Vivi no nada

Poesia · Alexandre A. Tavares, 25/4/25

Joguei-me no etéreo.

Perdi-me no invisível.

Deixei-me levar pelo vento.

Tranquei os conceitos.

Fuji do medo.

Atirei-me no escuro.

Recusei a doçura.

Rompi as cadeias.

Dobrei meu ego.

Inclinei minha cabeça.

Colei no chão os meus joelhos.

Espantei os pavões.

Rompi os padrões.

Debochei do concenso.

Decidi não optar.

Agucei meus ouvidos.

Burilei minha atenção.

Amiguei a dor.

Aceitei ser ferido.

Recusei saber.

Afundei no indesejado.

Confiei no processo.

Esperei cego.

Desprezei vantagens.

Ignorei a sequência.

Soltei as rédeas.

Cavalguei vendado.

Menosprezei a serpente.

Caminhei entre dragôes.

Pisei no pántano de pés limpos.

Subi a montanha sem provimentos.

Para subir, eu descia.

Cancelei as decisões.

Entreguei-me ao ser dos seres.

Abracei a vida das vidas.

Permiti ser ajudado.

Dei a mão ao sábio.

Estendi o braço ao fraco.

Olhei para o horizonte.

Fitei o sol.

Contemplei a lua.

Fui atraído pela força.

Sustentado pela segurança.

Guardado pelo soldado.

Protegido pela rainha.

Iluminado por meu guia.

Relatei tudo.

Naveguei na paz.

Despreocupei.

Pacientei.

Sosseguei o borbulhar.

Voei sem asas.

Elevei-me às nuvens.

Morei nas alturas.

Respirei ar frio e rarefeito.

Aqueci meu coração.

Apaguei o passado.

Desfitei o futuro.

Descansei no labor.

Repousei na rocha.

Absorvi o inefável.

Assimilei o sublime.

Admirei o mistério.

Vivi no nada.

Morri no tudo.


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