Tédio e ansiedade
Geniologia · Alexandre A. Tavares, 03/08/2021
Ansiedade vem de “anseio”: é uma inquietação da vontade, ocasionada geralmente por desejo, repulsa ou falta de algo. Às vezes não é fácil identificar seu motivo, mas ele sempre existe, mesmo que subconsciente.
Uma das causas frequentes da ansiedade é o tédio, ocasionado pela ausência de novidade, emoção ou prazer. Leve-se em conta que esse tempo de “ausência” varia muito conforme a sensibilidade do indivíduo: quem é amigo da rotina, da temperança e da estabilidade emocional aguenta mais tempo de tédio sem se sentir ansioso, do que quem vive em busca de novidades, emoções ou prazeres.
Todos nós, cada um a seu tempo, se sente incomodado pelo peso do tédio, tão comum em nosso dia a dia. Aquela sensação de paradeira, de rotina repetitiva, de estagnação, de falta de progresso, de esforço prolongado sem resultado aparente, o cansaço de ver sempre as mesmas coisas acontecerem durante muito tempo... tudo isso costuma agitar o desejo e “clamar” por mudança, a fim de nos livrarmos de sensações como aborrecimento, enfado, fastio, desgosto, descontentamento, desinteresse, chateação, enjoo, desprazer, monotonia, melancolia, pasmaceira, vazio, cansaço e ainda aquelas sensações mais profundas, ligadas a traumas como de rejeição, abandono, traição, humilhação e manipulação. E aqui surge a ansiedade, como um jeito habitual desse desejo de mudança se manifestar.
Tanto o estado prévio de tédio quanto a ansiedade provocam desejo de mudança. Mas há uma grande diferença entre eles, porque no tédio pode haver equilíbrio, enquanto que a mínima ansiedade já é, em si, um sinal de desequilíbrio que, se não for devidamente contido, chegará a níveis patológicos, provocando transtornos como agitação do pensamento, estresse, insônia, fobia, pânico, angústia, depressão e desespero.
Isto significa que não é ruim conviver com o tédio, enquanto houver equilíbrio. Ademais, é um grande erro tentar evitar o tédio com a busca inquieta de prazeres, emoções ou novidades, pois embora isto posso produzir uma sensação momentânea de “alívio”, acabará aguçando a ansiedade e se tornando um vício. Em nossa época são raras as pessoas que entendem essa relação entre tédio e equilíbrio, porque somos “educados” para viver uma falsa felicidade onde todos os nossos desejos devem ser atendidos imediatamente.
Ora, um dos grandes sacrifícios que nos convém oferecer em nossa jornada por este Vale de Lágrimas é o de aceitar, com resignação, ânimo e perseverança, o convívio com o tédio, encarando-o como um amigo que nos faz progredir na virtude.
Para isto, é de grande valia ter a convicção de que a sensação de tédio pode ─ e deve ─ se transformar em oração, adoração e louvor a Deus através do direcionamento da nossa intenção, expressa num simples pensamento como: “Senhor, que este tédio seja um ato puro de adoração a Vós!”
E assim evitaremos buscar no pecado um “alívio” ilegítimo para o tédio, que tornará sempre mais difícil a convivência (tão benéfica) com a aridez.
Notemos, pois, que no caminhar da perfeição evangélica o tédio é uma consequência natural da renúncia à tríplice concupiscência (demônio, mundo e carne), e anda de mãos dadas com as virtudes cristãs, com a modéstia, com a moderação no comer e no falar, com uma vida de austeridade que normalmente deve ser interrompida apenas pelas consolações divinas, aliás não reivindicadas pelo santo.
Neste estado de perfeição “desértica”, o fiel aprende a lidar e conviver com o tédio sem dar entrada à ansiedade, pois sabe que ela representa o desequilíbrio e a malícia do “homem velho" que tenta, sempre que possível, ressurgir e reassumir o governo da vontade e das paixões.
É claro que abraçar o tédio como Cristo à sua Cruz não é uma tarefa que sejamos capazes de realizar sem o auxílio da Graça divina. Pelo que devemos pedir a Deus este auxílio, sem o qual jamais deixaremos de recorrer aos nossos vícios para fugir do tédio.
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