Práticas interiores para alcançar a perfeição
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 9, 02/05/2016
Em sua obra-prima, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Grignion de Montfort faz uma apologia muito bem fundamentada da devoção a Maria, como caminho seguro e rápido para se chegar à união com Deus.
O Santo francês defende que Jesus foi o primeiro “escravo” de Maria, e que a escravidão mariana é a forma mais efetiva de devoção a Nossa Senhora. No fim do opúsculo, São Luís apresenta um tópico muito animador para aqueles que buscam a perfeição da virtude: Práticas interiores para aqueles que querem tornar-se perfeitos.
Chama a atenção o fato de as práticas serem “interiores”. Donde se conclui que a perfeição se reflete do interior para o exterior. A simplicidade desta prática é estonteante, mas resume toda a devoção mariana ensinada em sua obra. Diz o Santo que ela consiste em fazer todas as coisas POR, COM, EM e PARA Maria, a fim de mais perfeitamente fazê-las por, com, em e para Jesus. Resumidamente, o método ensina:
POR MARIA. Fazer todas as coisas por Maria consiste em deixar-se conduzir pelo espírito d’Ela, sendo necessário para isso:
1º) Renunciar do seu próprio espírito, às suas próprias “luzes” e vontades antes de fazer qualquer coisa. Por exemplo, antes da oração, da Santa Missa, da Comunhão, etc. Porque as trevas do nosso espírito próprio e a malícia da nossa vontade e obras põem obstáculo ao santo espírito de Maria, mesmo quando nos parecessem boas.
2º) Entregar-se ao espírito de Maria para que Ela nos mova e conduza do modo que Ela quiser. Temos de nos pôr e nos abandonar em suas mãos virginais, como um instrumento nas mãos de um artista; é preciso perder-se e entregar-se a Ela, como uma pedra que se atira ao mar, o que se faz tão simplesmente, num instante, por um como que “olhar do espírito”, um pequeno movimento da vontade, ou verbalmente, dizendo por exemplo: “Renuncio a mim mesmo e dou-me a Vós, minha querida mãe!” E ainda que não se experimente qualquer doçura sensível neste ato de união, ele não deixa de ser verdadeiro, assim como se alguém ─ que Deus não o permita! ─ dissesse com sinceridade “dou-me do demônio”, embora sem qualquer mudança sensível, pertenceria ao demônio.
3º) Renovar este mesmo ato de oferecimento e de união, de tempos em tempos, durante uma ação ou depois dela. Quanto mais o repetir, tanto mais depressa a alma se santificará e mais rápido chegará à união com Jesus Cristo, pois esta segue-se sempre à união com Maria, visto o espírito de Maria ser o de Jesus.
COM MARIA. É necessário fazer todas as ações com Maria. Para isso devemos pôr os olhos n’Ela, em todas as nossas ações, como no modelo acabado de toda a virtude e perfeição. É o modelo formado pelo Espírito Santo numa simples criatura, para nós o imitarmos, na medida das nossas limitadas forças. É preciso, portanto, que consideremos, em cada ação, o modo com o qual Maria a fez ou faria se estivesse em nosso lugar. Para isso, devemos examinar e meditar as grandes virtudes que Ela praticou durante a vida.
EM MARIA. É necessário fazer todas as ações em Maria. Para bem compreender esta prática, é preciso saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso Terrestre do Novo Adão, e que o antigo paraíso não era senão a sua imagem. Existem neste paraíso riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o Novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste paraíso Ele achou as suas delícias durante nove meses, operou as suas maravilhas e ostentou as suas riquezas com a magnificência de um Deus. Mas como é difícil, a pecadores como nós, obter permissão e ter capacidade e luz para entrar neste lugar. Quando, pela fidelidade, se obtiver esta insigne graça do Espírito Santo, é preciso permanecer no interior de Maria, e lá morar com complacência, descansar em paz, apoiar-se confiadamente, esconder-se com segurança e perder-se sem reservas.
PARA MARIA. Devemos, finalmente, fazer todas as ações para Maria. Pois, visto que nos entregamos totalmente do seu serviço, é justo que façamos tudo para Ela, como um dedicado escravo de amor, que não fica ocioso, mas empreende e realiza grandes feitos para sua Soberana, que defende e promove sua honra, e que busca atrair todo o mundo, se possível, a esta eficaz e verdadeira Devoção.
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