Pra que complicar
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 14/01/2021
“Se dá pra simplificar, pra que complicar?” Este sábio ditado parece ter sido substituído em nossos dias por: “Se dá para complicar, pra que simplificar?” Dir-se-ia que o ser humano é tendente a encontrar os caminhos mais curtos, mais seguros, mais simples. Não... Ele complica, e como complica! E isto acontece sempre que sua vontade deseja coisas prejudiciais, como as ilusórias, as desnecessárias, as inconvenientes, as ilícitas ou proibidas. Afinal, somos livres, né? Entretanto, “tudo te é permitido, mas nem tudo te convém” (1Cor 6,12).
Nossa vontade é o carro chefe do nosso ser: é ela, em combinação com a inteligência, que tem esse grande poder de complicar ou simplificar.
O próprio mecanismo de complicar já é complicado. É como se a desordem da vontade cegasse a inteligência, devolvendo à própria vontade perspectivas distorcidas, gerando um ciclo vicioso que é, em si, complexo, obscuro e débil.
Pelo contrário, a vontade limpa, pura, inocente e serena é forte, capaz de simplificar tudo em nossa vida, elevando-nos a um patamar de equilíbrio e paz interior que é um céu na terra: aí mora a simplicidade.
Neste sentido, “querer é poder”, porque se queremos complicar, complicamos; mas se queremos simplificar, também conseguimos.
E assim como é tortuoso o caminho para complicar, também é simples, em sentido oposto, o caminho para simplificar. Tão simples que muita gente só não chega a ele porque pensa ser difícil, pelo hábito de viver na complexidade. E como a vida simples é pouco conhecida, em muitos casos fica difícil descobri-la sem ajuda.
Como terapeuta, atribuo o sucesso no meu trabalho a ensinar pessoas complicadas a se descomplicarem. Pois 99% de seus problemas se devem a uma vontade emaranhada.
Ao falarmos de descomplicação, é lindo contemplar como o divino Mestre viveu e ensinou esta simplicidade: nascendo simples, vivendo simples, morrendo simples e ressuscitando simples. Um olhar superficial pode ver complexidade na Paixão de Cristo. Mas é só aparência. Essa aparente complexidade não estava em Jesus, mas nos corações daqueles que O odiaram e perseguiram. Pois Jesus manteve sempre, em seu manso e humilde Coração, aquela divina simplicidade: “Seja feita a tua vontade, Pai, não a minha.” Deus é simples, é a própria simplicidade!
E este é o grande segredo para alcançar esta simplicidade, também chamada de humildade ou pobreza: submeter a nossa vontade à de Deus; conhecer e cumprir a divina vontade, que é sempre simples, mesmo que às vezes nos pareça uma “linha torta”. Os atalhos de Deus podem nos parecer complexos, inseguros, assustadores; mas são simplificações. Quando Deus nos permite entrar num deles, talvez nos sintamos perdidos, sem rumo, complicados...
Na verdade, estamos ganhando tempo, encurtando o caminho. Este é o momento de derramarmos uma confiança cega em Deus, pois sua Sabedoria busca simplificar a nossa vida, nos levar por caminhos mais curtos, fazer-nos progredir, aumentar nossa união com Ele e nos levar à vitória nesta vida e ao prêmio máximo no Céu.
Deixar-se conduzir por Deus é a perfeição da simplicidade. E quando nossa vontade não quer isto, ela está emaranhada em seu egoísmo. Libertemo-nos! Descompliquemo-nos!
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