Salvando almas

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 12/12/2023

Nascemos para vencer todas as provas desta vida terrena e alcançar o Céu, que é a eterna participação na felicidade do próprio Deus. Portanto, a primeira e principal missão de todo homem é salvar-se. A segunda é ajudar outros a se salvarem. Esta é a nossa vida, esta é a nossa vocação existencial.

Foi, pois, para nos salvar que Cristo se fez Homem, viveu e morreu conosco: eis sua missão redentora. E como cristãos, somos chamados a participar dessa missão salvadora de Jesus, simbolizada na santa missa pela gotinha de água que é despejada junto ao vinho, antes da Consagração.

Ora, ao pensar numa missão apostólica, muita gente é tendente a imaginar ação: eu fazendo isto, aquilo; ajudando aqui, ali; participando de tal grupo; investindo em tal coisa; falando com tal pessoa; promovendo isto, aquilo... Calma aí! Para, sossega, e analisa bem a realidade da situação.

Cristo foi o maior Apóstolo de todos os tempos, a Pessoa mais capaz de fazer bem às almas e de converter. Entretanto, como Ele fez isto? Primeiro, passando 30 anos no isolamento, dedicando-se a um círculo bem restrito de pessoas; depois, ao começar sua missão pública, atuou apenas durante 3 anos, pregando, ensinando, curando doenças e libertando pessoas da influência escravizante do demônio.

No final de seu ministério, qual foi o resultado da ação apostólica de Jesus? Prisão, condenação à morte e um final “decepcionante”, padecendo uma Paixão humilhante, abandonado por todos a quem Ele tinha feito bem, tendo junto de si na Cruz apenas Maria e uns pouquíssimos fiéis.

Ou seja, aparentemente foi uma missão frustrada, um total insucesso sua ação redentora. Não, não! Foi a maior de todas as vitórias, foi o jeito grandioso e triunfante de vencer a morte e o pecado, reabrindo as portas do Céu e levando consigo todas as almas que Ele devia salvar: “Dos que me deste não perdi nenhum.” (Jo 17,12) Como? “Quando eu for levantado da terra [na cruz], atrairei todos os homens a mim.” (Jo 12,32)

Portanto, não foi com suas palavras, com suas ações de interação com o povo que Jesus nos salvou, mas num ato de holocausto oferecido ao Pai, numa vida de décadas de recolhimento em Nazaré, em que dava a Deus a máxima glória adorando-O no anonimato.

Eis o que se chama comunhão dos santos, eis a grande verdade a respeito da vida apostólica, da conversão dos povos, da salvação das almas.

Tomemos ainda o exemplo do Apóstolo dos apóstolos: Paulo. Um homem de ação, que atuou numa área enorme para a época, convertendo inúmeras pessoas ao longo do Mediterrâneo. Basta ler um pouco de suas epístolas para nos darmos conta de que São Paulo foi perseguido, caluniado, preso e passou mais tempo recolhido em oração e penitência, do que interagindo com pessoas: “Eu, Paulo, idoso como estou, e agora preso por Jesus Cristo...” (Fl 1,9) “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20) “Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos.” (1Rm 1, 23)

Vemos então, claramente, que a vida apostólica não consiste propriamente em falar, pregar, interagir com as pessoas a quem queremos converter. Em sua obra magna A alma de todo apostolado, o santo abade Dom Chautard ensina que a missão apostólica não tem fruto sem muita vida interior. Por isso é que Paulo foi preso, apedrejado e decapitado; por isso é que os Apóstolos de Jesus foram martirizados. Foi assim que Cristo atraiu a si as almas: retirando-se para orar ao Pai no recolhimento, aceitando a perseguição, a calúnia, a rejeição do seu próprio povo e, por fim, morrendo crucificado por aqueles a quem Ele veio fazer o bem.

Santa Teresinha do Menino Jesus recebeu da Igreja o título de padroeira das missões. Qual foi, em concreto, sua missão apostólica? Rezar e sofrer pelas almas. Porque nunca saiu de seu convento para uma missão de interação, mesmo que dizia sentir em si o chamado para ser apóstola, missionária, sair pelo mundo pregando o Evangelho...

São Francisco de Assis certa vez convidou um de seus frades a fazer uma pregação na cidade. Saíram, então, ambos caminhando pelas ruas, até chegarem de volta ao portão do mosteiro. Ali chegando, o monge perguntou: “Mas não íamos fazer uma pregação? Só andamos pela cidade, sem falar com ninguém...!” E Francisco respondeu: “Isso mesmo: essa foi a nossa pregação.”

Quem tem fé e verdadeiro espírito de caridade, vive fazendo apostolado, seja caminhando pela cidade sem nada falar, seja varrendo a casa, seja cozinhando, lendo, estudando, orando ou em qualquer outra atividade. Todas as nossas ações podem ser uma “missão”, se feitas com esta pura intenção.

De tudo isto concluímos que participar da missão redentora de Cristo exige mais uma ação sobrenatural do que ações concretas de contato com pessoas. E assim, se você sente um grande chamado interior a fazer bem as outros, saiba que talvez você não precise e nem deva conversar, convencer, pregar, ajudar, fazer... E mesmo se a sua missão exigir isto de você, saiba que o resultado não será satisfatório, se não for regado pela oração, pela meditação, pelo sacrifício, pela vida interior, que são o segredo do sucesso na salvação das almas.

Isto se chama comunhão dos santos, esta realidade sobrenatural na qual declaramos acreditar em nosso Credo.

Atrair almas a Cristo é, principalmente: orar com fé; sacrificar-se, aguentar pacientemente a espera, o incômodo, a dor; suportar humilhações, tolerar irritações; lidar com a derrota e o insucesso aparentes; viver como no silêncio, no anonimato, no abandono, interagindo só com Deus ─ sim este Deus invisível, que só nos fala sem palavras, que nos ama na penumbra da quietude e do isolamento, deixando-nos a sensação de que nada está acontecendo nem frutificando.

Sim, a obra de salvar almas exige muita fé: acreditar que posso fazer muito sem “pôr a mão na massa”. Devemos estar sempre dispostos a fazer o que for necessário para nos aproximarmos mais de Deus e d’Ele aproximar o maior número de pessoas. Mas a realidade é que não é preciso sair de onde estamos e ir aos quatro cantos do mundo pregar o Evangelho para colaborar com a obra redentora de Cristo. E quantas vezes isto é muito mais eficaz do que agir diretamente...!

Sejamos missionários humildes, silenciosos, despretensiosos, sinceros, desapegados, dispostos a tudo para nos salvar e salvarmos os escolhidos de Deus.

Que Maria Santíssima ─ a mais humilde, modesta e recolhida missionária de todos os tempos ─ nos convença de que a conversão do mundo consiste, primeiro, em nossa união íntima com Deus, que é a conversão do mundo ”mais próximo” de nós. E, a partir de uma vida interior efetiva, temos a base e as condições para a eficácia da nossa missão apostólica junto às almas!


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