Peccata, quis intelligit?

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 6, 02/02/2016

Ele é a causa de todos os males, é a pior obra do ser humano: o pecado. Como pode um ser racional praticar o irracional? Como é possível entender o pecado?

Por que preferir o feio, se disponível o belo? Por que a mentira, se acessível a verdade? Por que o ódio, se é possível amar? Por que a traição, se lindo ser fiel? Por que a morte, se criados para a vida? Por que o mal, se temos o bem ao nosso dispor? Por que duvidar do verdadeiro, desprezar o bom e ignorar o belo, se a fé e a razão no-los ostentam? Por que substituir o reto pelo torto? Por que cultuar o horrendo, o fétido e o deformado? Por que o ouvir o pernicioso, e inalar o tóxico?

Delicta quis intelligit? ─ “Quem entende o delito?” (Sl 18,13) O pecado é a causa de todos os males, sempre a pior escolha e o pior resultado. Entretanto, basta ele não existir para reinar a verdade, o bem e o belo.

Ah, pecado, não foi para dar a vitória a ti que Deus criou o mundo! Agora pareces reinar, mas os dias de tua derrocada estão contados! Pois desde o princípio já estás condenado a perder: no fim, o bem é que triunfa!

Ninguém te entende, é verdade; mas não é preciso te entender: basta te desprezar, pois tu és um perpétuo derrotado. Mesmo quando pareces dominar, teu império é efêmero e fictício. O bem, pelo contrário, mesmo quando aparentemente subjugado, é mais poderoso que tu. Olha para Cristo, chorando no Horto das Oliveiras! Tu O prendeste de forma arrogante, mas bastou ouvir uma palavra de sua boca, para caíres por terra! Somente porque Ele permitiu, tu O levaste, O interrogaste, O açoitaste e O coroaste de espinhos. Pensaste que estavas com as rédeas nas mãos, mas Ele te usou para te derrotar.

Quando acreditavas que já O vencias, quando O fizeste levar aquela pesada cruz, quando nela O cravaste, e quando nela O fizeste exalar seu último suspiro, ali mesmo, no auge do teu “poder”, estava acontecendo a tua maior derrota.

Porque morrendo vergonhosamente crucificado, Cristo salvou o gênero humano, oferecendo ao Pai um sacrifício perfeito, que reabriu as portas do Céu e deu à humanidade pecadora os meios para rejeitar o pecado e alcançar a salvação eterna.

Dir-se-ia que então agora, operada a Redenção, pecar seria uma raridade, escolha absurda. Contudo, a realidade é que mesmo tendo disponível o mar de graças que Jesus nos conquistou com o preço de seu Sangue (suficiente, portanto, para vencer o pecado), o homem não parou de ofender a Deus.

As provas de extremo amor demonstradas pelo Salvador não teriam sido suficientes? Não bastou derramar por nós até sua última gota de sangue? Quae utilitas in sanguine meo? ─ “Do que serviu o meu sangue?” (Sl 29,10)

Realmente, não se pode buscar uma lógica ou razão para explicar o pecado: ele é ininteligível!


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