Vivendo no mistério
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 11, 02/06/2016
Deus está envolto em mistérios. Não porque haja n’Ele algo oculto em si, mas porque a visão humana em relação ao seu Criador é extremamente limitada.
Irônica e paradoxalmente, a principal razão da nossa existência é o maior mistério de nossa fé: a unidade e trindade de Deus. Não há nada de surpreendente nisso: como poderia a pequenez da inteligência criada compreender a infinitude do Ser incriado e eterno? Mas viver com os olhos postos no Incompreensível é o único caminho para, no fim desta jornada, vê-Lo como de fato Ele é. Aliás, mesmo no Céu, conquanto O vejamos face a face, não O veremos totalmente. Como diz São Tomás de Aquino, nós O veremos totus sed non totaliter: “todo” mas não “totalmente”. Portanto, mesmo no Paraíso, os mistérios de Deus não nos serão inteiramente revelados.
Mas durante nossa vida terrena ─ tempo curto e fugaz que nos é dado para que demonstremos nosso amor e gratidão a Deus ─ Ele oferece a seus fiéis, desde já, um “aperitivo” do que teremos na glória celeste. Pois Ele nos permite desfrutar de seu convívio, na medida que o desejemos e mereçamos. Sim, a vontade humana, tão louca e desvairada, pode conseguir, já neste “Vale de Lágrimas”, a intimidade com o Criador. O Ser insondável, incompreensível e misterioso que é a razão da nossa existência, concede-nos seu convívio amoroso, mesmo durante este tempo em que nos é permitido rejeitá-Lo.
E quão felizes, quão afortunados, quão abençoados são aqueles que se entregam sem reservas a este amor: sua vida se torna um Céu na Terra. Ao unirem-se ao Divino, divinizam-se, porque impossível é abraçá-Lo sem ser por Ele absorvido e preenchido.
Assim sendo, o que importa se é “de lágrimas” o vale? Qual o problema se o preço desta união custa sangue? E daí se para estar vivo com Ele é preciso morrer para o mundo, para o demônio e para a carne? Qualquer valor, por maior que seja, é pago com alegria por quem realmente ama o Senhor.
Por isso, amar o Mistério não incomoda; pelo contrário, atrai, contenta, satisfaz. Amar o invisível, incompreensível e impalpável de Deus faz com que, dos poucos, penetremos mais e mais, através da fé, em veredas divinas que Ele nos permite atravessar. Quanto mais amamos o Ininteligível, mais Ele se deixa entender, e mais cresce nossa fé. Como dizia Santo Agostinho, “creio para compreender, e compreendo para melhor crer”.
Olhar com fé para O que não pode ser visto por olhos mortais, torna-nos videntes, dá-nos a capacidade de ver com “os olhos do coração” (Ef 1, 18). Já não se trata aqui de uma visão meramente humana; a luz divina passa a iluminar nossa inteligência, mostrando-lhe o que ela nunca poderia enxergar por si só. De certa forma, é concedido ao homem, parcialmente, ver “com os olhos de Deus”. E até o mais miserável dos seres humanos é capaz disso.
Deveras, quão diferente seria o mundo, se os homens buscassem a fé como prioridade de suas vidas...! Seria a solução para a pobreza; para a discriminação; para as desigualdades; para encontrar a paz tão almejada; para evitar toda sorte de injustiça, abuso e crime; enfim, para resolver todos os problemas da humanidade, os quais, afinal, se resumem num único: a falta de fé e de amor a Deus.
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