavonear-se = comportar-se como pavão, exibir-se. Na teologia moral usam-se também ─ neste sentido negativo ─ termos como “orgulho”, “vaidade”, “amor-próprio”, “egocentrismo”, “presunção”, “jactância” e “egolatria” (título deste artigo; ego = eu; latria = adoração: “adoração do eu”, “autoadoração” ou “adoração de si mesmo”). “Ostentação” e “pavoneio” são mais usados na informalidade. Muito esclarecedor é o neologismo criado por Plinio Corrêa de Olivera, “megalice” (mania de grandeza). Além do “pavonear-se”, outros verbos: “aparecer”, “exibir-se”, “mostrar-se”, “achar-se”, “considerar-se”. Todas estas palavras mantêm uma relação sinonimal com o “divinismo caricato” de que falaremos adiante. Como termos opostos, destacamos: “humildade”, “modéstia”, “simplicidade”, “despretensão”, “temperança”, “pureza de espírito”. Podemos resumir este antagonismo em apenas duas palavras: orgulho X humildade. Do ponto de vista terapêutico, afirmaríamos que o orgulho é a causa de todo desequilíbrio psicológico; e a humildade, da paz interior.
Em determinadas circunstâncias é legítimo e até necessário ao homem demonstrar grandeza, poder, perfeição: é próprio a um rei apresentar-se com brilho, distinção, elegância, altivez, nobreza; do mesmo modo, são esperadas manifestações de distinção, força e superioridade por parte de um comandante militar, uma autoridade civil ou eclesiástica e, no geral, de todo governante. Mas quão frequente é encontrar adulterações dessa atitude numa pessoa errada, num momento impróprio e de um jeito extravagante...
Digamos que a maior deturpação dessa legítima superioridade se resume na expressão divinismo caricato, entendido como uma macaqueação da divindade por parte do homem. Ou seja, o prazer ou o vício de considerar-se “como” Deus, mas um deus grotesco, fajuto, caricato.
Por vocação o homem é chamado a “imitar” Deus, mas por uma participação humilde e adorativa na divindade, e somente ajudado pela graça divina. Por isso fomos criados “à sua imagem e semelhança” (cf. Gn 1,26), configurados para uma real divinização participada. Mas quando o homem se equipara a Deus, cai no erro funesto de usar sua liberdade para fazer o que não deve, considerando-se superior a tudo e a todos, julgando-se digno de honras divinas. Atitude que beira a loucura, e que, se não freada, leva para lá o indivíduo.
Antes de prosseguir com este tema tão importante, vamos precisar de um pressuposto filosófico-teológico:
De todas as criaturas do universo, somos (os homens), sem qualquer margem de dúvida, a mais ousada de Deus. Pois nos dotou de uma vontade livre “similar” à d’Ele, apta a manejar inteligência e sentimentos “semelhantes” aos divinos. Por quê nos deu esta vontade inteligente e livre? Para que fôssemos capazes de entendê-l’O, senti-l’O e amá-l’O por toda a eternidade. Quis “partilhar” com criaturas inteligentes (anjos e homens) a maior felicidade existente: a de ser Deus. Razão? Pura bondade, como se sua alegria divina transbordasse ao criar-nos.
Santo Agostinho usa uma expressão muito apropriada para se referir a isto: diz que de Deus somos semelhantes-dissemelhantes. Claro, pois “quem como Deus”? Nossa semelhança a Ele se dá pela participação em sua Graça, que é a presença e ação d’Ele em nossa alma. Com isto, o que há de realmente semelhante é concedido e implementado por Ele, e jamais passará a “ser” posse e propriedade nossa. Daí ressaltar o Santo bispo de Hipona que essa semelhança é relativa, apenas participativa: pois se considerarmos nossas limitações, trata-se mais de uma diferença, uma dissemelhança. Mais precisamente, somos semelhantes pela livre capacidade das nossas potências (inteligência, vontade e sensibilidade), mas dissemelhantes pelo uso ─ frequentemente desordenado ─ que delas fazemos.
E neste detalhe da criação é que entra a “ousadia” de Deus. Para participarmos de Sua alegria eterna, “precisou” criar-nos “semelhantes” a Ele: inteligentes, volitivos e sensitivos, capazes de nos guiarmos livre e autonomamente. Ora, esta liberdade e autonomia inclui ─ inevitavelmente ─ a capacidade de rejeitar a felicidade eterna. E nisto consiste a grande provação da nossa existência: lutar contra nossos defeitos, nossa impaciência e nossa falta de generosidade ao suportar uma prova durante a qual devemos rejeitar prazeres e felicidades terrenas que, embora minguados e muito ilusórios, se apresentam como atraentes, cativantes e viciantes à nossa sensibilidade.
E assim, livres por necessidade, não poderíamos ter sido criados já na glória: temos que escolher, devemos optar, decidir, provar e confirmar que realmente queremos a bem-aventurança. E eis a razão pela qual ganhamos esta oportunidade, chamada “vida”: nascemos e vivemos para provarmos que aceitamos e amamos o plano de Deus, este dom inestimável, este presente incalculavelmente generoso que é a vida, transbordamento maravilhoso da divina Bondade.
Outro motivo imperioso para não termos sido criados já com a visão beatífica é que neste estado de glória a nossa vontade se funde de tal modo com o divino Querer, que passamos a querer e fazer só o bem supremo: nossa liberdade alcança a sua plenitude e se consolida no bem, rejeitando eternamente o mal, tornando-se voluntariamente “incapaz” dele, por uma decisão permanente e irreversível. Ora, se esta fusão exige uma decisão, ela precisa ser tomada num momento prévio à sua consolidação, ou seja, num estado de prova, que corresponde exatamente ao período da nossa vida na terra.
Em posse deste pressuposto fundamental, é-nos agora fácil considerar o que segue sobre o divinismo ou a egolatria.
Latria é uma palavra grega que significa “adoração”, ou seja, o culto destinado exclusivamente a Deus. Portanto, o termo egolatria (“adoração de si mesmo”) pressupõe que o adorador seja Deus. Digamos que, na prática, a autoadoração só é realmente possível no âmbito da Santíssima Trindade, onde as três Pessoas divinas são o Deus uno e trino.
O ególatra parte de uma consideração subjetiva (pessoal, individual), de que ele é superior, único, merecedor de privilégios semelhantes aos dos deuses, como se o universo fosse obrigado a lhe fornecer:
reconhecimento de qualidades;
honras por seus trabalhos e realizações;
direito à prosperidade e mordomias;
direito à boa vida, à felicidade e à paz interior;
isenção da luta contra os próprios defeitos e contra as más inclinações herdadas pelo pecado Original;
direito a ceder livremente às suas paixões desordenadas, principalmente de seus desejos vaidosos e sensuais.
culto de admiração, amor e ─ por que não? ─ adoração.
Quando não consegue realizar algum de seus sonhos (na realidade: ilusões, delírios divinistas), revolta-se contra “o destino” (entenda-se: contra Deus) e, como vingança, entrega-se aos vícios, dentre os quais não pode faltar a sensualidade. É por isto que todo vaidoso é romântico: quer ser adorado por outra pessoa, através do culto de carícias, elogios, palavras doces, presentes e sexo. Por padrão, não existe orgulhoso casto, pois não existe pureza sem humildade.
E assim como alguém pode considerar deus o Sol ou uma estátua, e prestar-lhes culto, assim também o ególatra se julga digno dessa adoração. Obviamente ninguém em sã consciência se considera Deus, mas, de fato, não são raras as pessoas que agem como se fossem divinas.
O ser humano é configurado (por natureza) para adorar; não consegue viver sem adorar. Porquanto se não dirigir sua adoração ao Senhor Deus, buscará algum outro “modelo” que sirva como substituto de Deus. E esta permuta acontece por uma falha da nossa inteligência, que embora semelhante à de Deus, está sujeita ao erro, e chega a errar feio, tanto mais quanto mais se afasta do Criador. Logo, somos livres para falsear a verdade e tomar por deus qualquer coisa ou pessoa que consideremos uma divindade. No caso da egolatria, tomamos por deus a nós mesmos.
À primeira vista pode parecer estranho e até assustador explicitar assim escancaradamente uma atitude que costumamos disfarçar, abafar e esconder da nossa razão, mas de fato se trata de uma realidade tão comum quanto lamentável. Pois, pela lógica, se quando não adoramos a Deus tendemos a adorar um substituto, qual seria o candidato suplente mais elegível? Nós mesmos! Além de mais próximos, “semelhantes” a Deus e muito amados por nós! Ninguém mais fácil e apropriado para cultuar como deus.
E entramos aqui no cerne do assunto: como se dá, concretamente, esta autoadoração? Ao dirigirmos a nós mesmos esta satisfação que deveria ser direcionada a Deus. Equivale, em certo sentido, a roubar a glória destinada (por direito) a Deus. Porque ao redirecionarmos para nós a atenção, o reconhecimento, o agradecimento, a honra, o amor, a contemplação devida a Deus, estamos prestando a nós mesmos um culto análogo à adoração. Pior ainda é quando trabalhamos para que mais pessoas se juntem a nós para prestar-nos este culto.
Como movimento de alma prévio a esta autoadoração, ocorre em nossa mente um ato de autocontemplação. Mais exatamente, primeiro se dá uma consideração de algo existente em nós ou realizado por nós, depois uma avaliação e, por fim, o deleite. O objeto desta contemplação pode ser tanto uma atividade física quanto mental (pensamento, lembrança ou imaginação).
Tratamos deste tema no artigo Autocontemplação (< clique para ler).
Todo este movimento da alma se dá, no mais das vezes, discretamente, em um nível subconsciente, e não explicitamente raciocinado. Pois seria um tanto aberrante nos adorarmos racional e conscientemente: fazemo-lo de forma velada, “imperceptivelmente”, porque assim nos escondemos sob o manto da humildade (falsa, é claro).
O ato de egolatria se dá precisamente no momento em que degustamos algo ou alguma atividade em nós. Aquele prazerzinho autocontemplativo é o que constitui propriamente o pecado de orgulho, contrário ao primeiro Mandamento, “amar a Deus acima de todas as coisas” (cf. Dt 6,5).
O mais bizarro é que hoje em dia as crianças são ensinadas, desde muito pequenas, a sugar elogios e imergir na autocontemplação e no egoísmo. É esta uma das maiores vitórias de Satanás sobre a humanidade. A pretexto de “incentivo”, “estímulo”, aumento da “autoestima”, aprendemos desde o berço a substituir o amor a Deus pelo amor-próprio, pelo orgulho e pela vaidade.
Quando não atiçados diretamente, os pequeninos são arrastados pelos maus exemplos. É um tio super divertido e engraçado, que vive brincando a respeito de tudo na vida, com piadas e sarcasmos. O sobrinho olha para ele conclui: “É legal se sobressair assim, é bom chamar sobre si a atenção de todos, como o tio faz.” Mas o pobre sobrinho não se dá conta de que essa atitude do tio (de atrair e degustar a atenção de todos) corresponde ao pecado de orgulho e, no fim das contas, a um autoendeusamento.
Ora, se queremos amar a Deus mais do que a nós, ao considerarmos algo de “bom” em nós (ou feito por nós) devemos imediatamente rejeitar a satisfação (sentimento de alegria, prazer), atribuindo a Deus ─ única Fonte real de todo bem ─ aquela bondade percebida em nós. Trata-se, pois, de uma restituição: o bem que Deus colocou em nós é devolvido a Ele, num gesto despretensioso, que equivale a um culto de reconhecimento, ação de graças e adoração. Não apenas por um dever de justiça, mas porque apreciar um bem em nós nos leva a perder a razão, a amar aquilo desmedidamente, a sentirmo-nos deuses, superiores, dignos de adoração.
Devido às más inclinações herdadas do pecado Original e de nossos próprio pecados, não somos capazes de contemplar nossas boas ações sem cair numa autoadoração. Então, cumpre FUGIR dessa consideração, dessa autocontemplação! Faz o bem e não olha a quem; faz perfeito e só olha o defeito; cria, mas adorando Quem te criou; olha com um olho na terra e dois no Céu, ouve com um ouvido na terra e dois no Céu, respira com um nariz na terra e outro no Céu, come com uma boca na terra e outra no Céu! Como bem disse o Apóstolo: “O tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa.” (1 Cor 7, 28-31)
Houve tempo em que era grande o zelo, por parte de pais e formadores, para evitar que seus subordinados cedessem ao orgulho e, com isso, se afastassem de Deus.
Conta-se que, em idos tempos, um superior geral foi visitar um monge operário que estava encarregado de reformar uma casa que seria o novo mosteiro da sua ordem religiosa. Ao chegar no local, o monge foi mostrando todas as obras que tinha feito, dizendo: “Aqui fiz isto, ali fiz aquilo, lá fiz assim...” E a cada vez que o subordinado mostrava um trabalho feito, o superior logo acrescentava: “Que bom Deus ter nos dado isto!” Em certo momento, incomodado com os comentários do superior, o monge desabafou: “Padre, cada vez que digo ter feito algo, o senhor atribui a Deus. Mas o senhor tinha que ver como estava horrível este lugar quando Deus estava aqui sozinho...!”
A anedota acentua duas verdades: de um lado, a preocupação do superior em não inflar o ego do seu subalterno; de outro lado, a nossa tendência doentia à autoadoração, manifestada no desejo do monge de sorver o reconhecimento e degustar o crédito do trabalho.
O orgulho nos tira a visão de Deus, e passamos a olhar só para nós, como se Ele não existisse.
Santa Catarina Eymerich escreveu que a revolta de Lúcifer aconteceu justamente quando ele parou de contemplar a Deus e, olhando para dentro de si mesmo, passou a se contemplar. Ao deleitar-se com sua própria “luz”, “grandeza” e “beleza”, aquele que era o mais belo dos anjos cedeu ao orgulho e pecou gravemente, prestando a si mesmo o culto devido a Deus.
Algo semelhante aconteceu com Eva, ao julgar-se digna e capaz de ter o conhecimento de Deus. Aquela ambição vaidosa foi suficiente para deixar-se enganar pelo demônio e desobedecer a ordem expressa do Criador.
Assim somos nós: amamo-nos pelo que somos, pelo que temos, pelo que fazemos, por habilidades adquiridas e até por aquelas que não temos mas gostaríamos de ter. Há gente tão ávida de louvor (próprio e alheio) que, para aumentar os motivos de serem adoradas enquanto “completas”, “perfeitas”, investem no aprendizado de incontáveis novas habilidades.
Mas sendo impossível ser hábil em tudo, a saciedade de louvor será sempre parcial, incompleta. Mesmo assim, os perfeccionistas, ávidos de latria, chegam a desprezar reais habilidades (pois já reconhecidas e comprovadas), exaurindo-se no afã de conquistar outras que sequer lhes são necessárias.
O reconhecimento a Camões por seus escritos épicos cruzou as fronteiras de Portugal. Mas ele seria menos convidado a se orgulhar por isso, do que se alguém o elogiasse por ter cantarolado um fado com voz fanhosa. Um “como cantas afinado!” lhe cairia como um novo louvor, um culto diferenciado e agradável, convidando-o a tragar prazerosamente a sonoridade de cada sílaba daquele elogio.
Um rei francês era amigo de um renomado pintor. Entusiasmado pela habilidade do amigo, dedicou-se o monarca também a pintar, em suas horas de lazer. Certa vez, tendo concluído um quadro, chamou o amigo artista para comentar sua obra, na esperança de receber uma aprovação abalizada por sua recém-conquistada habilidade. Após analisar detidamente a obra ─ e notando já certa ansiedade no nobre amigo ─, o pintor concluiu com aquela pontiaguda sutilidade francesa: “Imagine vossa majestade que em meus momentos de lazer eu decidisse ser rei da França...”
Pintar não era, efetivamente, um dom daquele governante. Mas ele se sentiria mais inflado por ter seu quadro reconhecido, do que por vencer uma batalha, como as muitas que já havia vencido para defender o reino. Porque, na insaciabilidade de louvor, faltava-lhe ser adorado por mais esta habilidade, a de bom pintor.
Num exemplo extremo, tomemos um morador de rua que vive roubando para bancar seu vício em uma droga de alta dependência. Supostamente, teria ele razões quase nulas para se autoadorar. Não obstante, orgulha-se de estar ali, sobrevivendo já há alguns anos, sem o apoio dos parentes; orgulha-se ao despertar todo molhado, numa manhã chuvosa, sem ter se resfriado; orgulha-se por ter conquistado a amizade de um cachorrinho, e com ele dividir a pouca comida que consegue; orgulha-se por ter passado diante de uma vitrine e, ao ver seu reflexo, exclamar internamente “Caramba, como tô lindão!”; orgulha-se por ter sido ágil o suficiente para roubar um jovem mais forte do que ele; orgulha-se por ter escapado da polícia numa fuga improvável; orgulha-se de sua pretensa liberdade... E por tudo isso ele se adora. Pobre e humilde? Não: rico de orgulho e vaidade, embora atolado na miséria. Incapaz de olhar para Deus e buscar n’Ele uma solução para sua precariedade, porque, julgando-se deus, o orgulhoso não precisa de Deus.
O orgulhoso é amigo do espelho: mesmo parecendo um macaco depilado e enrugado, sempre encontra algum aspecto para considerar lindo: o volume do cabelo, o penteado, a proporção da testa, a sedução do olhar, as linhas do nariz, o desenho da orelha, a sensualidade da boca, a pele sedosa ou corada... O espelho é para ele um lugar sagrado de culto.
Se esta longa dissertação não nos serviu para nos convencermos de que é péssimo viver no orgulho, consideremos ademais que, como resultado habitual da egolatria, temos que pagar um preço bem caro por seus efeitos colaterais. O divinismo bagunça o ser humano, criando uma desordem que gera desequilíbrio, descontrole e ausência de paz: inquietações, preocupações excessivas e desnecessárias, pensamentos intrusivos, obsessões, agitação na mente e tensão no corpo, ansiedades, medos, tristezas, depressões, irritações, vícios, doenças e a impureza da sensualidade.
O orgulhoso é cego e insensível: pisoteia o próximo achando que lhe está prestando um favor “corretivo”. Não se emenda de seus erros, porque não os considera erros (sequer os enxerga): toma a agressividade por boa combatividade; o desrespeito por nobre altivez; a desonestidade por conveniente perspicácia; a sensualidade por afetuosa simpatia... E assim vai suavemente deslizando pela rampa que leva ao Inferno, julgando ser uma pessoa prendada e admirada. Está sempre certo, de modo a considerar delinquente quem a ele se oponha. No fim das contas, ele se tem por deus. E tem gente que chama isto de autoestima elevada... Sim, elevada ao delírio!
O comportamento de um orgulhoso é uma aberração, vergonha para o gênero humano, uma descaracterização e desconfiguração do que somos chamados a ser diante de Deus e dos homens. Nosso ser só funciona corretamente quando está conectado em Deus, para Quem ele foi criado e configurado. Mudar essa configuração resulta em pane. Mas, a bem da verdade, é ótimo que seja assim, porque essa pane serve de alerta, que clama por uma mudança. E para mudar nunca é tarde, desde que nos reste ainda algum alento de vida.
Que lindo considerar a vida de um Luís IX, rei de França, que sendo o maior potentado da cristandade medieval, manteve-se sempre humilde e modesto, sabendo recusar com sabedoria os atrativos do orgulho!
Que belo observar a santa militância do Arcanjo São Miguel, defendendo com retidão a glória de Deus e precipitando no Inferno os anjos revoltados: “Quem como Deus?!”
Que sublime maravilha contemplar a jovem e doce Maria sonhando despretensiosamente servir a mãe do Messias, quando lhe aparece Gabriel, revelando ser ela mesma a escolhida para gerar o Homem-Deus!
Grandes mesmo, gigantes, realmente divinos são os humildes! Dirigir a Deus todo o louvor que pudermos, com toda a sinceridade do nosso ser, sem nada guardarmos para nós, isto sim é ser humilde e puro, isto sim é viver na paz e na felicidade! “Pois todo o que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado.” (Lc 14,11) Sim, “os poderosos são derrubados do trono; e os humildes, exaltados. Saciados de bens os indigentes, e despedidos de mãos vazias os ricos” (cf. Lc 1, 52-53. Entendamos aqui “ricos” como “orgulhosos”).
Já que o ato de orgulho se dá pela absorção de um deleite do qual nos julgamos merecedores, o ato de humildade consiste em rejeitar o prazer da autocomplacência e da autocontemplação. Não apenas evitando o autoculto, mas cultuando com toda a sinceridade o único e verdadeiro Deus. Sirvamo-nos, para isto, da oração, do jejum, da penitência e dos sacrifícios diários e abundantes que a vida nos traz. Com muita paciência, perseverança e generosidade, mortifiquemo-nos a cada instante, para que em nós viva plenamente o santo Espírito de Deus. Tenhamos n’Ele uma confiança inabalável, certos de que Deus está a nosso favor e quer nos ajudar a vencer. Basta pedirmos, com sinceridade e humildade.
Difícil fugir da vaidade? Sim, mas é certamente mais difícil enfrentar os efeitos colaterais de ceder ao orgulho. Lembremo-nos de que “quem ama a sua vida, irá perdê-la; mas quem odeia a sua vida neste mundo, irá conservá-la para a vida eterna.” (Jo 12,25)
Por fim, um detalhe que merece especial atenção: é mais difícil fugir da tentação de orgulho quando nos encontramos apressados, cansados ou dissipados (distraídos). Por isso, tenhamos uma redobrada vigilância nestes momentos, mantendo-nos sempre compenetrados desta luta. Ânimo!