Planejamento familiar extraterrestre

Alexandre Augusto Tavares, 2/2/2016- Revista Por Ali, nº 6

· Crônica ·

Estatística de número de filhos, de 1960 a 2020

Minha esposa e eu acabamos de realizar o “chá de bebê” para a Mariana, nosso quarto rebento, que já deverá ter nascido quando você estiver lendo este artigo.

Isto significa, para nós, que colaboramos para dar a quatro seres humanos a maior oportunidade que a vida pode lhes oferecer: a de viverem eternamente felizes com Deus, contemplando-O face a face no Céu.

Sabemos que nem todos compartilham esta visão. Na realidade, são raros os que veem assim a formação de uma prole numerosa.

Quatro filhos! Até a geração dos meus avós, há pouco mais de três décadas, esse número era normal. Anos atrás empreguei uma senhora que teve mais de vinte irmãos.

Mas, hoje, somos uma família bem atípica. Provavelmente alguns se perguntem se minha esposa e eu não somos “alienígenas”...

O que mudou para que a descendência numerosa, antes considerada uma bênção de Deus, seja atualmente mal vista?

Em primeiro lugar, é simplesmente descartada em nossa época a consideração religiosa de que um ser humano é um candidato à glória eterna. Não se fala sequer sobre o pós-vida, sobre céu, inferno e juízo de Deus. Vive-se tão-somente para esta vida, sem pensar na eternidade. Nesta perspectiva, o problema do planejamento familiar e do controle de natalidade passam a ter um caráter logístico, materialista: “Temos lugar e dinheiro suficientes para um filho? Como vamos educá-lo?”

Em segundo lugar, a figura da mulher mudou na sociedade, afetando consequentemente o conceito de “mãe“. Hoje a mulher é incentivada a buscar primeiro sua realização pessoal: estudos, trabalho, independência financeira. E, para isso, muitas delas evitam inclusive o casamento, como sendo um obstáculo ao seu desenvolvimento, quando não uma ameaça à sua liberdade. Os filhos ─ um ou dois ─ ficam relegados a uma etapa posterior da vida feminina, se for o caso.

Como não poderia deixar de ser, as consequências desta atitude já estão gerando sérios problemas, como o distanciamento de gerações: temos hoje pais com idade de avós: quando os filhos estão atingindo a maioridade, os pais já estão próximos à velhice.

Existe também a mulher que tenta conciliar a maternidade como o trabalho. Neste caso, após a licença-maternidade, para continuar trabalhando precisar conseguir alguém para cuidar da criança: avó, babá, creche, escolinha, que poderão custar caro e moldar um ser humano nem sempre ao gosto da mãe ausente.

Pesquisas do IBGE calcularam uma média de 6,2 filhos para a mãe brasileira, de 1940 a 1950; em 1960 a média cresceu para 6,3; e então começou uma diminuição ininterrupta: 5,8 em 1970; 4,4 em 1980; 2,8 em 1990; e 2,3 em 2000. A projeção para 2020 é de aproximadamente 1,5 filho por mãe. Em sua média, a população mundial está tendendo à senilidade, e a taxa decrescimento vem diminuindo desde 1963. Este decréscimo provocará em breve a falta de mão de obra jovem no mercado, sem contar o complexo problema da previdência social, pois enquanto uma enorme população idosa apenas recebe aposentadoria do governo, não há jovens para incrementar o caixa.

De fato, há muitos aspectos do homem moderno, tanto estruturais e psicológicos quanto éticos e morais, que desencorajam a criação de filhos, principalmente de muitos filhos.

Educar exige dedicação, sacrifício, renúncia, conceitos extremamente mal-vistos no mundo atual. Vive-se hoje em busca do prazer e da satisfação pessoal egoísta, da comodidade e do sossego, evitando-se todo tipo de problema, inclusive o “problemão” chamado filho.

Daí ser considerado um disparate remar contra esta maré imponente e optar por uma prole abundante.

No nosso caso, minha esposa chegou a conciliar trabalho e estudos, aos afazeres de mãe. Conseguiu se formar, mas depois preferiu se dedicar às tarefas da casa e acompanhar de perto o desenvolvimento das crianças, para garantir-lhes uma educação ao nosso gosto.

Até aqui estamos satisfeitos com o resultado. Com o nascimento da Mariana, já não poderemos nos deslocar de carro com toda a família junta, pois seis não cabem no nosso veículo. Como se resolverá este problema? Não sabemos, mas não nos preocuparemos: apenas confiamos que Deus proverá!