Quer a Paz?

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 07/01/0221

“Se queres a paz, prepara a guerra.” Esse dito latino resume a dificuldade que existe em conquistar e manter a paz. Santo Agostinho definiu a paz como “a tranquilidade da ordem”. Ora, “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7,1): conquistar e manter a paz exige esforço. Referimo-nos mais especificamente àquela paz de alma e àquele equilíbrio interior que Cristo nos desejou pouco antes de ascender aos Céus: “A paz esteja convosco!”

Hoje em dia conhecemos bem o que não é a paz: ansiedade, estresse, medo, insegurança e demais agitações interiores. O Céu é paz; o inferno é agitação. A santidade é paz; o vício é agitação.

A paz de espírito se reflete na paz do corpo, devido à estreita ligação entre o material e o espiritual. De modo que uma agitação da mente (como a ansiedade) leva a inúmeros sintomas desagradáveis para o organismo, como: dor de cabeça e em outras partes do corpo, tensões musculares, aceleramento cardíaco, alteração de pressão, etc. Muita gente vive assim desde a juventude, sem sequer saber que é possível se livrar deles. Mas tem um preço.

Há quem empreenda esforços hercúleos para adquirir conhecimento, fama, dinheiro, poder, um par perfeito, saúde… Mas tudo isso só lhe trará decepção e desgosto, se não tiver a paz de espírito. E, de outro lado, se só tiver esta paz, todo o resto se torna secundário. Quanto tempo perdemos buscando o que é inútil…!

Como, então, adquirir e manter essa paz, esse equilíbrio e o controle dessa ordem interior? Se o contrário da paz é a agitação, o primeiro passo é, sem dúvida, aquietar. Parar, silenciar, acalmar! A pressa não é apenas inimiga da perfeição; também o é da paz interior. O que nos leva à pressa e à agitação? A nossa vontade. Nossos desejos descontrolados é que agitam nosso intelecto e nossos sentimentos. Então, aquietar a vontade é também aquietar o pensamento e o sentimento. Este deve ser, portanto, o grande foco do ser humano: viver essa paz interior. Pois para isso é que fomos criados. Somente assim vivemos como uma máquina que funciona perfeitamente ajustada e lubrificada.

Atualmente fala-se muito em “meditação” como artifício para chegar à paz interior. O neopaganismo se encarrega de divulgar amplamente práticas de meditação do estilo oriental, em que nos “conectamos” ao “nada”, ou ao “cosmo”, ou genericamente a “coisas boas”. Essas práticas podem até acalmar temporariamente, mas nem de longe leva àquela paz oferecida por Cristo, estável e prolongada, que preenche a alma.

Aliás, é estranho que pouco se divulgue a meditação cristã como exercício eficaz para adquirir a paz interior, a virtude, a santidade. E, diferente da meditação pagã, a cristã nos enche de Deus, do verdadeiro e único Deus, que nos criou, nos redimiu e nos deu os meios necessários para viver em paz nesta terra e alcançar o Céu.

Meditar é refletir. E quando falamos de meditação cristã estamos nos referindo a uma forma de oração, uma reflexão em que Deus está sempre presente, em que as potências da nossa alma (inteligência, vontade e sensibilidade) se unem ao Amor infinito, como que absorvendo-O. Como disse o Apóstolo, somos “templos do Espírito Santo”, temos essa capacidade maravilhosa de interagir com Deus presente em nós, para descobrir, nesta conexão, a vontade e os planos de Deus a nosso respeito. E nisto consiste, propriamente, o aquietar dos nossos desejos, que nos leva à paz: conectar a nossa vontade à divina. E assim poderemos repetir com Paulo: “Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim.” Essa morada de Cristo em nós é a paz autêntica, a única duradoura e eficaz. O equilíbrio da mente humana consiste nessa “fusão” com Deus, na qual passamos a agir por Ele, com Ele, n’Ele e para Ele.

Mas aqui mora uma dificuldade: a da experiência. Porque estamos falando de uma união entre o humano e o Divino, entre o imperfeito e o Perfeito, entre o criado e o Incriado. Ou seja, o desafio é de “mergulhar” nesse Deus que é puro espírito, não é palpável, não tem gosto, nem cheiro, nem voz, nem aparência, a não ser em Jesus Cristo. Aqui entra o papel da fé, que nos leva a acreditar no que é inacessível pelos pobres e falhos sentidos naturais, e mesmo pelo poder superior do intelecto. Que ignorância buscar compreender Deus pela mera razão! É como a coruja tentando enxergar a luz do sol: quanto mais tenta, menos vê, porque seus olhos não têm essa capacidade. É, então, a fé, que nos transforma, de corujas, em águias que nas alturas fitam diretamente o sol.

Portanto, a verdadeira e única paz é a paz de Cristo, imagem palpável do Deus invisível e intangível, o “rosto Divino do homem, rosto humano de Deus” (João Paulo II), que disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo 14, 27)

Resta-nos, por fim, “aplicar” todo esse conhecimento, compreender “como” se dá essa nossa “conexão” com a paz de Cristo. E voltemos à ideia da quietude, do silenciar da nossa vontade, dos nossos desejos, anseios e sonhos, sejam eles ilusórios ou concretos. Qual é a “fórmula” para chegar a isto? A paz é um resultado, uma consequência natural da conexão com Deus, pois Ele mesmo É a paz. Busquemos, pois, a submissão da nossa vontade a Ele, olhemos para Ele, pensemos n’Ele, ponhamos n’Ele a nossa atenção mais prolongadamente e, contemplando suas grandezas, despejemos n’Ele o nosso coração para que o Amor d’Ele se despeje em nós, em forma de paz.


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