Progresso Espiritual
Livro · Alexandre Augusto Tavares, 10/3/26

Deus me criou por bondade.
Sua bondade consiste em me oferecer uma participação eterna em sua própria bondade e felicidade.
Para isso, precisou criar-me com inteligência, vontade e sensibilidade: inteligência para reconhecer e avaliar o Criador e sua criação; sensibilidade como meio de interação com Ele e suas criaturas, a fim de que, conhecendo-os e experimentando-os, possa, através da vontade, decidir-me livremente a aderir ao Bem Supremo – unindo-me a Ele através do amor – e rejeitar o mal que lhe é contrário.
Portanto, a razão da minha existência é amar a Deus acima de todas as coisas, progredindo neste amor até à perfeição, para alcançar, após a morte, a plenitude da felicidade celeste.
Amar a Deus é, pois, a única coisa que dá sentido à minha existência, de forma que: se amo, vivo plenamente; se não amo, prejudico minha vida nesta terra e, principalmente, a comprometo na eternidade.
A lei natural (divina) nos lembra essa missão que temos na vida, de amar a Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.” (Mt 22,37)
Amar a Deus “de todo o meu coração, de toda a minha alma e de todo o meu entendimento” significa amá-lo acima de todas as coisas, ou seja, colocá-lo como prioridade absoluta em minha vida, acima de todas as pessoas, de todos os meus bens e interesses.
Como amar assim? Devo primeiro entender que o amor não é um pensamento nem um sentimento; ele é ato da vontade. É uma prática! Amar é querer!
Para melhor entender o amor, é útil observar antes o desamor, ou seja, o pecado. Jesus disse que “quem olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração já adulterou com ela" (Mt 5,27) Trata-se de um pecado contra o 6º e o 9º Mandamento.
A prática do todo pecado está sempre acompanhada de um querer, que consiste no desamor. Este querer está aí expresso por Jesus como intenção (“quem olhar para uma mulher com intenção impura...”). Ou seja, o ato de desamor a Deus (o pecado) acontece quando temos uma intenção (vontade, desejo, querer) de um prazer ilícito.
Devo notar que para pecar não é necessário eu desobedecer a Lei de Deus através de um ato físico; basta eu desejar, basta eu ter a intenção de desobedecer, que já cometi o pecado: se desejo matar, roubar, mentir, ter coisas dos outros, praticar a impureza com outra pessoa ou ter simplesmente a intenção de violar quaisquer dos Mandamento de Deus ou da Igreja, eu já pequei. E, após ter desejado, colocar em prática esse desejo seria um segundo pecado.
Ora, assim como peco somente pelo desejar, somente pela intenção, também é pelo desejar, pelo querer, pela intenção que eu... amo!
E quando eu faço algo por amor, estou praticando um segundo ato de amor, além daquele que pratiquei pela intenção.Voltando, então, à pergunta como amar?, posso responder que o primeiro ato de amor é... querer amar! A partir do momento em que eu desejo, quero, tenho a intenção de amar, já comecei a amar! E tão mais puro será esse amor, quanto mais pura for a minha intenção.
E assim como a prática do pecado está sempre atrelada a um mal desejo, também acontece com o amor: todo ato ao qual eu associo um desejo de amar, uma intenção pura de amar, se transforma num ato de amor.
Se ao ler estas linhas, eu desejo estar amando a Deus, eu estou, efetivamente, amando! E assim com todas as atividades do meu dia: posso transformar todos os atos do meu dia em atos de amor a Deus, apenas através da minha intenção, de modo a amar quando me levanto da cama pela manhã, quando lavo o meu rosto, quando saio para trabalhar, quando escrevo, quando leio, quando estudo, quando como, quando faço a comida, quando limpo algo, quando caminho ou me exercito, enfim, tudo pode ser ato de amor a Deus.
E desta verdade decorre outra, em sentido contrário: se minha vocação é amar a Deus acima de todas as coisas, ao não fazer isto, estou desamando, estou pecando, violando o 1º e mais importante dos Mandamentos. Um pecado por omissão: se não amei, pequei...
Esta consideração deve estar presente em minha próxima confissão: quantos atos do meu dia eu pratiquei sem amar a Deus? Pois passar o dia fazendo coisas sem a intenção de amar a Deus não é amá-lo acima de todas as coisas! Ter Deus presente nos atos do meu dia, na minha intenção, isto sim é amar “de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento”.
Agir com a intenção de amar a Deus é fazer por Deus, com Deus, em Deus e para Deus. Minha intenção é o canal para eu me unir a Deus em tudo o que faço.
Até durante as minhas orações, que é o momento mais propício para eu me unir a Deus, se elas não tiverem essa intenção de união, de glória, de louvor e amor a Ele, não terão o fruto desejado, e podem ser um ato de desamor, portanto, pecado.
E aqui já posso detectar este grande inimigo do amor de Deus: a distração, mais conhecida na espiritualidade católica como dissipação.
Estar dissipado é estar esquecido de Deus, distraído, sem a intenção conectada a Deus. E isto pode ocorrer mesmo durante as minhas orações.
O contrário da dissipação é a atenção ou a compenetração, também chamadas hoje em dia de foco.
Tenho, então, que para amar a Deus e viver nesse amor, eu preciso buscar a compenetração em tudo o que faço, esforçando-me para me lembrar de pôr a intenção de amar em tudo o que faço.
Se dou glória a Deus e a Ele me uno em qualquer tipo de ação (lícita e conveniente), tanto mais a ação é satisfatória junto a Deus quando se tratar de um sacrifício. Ou seja, de algo, desagradável, algo que me custa esforço, como atender uma pessoa num momento em que eu preferiria estar sozinho, como fazer uma tarefa de casa num momento em que eu desejaria descansar, etc.
Posso, então, resumir em 3 palavras o ato de amor a Deus: atenção, intenção e expressão. A atenção foca, matém a compenetração de que estou amando enquanto faço algo; a intenção direciona o meu espírito para Deus, com o desejo de amá-lo, de louvá-lo, de servi-lo, de agradecer, de obedecer, de oferecer; e a expressão é o próprio ato ao qual associei a atenção e a intenção, seja físico ou mental.