Autocontemplação

Alexandre Augusto Tavares, 29/4/2022

· Espiritualidade ·

Mulher se abraçando contente

“Contemplar” é fixar o olhar em algo ou alguém, com encantamento, com admiração. Isto pode ser bom ou ruim, dependendo do que se admira.

No tocante à nossa relação com Deus, a contemplação é uma necessidade, pois “fixar o olhar n’Ele com encantamento” equivale propriamente a amá-Lo. E, em sentido contrário, contemplar algo que não seja Ele é o que nos leva ao pecado, ou seja, à desobediência (aos Mandamentos), aos erros e aos vícios.

Há três verdades importantes a esse respeito: primeiro, que o ser humano foi criado com um instinto de contemplação, pelo que ele não consegue viver sem contemplar; segundo, que é impossível contemplar sem amar; terceiro, que só existem dois tipos de contemplação, a Deus e a si.

Ora, como amamos tudo o que contemplamos, quem não usa seu instinto contemplativo para amar a Deus, cai inevitavelmente na autocontemplação, ou na admiração por coisas que satisfazem o ego, pois “só existem dois tipos de amor: a Deus e a si” (Santo Agostinho). Porquanto o que não contemplamos por amor a Deus, contemplamos por amor a nós mesmos.

Admirar-se, encantar-se consigo mesmo consiste na forma mais eficaz de se afastar do amor a Deus. E, muito importante, inclui-se na autocontemplação a contemplação das nossas obras.

Isto é tão sério, que o parâmetro da prova à qual estamos submetidos por Deus nesta vida terrena é o uso que fazemos da nossa capacidade contemplativa: seremos julgados pelo que admiramos, e disto depende a nossa salvação ou condenação eterna.

Assim fica fácil compreender que a autocontemplação é a principal causa do pecado. Muita gente se esforça em vão para evitar o pecado e adquirir virtudes, pois se contemplam. Por isso, vamos explicar melhor essa autoadmiração, para conseguir evitá-la.

A razão pela qual devemos contemplar Deus é o fato de Ele ser Deus, o criador, o sumo bem, a pura verdade, a beleza suprema, a causa única da nossa existência; a razão pela qual não devemos nos contemplar é que não somos Deus. Mas por sermos criados “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26) tendemos a nos contemplar, colocando em nós o motivo de existir, prestando a nós o culto de adoração que deveríamos prestar ao Criador, roubando-lhe a glória que só a Ele pertence por natureza.

Portanto, a tendência do ser humano a admirar-se (o orgulho) é a causa de todos os males. Por isso existe a maldade, a feiura, a mentira, o erro e todas as formas de crimes. Se o ser humano não se admirasse, mas admirasse a Deus, viveríamos em paz.

A autocontemplação levou Lúcifer a se revoltar contra Deus, pois quis ser como Deus (cf. Ap 12,7; Dn 10,12-21;12,1); levou Eva a desobedecer porque quis ser como Deus (cf. Gn 3, 5-6); e nos leva também a nos revoltarmos contra Deus (pecar), reivindicando assim um “direito” inexistente de ser como Deus, o que acontece, disfarçada mas efetivamente, pela autocontemplação. E para fazer valer este “direito”, entregamo-nos ao pecado para “provar” a nossa “liberdade divina”. Esse é o grande desvario humano: não quer ser Deus para ser bom, mas para fazer o mal, pois sem Deus é só o que conseguimos fazer. E para isso nos inclina tanto as más tendências que herdamos pelo pecado Original, quanto as más tendências que cultivamos com os nossos próprios pecados.

Daí se conclui que quando o ser humano se admira ele quer ser “como” Deus. Mas com isso, ele cria em si não uma imagem, mas uma caricatura de Deus, uma deformação, uma aberração, pois só Deus pode ser plenamente bom, verdadeiro e belo. Somente quando O contemplamos e a Ele nos submetemos humildemente, aí sim passamos a participar de sua real divindade, tornando-nos, efetivamente “como” Ele, à sua semelhança, por participação.

Assim esclarecida teoricamente a maldade da autocontemplação e a necessidade absoluta da contemplação a Deus, passemos à prática. O pré-requisito para admirar a Deus é não se admirar.

Para isso, é importante saber que a contemplação se concretiza através de um ato intencional: quando contemplamos, mesmo que “distraidamente”, temos uma intenção de contemplar. Ora, é direcionando esta intenção que conseguimos eficaz e conscientemente contemplar Deus. E é também através deste direcionamento da intenção que evitamos a autocontemplação.

Então, concretamente, precisamos parar de apreciar tudo o que é nosso: nossa “beleza” física (aparência), nossas “qualidades” espirituais (dons e habilidades) e tudo o que produzimos (nossas ações). Fácil, não é? Não! Parece simples, mas é extremamente difícil. Porque – lembremo-nos – somos tendentes à autocontemplação.

Tendemos a apreciar (admirar, contemplar, adorar) tudo o que fazemos.

Tem gente que não consegue fazer sequer um gesto sem encontrar uma razão para se admirar. Pode até fingir ser humilde, mas de fato olha para tudo o que faz contemplativamente: a forma de dizer “oi” ou gesticular para alguém, a palavra que lhe dirige, o olhar-se no espelho para se pentear, e assim por diante, o considerar de todas as suas “habilidades” físicas ou intelectuais. E cada uma dessas ações admiradas corresponde a um ato de desamor a Deus e de amor a si mesmo.

Vale aqui ressaltar quão maléfico é o ensinamento tão divulgado hoje em dia, de que devemos ter “amor próprio” e “autoestima”. Pois a autoestima egoísta é o suporte para o orgulho. Considerar-se bom, belo, perfeito em algo é o primeiro passo para a autocontemplação, que leva à ruína. A boa autoestima consiste em olhar de frente, sem véus, todos os nossos defeitos, e com humildade pedir forças a Deus para extirpá-los.

Amar-se é corrigir-se, é abandonar o mal que existe em nós e deixar Deus agir em nós livremente. É assim que nos amamos de verdade: corrigindo-nos! Não escondendo os nossos defeitos debaixo das aparências de beleza, habilidade ou qualidade. Estimar-se assim é prejudicial, uma cilada infernal para substituirmos o amor a Deus pelo amor próprio! O que acontece quando nos admiramos é, inevitavelmente, uma “baixa-estima”! A autocontemplação é, sem dúvida, a principal causa da tristeza, do desânimo, da depressão e do vazio em que vive o ser humano hoje. E qual o remédio que apresentam? Admirem-se! Contemplem-se! Olhem com carinho para si mesmos! Amem-se!

Não, não! O que Jesus deu como remédio para viver feliz é:

“Quem ama a sua vida, irá perdê-la; mas quem odeia a sua vida neste mundo, irá conservá-la para a vida eterna.” (Jo 12,25)

“Se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos no Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo.” (Mc 9, 47)

Obviamente, esta última frase não se refere literalmente a extrair um membro ou um órgão do corpo, mas a arrancar da contemplação: pois quando eu não os uso para contemplar-me, estou “arrancando” de mim.

Assim, devemos concretamente evitar a todo custo olharmos e chamar a atenção dos outros para nós (pelo que dizemos, pelo que fazemos ou pela nossa aparência).

Então, quer amar a Deus? Para neste momento da tua vida, e faz uma lista das coisas que te levam a contemplar-se: o que você pensa, diz e produz que causa admiração a ti mesmo ou ao próximo?

Sim, devemos ser tão perfeitos (à imagem e semelhança de Deus), que causemos admiração pelo que somos e fazemos; mas não podemos fruir as nossas perfeições, e sim, apenas, as de Deus. Pois, ao admirarmo-nos, roubamos a glória de Deus e nos prejudicamos com a autocontemplação, que leva à tristeza e à infelicidade.

Esta fruição do bem que somos ou produzimos (aquele prazerzinho que nos infla o ego) é precisamente o pecado do orgulho (ou vaidade) que nos afasta de Deus. Encontremos somente n’Ele a razão da nossa fruição, a causa da nossa alegria, o objeto dos nossos desejos.

Já pensou que qualquer “perfeição” existente em nós ou em nossas ações são medonhas se comparadas às perfeições de Deus? Paremos, então, de olhar para o nosso interior, e olhemos para Ele! Dediquemo-nos com ânimo e perseverança à prática do bem e da perfeição, mas:

Faz perfeito, sem olhar a perfeição do feito!