Sujeira e desgaste espiritual
Alexandre Augusto Tavares, 20/4/26
· Espiritualidade ·
Tudo suja, se desgasta e se desordena.
A matéria inerte acumula sujeira ou se corrói; a matéria viva cresce desordenadamente ou apodrece; a alma se desequilibra e desordena.
Tudo o que exige ordem precisa ser limpo, cuidado e reparado: o jardim, a casa, o carro, o corpo, a alma...
Assim como o nosso corpo precisa constantemente de higiene e alimento para manter-se asseado e saudável, também a nossa alma, se não cuidada, fica suja, cheira mal, acumula unhas e pelos, adoece. É impossível manter a alma em ordem e equilíbrio sem cuidados.
Ademais, dada à estreita união entre corpo e alma, qualquer desordem de um afeta o outro. Mas sendo a alma superior, ela tem maior capacidade de influenciar positiva ou negativamente o corpo.
É, pois, de suma importância cuidar da alma e manter ordenadas as suas três potências: inteligência, vontade e sensibilidade.
Após o queda de Adão e Eva, a inteligência tende a falsear a verdade; a sensibilidade tende a querer coisas prazerosas, ainda que ilícitas; e a vontade tende a decidir erroneamente, baseando-se não na reta razão (inteligência), mas nos apelos da sensibilidade.
Ora, o ser humano foi criado para viver em ordem e equilíbrio, pois feito à imagem e semelhança de Deus. Mas como essa ordem e esse equilíbrio não acontecem naturalmente, o homem precisa da ajuda divina. Por por si só, ele não é capaz de chegar ao conhecimento da verdade e à prática do bem, pois estas não são habilidades humanas, mas divinas.
Deus nos criou preparados para receber em nosso espírito a Graça, ou seja, a ajuda divina que torna possível conhecer a verdade e ter a força necessária para vencermos nossas más inclinações e tomarmos decisões corretas, ordenando e equilibrando assim a nossa alma. Portanto, não pode haver ordem e equilíbrio no homem sem a ajuda da graça divina.
Ora, essa ajuda não é automática: ela só vem se solicitada e compatível. Solicitar é pedir, rogar, declarar a Deus a necessidade através da oração. A compatibilidade é a sintonia necessária para que se dê a conexão da graça com o nosso espírito. É indispensável haver essa semelhança, essa concordância entre o nosso espírito e a ajuda que nos é oferecida como uma participação nas habilidades do próprio Espírito Santo. Pois assim como notas dissonantes não geram harmonia, assim como as ondas de rádio precisam de sintonia para se conectar, assim como dois objetos precisam ter formas compatíveis para se encaixarem, também é necessária uma compatibilidade de espíritos para que recebamos a graça divina.
Nosso espírito precisa se adequar ao de Deus, como a posição correta de dois ímãs, para que se unam, em vez de se repelirem. Espíritos iguais se atraem; espíritos diferentes se repelem.
Deus nos criou compatíveis com Ele, mas não configurados: é preciso como que colocar a senha do Wi-Fi para se conectar à rede.
Como, então preparar o nosso espírito para a conexão com Deus?
1) Humildade. Em primeiro lugar, devemos nos compenetrar de que somos, por natureza, necessitados, carentes e incapazes. Esta carência existencial deve nos colocar num estado de humildade em relação a Deus. Não temos o que precisamos, e só Deus tem. Mas como criaturas inteligentes e volitivas, temos – por ordem e necessidade existencial – que fazer o uso livre da nossa vontade para adquirir o que desejamos. Por isso, devemos manifestar a Deus o que queremos. Da parte de Deus, embora Ele queira nos dar toda sorte de graças, não tem a obrigação de nos dar nada, e ao nos conceder sua ajuda, estará nos fazendo um favor. Este é, aliás, o sentido da palavra “graça”: uma ajuda gratuita, um favor digno de agradecimento e reconhecimento de que estamos sendo favorecidos por pura bondade.
2) Pedido submisso. Em segundo lugar, devemos nos compenetrar de que não sabemos exatamente do que precisamos. No mundo sobrenatural da graça, tudo é para nós mistério, pois ela é divina, está acima da nossa capacidade intelectual. E assim sendo, devemos nos considerar ignorantes sobre como, em que proporção e em que momento será melhor Deus nos conceder sua ajuda. De modo que a graça nos virá como e quando Deus quiser, do jeito d’Ele, no tempo d’Ele. Não temos, portanto, o controle da graça. E se o tivéssemos, isto seria um desastre, como uma criança inexperiente pilotando um avião sofisticado. Faz-se então necessária nossa total submissão ao nos dirigirmos a Deus e aguardarmos confiantemente a chegada da sua graça.
Resumindo o que foi dito até aqui, temos que os seres criados com inteligência são tendentes ao desequilíbrio e à desordem, pelo simples fato de não serem Deus. E, para se comportarem conforme o seu Criador, precisam de sua divina ajuda.
Assim se entende como uma parte dos anjos, ao se afastarem da graça, tornaram-se orgulhosos e maus, até se precipitarem no Inferno. Do mesmo modo, Adão e Eva, ao pecarem no Paraíso. E igualmente nós, ao rejeitarmos a ajuda divina, vamos para o lugar reservado aos que decidiram não se conectar com Deus: o Inferno.
Deus perfeitíssimo e santíssimo, ao nos criar por bondade, dá-nos a oportunidade de conhecê-lo e amá-lo na medida necessária para nos assemelharmos a Ele, tanto quanto possível em nosso período de prova (a vida terrena). A fim de que, confirmados em sua graça, possamos participar da sua própria alegria divina, conectados a Ele durante toda a eternidade.
Cumpre, pois, buscarmos nesta vida a maior semelhança possível com Deus, porque tanto a felicidade eterna quanto a paz neste mundo são-nos dadas como prêmios na medida desta semelhança.
Temos, então, uma meta de vida, uma razão existencial, uma prioridade essencial: assemelharmo-nos a Deus.
E, para isso, devemos adequar a Deus as potências da nossa alma: moldar nossa inteligência conforme os ensinamentos divinos revelados; fortalecer a nossa vontade com a força do Todo-poderoso; e ajustar a nossa sensibilidade segundo o equilíbrio que é o próprio Deus.
Já vimos que nada dessa semelhança e adaptação pode acontecer sem a graça.
Então, traçamos aqui a combinação perfeita entre a carência humana e a dadivosidade divina. Deus está sempre pronto e disposto a nos ajudar; basta que estejamos prontos e dispostos a suplicar sua ajuda.
A disposição depende da nossa vontade, e a prontidão, da preparação do nosso espírito (estado de humildade e submissão).
Tratemos agora de um último aspecto, relacionado à sujeira e ao desgaste.
Como vimos, a conexão com Deus se estabelece a partir de uma adequação do nosso espírito que, reconhecendo-se necessitado, põe-se em estado de humilde submissão e roga a graça divina.
Mas acontece que justamente este estado de humildade é a atitude mais difícil para o ser humano. Pois há em nós uma tendência entranhada ao contrário da submissão e da humildade: a revolta e o orgulho. E isto acontece por causa de um amor desvirtuado e falso a nós mesmos.
Ou seja, em vez de amarmos a nossa Causa (o Deus que nos criou à sua imagem e semelhança), desviamos o nosso amor para nós mesmos, com a ilusão de que a semelhança que temos com Ele nos torna micro deuses, dignos de adoração. Eis a raiz do orgulho humano, altamente agravada pelo Pecado Original.
Desprezando assim a Deus, passamos a “adorar” a nossa própria capacidade intelectual, a liberdade da nossa vontade, e os falsos e efêmeros deleites de ceder aos apelos desregrados da nossa sensibilidade.
Como bem distinguiu Santo Agostinho, só existem dois amores: o amor a Deus e o amor-próprio. Tudo o que fazemos, ou é por amor a Ele, ou é por amor a nós mesmos; se não estamos adorando a Deus, estamos nos adorando.
Como dissemos, esta é uma infeliz tendência de todo ser inteligente. Porquanto, no cumprimento de nossa missão nesta terra, devemos nos empenhar maximamente em eliminar em nós toda raiz de amor-próprio e, através da graça, voltar toda a nossa atenção e adoração somente a Deus, sempre purificando a nossa intenção de que todas as nossas ações tenham como objetivo a glória exclusiva d’Ele.
Como disse São Luís Maria Grignion, “somos, por natureza, mais orgulhosos que os pavões”. Tendemos a sentir uma fome de superioridade. Ainda que muitas vezes oculta, maquiada, disfarçada, há em nós uma vontade profunda e persistente de nos sobressair em algo, de buscar de reconhecimento, aplauso e louvor (para não dizer “adoração”).
Esse orgulho se apresenta em nós de formas muito diversificadas, às vezes sutis e veladas, fazendo com que a pessoa se considere: boa, dadivosa, generosa, simpática, afetiva, amiga, prestativa, caridosa; ou bela, perfeita, atraente, sedutora, sensual; ou inteligente, entendida, esclarecida, sábia, genial; ou habilidosa, prática, capaz; ou líder, guia, instrutora, conselheira; ou diplomata, harmonizadora, pacificadora; ou cândida, terna, singela, inocente, simples, humilde... Sim, até a humildade pode ser pretexto para o ser humano se orgulhar!
E o pior: esse desejo de em algo brilhar nunca se apresenta como orgulho, mas como “virtude”. A pessoa se convence de que, realmente, ela é boa... Na verdade, ela não pratica suas “boas obras” por amor a Deus, mas por amor-próprio. Eis a miséria humana!
Mas se esse orgulho é velado, qual o caminho para detectá-lo e extingui-lo? Somente a graça pode fazer isso. Da nossa parte, é importante olhar para o mais entranhado da nossa intenção: olhar sem medo para o que eu realmente desejo, para o que eu realmente quero.
Ora, tirar assim a minha própria máscara é algo extremamente dolorido. Contemplar a raiz da minha tendência negativa é escancarar o jeito como eu gosto de ser visto, de ser contemplado, de ser adorado, de me adorar a mim mesmo...
Este orgulho é o que deixa a alma suja, desgastada, atolada no pecado e no vício. E o processo de limpeza, de volta à paz e ao equilíbrio interior só pode acontecer por uma intervenção divina.
E por isso devemos orar com pureza de intenção. Esta é a chave do desencadeamento do processo: pedir com intenção sincera; querer realmente se assemelhar a Deus; estar disposto a abandonar o prazer de ser reconhecido, aplaudido, amado, adorado; morrer para si mesmo e para o mundo, como ensinou Jesus:
• “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16,24)
• “Quem ama a sua vida a perderá; mas quem aborrece a sua vida neste mundo a conservará para a vida eterna.” (Jo 12,25)
• “Portanto, qualquer um de vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,33)
• “Se alguém vem a mim e ama seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,26)
• “Quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus.” (Lc 9,62)
• “E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.” (Mt 19,29)
Peçamos, pois, à puríssima Virgem Mãe, que limpe nossa alma do orgulho e da vaidade, a fim de nos colocarmos em plena sintonia com o Espírito Santo, aptos então a recebermos todas as graças necessárias para nos assemelharmos a Deus tanto quanto possível nesta vida.