Ora et Labora

Alexandre Augusto Tavares - Revista Por Ali, nº 2, 2/10/2015

· Espiritualidade ·

Ora et Labora

Reza e trabalha. Este lema dos beneditinos se relaciona com um dilema muito comum na vida de quem se entrega ao serviço do Senhor: o equilíbrio entre o ser e o fazer; entre o recolher-se e o agir; entre o dedicar-se à oração e o desvelar-se na ação.

Um dos conselhos mais sábios a este respeito é encontrado na obra A Alma de todo Apostolado, de Dom Chautard, onde o monge trapista defende que a vida interior bem levada é o segredo para desenvolver bem e frutuosamente qualquer ação.

Neste sentido, o Evangelho narra diversas ocasiões em que o divino Mestre se retirava para orar num lugar tranquilo, geralmente afastado. Na verdade, Jesus dedicou à ação pública somente três anos de sua vida, tendo passado em recolhimento os outros trinta.

Com exceção das breves narrações relativas à Encarnação, ao Nascimento, à fuga para o Egito e à conversa de Jesus com os doutores da Lei aos doze anos, os Evangelhos nada dizem sobre os trinta anos da vida oculta de Cristo.

É verdade que para exercer seu ministério de Mestre ele precisava ter 30 anos completos. segundo o costume judaico. Mas por que outros fatos importantes ocorridos antes disto não foram mencionados pelos evangelistas?

Daí poderíamos supor que esta ausência de narração contém uma mensagem: o recolhimento, a oração, o estar com Deus na intimidade é mais importante do que a ação ostensiva. Porque a atividade tende a distrair, a dissipar, podendo aumentar o egoísmo e diminuir a humildade.

Isto não significa que em sua infância e juventude Jesus não participasse de atividades comunitárias e não se dedicasse a fazer o bem publicamente, mas apenas que Ele não quis dar publicidade a este longo período de sua vida. A parte que o Evangelho omite é bem maior do que a que ele conta.

E mesmo durante sua vida pública, Jesus não quis aparecer como um grande escritor, ou inventor, ou arquiteto, ou cientista: limitou-se a pregar, fazer milagres e orar. E ensinou-nos que Maria, ficando junto d’Ele, escolheu a melhor parte, em comparação a Marta, que se dedicava às atividades.

Por outro lado, não podemos ser omissos com nossos trabalhos e obrigações. A vida de oração e contemplação não deve excluir o labor. O equilíbrio entre orar e trabalhar é saudável e desejado.

Portando, ocupar-se é bom ─ até indispensável ─, mas evitemos mergulhar nas ocupações, mesmo com intenção de fazer apostolado e o bem alheio, em detrimento de nossa vida espiritual. O recolhimento interior, a intimidade com Deus na oração e na meditação devem ser prioridade em nossa vida, pois não são os nossos dons, nossos presentes e nosso trabalho que Deus quer: Ele nos quer a nós!