Sonho egoísta

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 19/02/2022

Quando, na primeira infância, adquirimos o uso da razão, formamos em nossa mente um conceito do que é viver. Esse conceito é influenciado por inúmeros fatores, como: nossas inclinações naturais; experiências de vida; ideias de outras pessoas com quem convivemos; religião, cultura e hábitos locais; influência da mídia.

Começamos, então, a nos guiar por este conceito central, como sendo o objetivo mais importante da nossa existência, um sonho de consumo, seja ele mais intelectual, volitivo ou sensitivo. De modo que, na medida em que este sonho estiver presente em nossa vida, estamos “vivendo”; e, na medida em que não estiver presente, nossa vida é uma decepção.

Portanto, a realização deste sonho passa a ser nossa motivação, e sua não realização passa a ser nossa desmotivação.

Mais de um desses sonhos podem nos influenciar simultaneamente, mas geralmente há um principal, em torno do qual se movimenta a nossa alma.

A religião pode ser uma ótima tutora, quando nos incentiva a ter como sonho um ideal de santidade e perfeição. Mas a ausência de fé em nosso ambiente familiar infantil – tão comum em nossos dias – propiciará a formação de um sonho egocêntrico e mundano em nossa mente.

Os sonhos egoístas podem ser muitos, mais abrangentes ou mais específicos. Eis alguns mais comuns:

ser o primeiro em tudo o que fizer, ser o foco das atenções;

guardar dinheiro para nunca passar necessidade;

possuir coisas, como casa, carro, moto, barco, roupas e outros objetos específicos;

morar em determinado lugar ou país;

ter uma família perfeita, como um romance de final feliz ou um conto de fadas;

ter um convívio social perfeito;

ser amado por uma ou mais pessoas;

adquirir um conhecimento específico;

formar-se numa determinada profissão;

adquirir uma habilidade específica, a fim de superar uma crítica como “você jamais conseguirá isso”, “você não serve para nada”, “você faz tudo errado” a fim de ser reconhecido pelo que antes foi criticado;

ser livre, viver de forma independente, minimalista, sem compromisso com nada e ninguém;

dominar, governar influenciar ou instruir outras pessoas, ter prestígio.

Mesmo pessoas que tenham como sonho um ideal santo, serão sempre mal influenciadas por um sonho egoísta construído no passado, geralmente ligado ao seu vício capital ou a suas más tendências.

Assim, nosso progresso espiritual e, principalmente, o ideal de santidade e perfeição cristã exigirão o desapego e o completo rompimento com a má influência dos sonhos egoístas. Renunciar à influência de um sonho maléfico é condição para nos unirmos plenamente a Deus, e estarmos prontos para vê-lo face a face ao morrermos.

Podemos aplicar aos sonhos egoístas aquelas palavras de Jesus: “Quem ama a sua vida, irá perdê-la; mas quem odeia a sua vida neste mundo, irá conservá-la para a vida eterna.” (Jo 12,25) Quem ama seu sonho egoísta, perde a chance de viver plenamente livre o amor de Deus; quem odeia seu sonho egoísta neste mundo, conquista a vida eterna.

Para concluir, façamos duas considerações importantes:

Primeira. Ninguém, em sã consciência, alimenta explicitamente um sonho egoísta, porque o egoísmo se apresenta como algo mau, perverso, feio. Então, nossa consciência cuidará de esconder da razão o nosso sonho egocêntrico. Daí a dificuldade para muitas pessoas de encarar seu sonho egoísta, que está escondido e abafado no subconsciente.

Segunda. Por incrível que pareça, um sonho egoísta está frequentemente ligado a uma vocação. Porque normalmente tanto os sonhos bons quanto os ruins compartilham as mesmas apetências em nós entranhadas desde a infância. Do mesmo modo que o vício capital e a virtude primordial partilham um mesmo impulso, como amor e ódio, medo e ousadia. Então, uma mesma tendência ou paixão pode nos levar a uma dedicação benéfica ou maléfica. Portanto, sim, talvez estejamos trabalhando com algo que pode, ao mesmo tempo, nos unir a Deus ou nos afastar d’Ele! E neste caso, progrediremos ou recuaremos no amor a Deus – e no caminho da virtude – dependendo da pureza ou do egoísmo da nossa intenção.


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