Ó feliz culpa!

História · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 8, 02/04/2016

Após ter criado o ser humano e tê-lo introduzido no Paraíso Terrestre, Deus estabeleceu-o senhor de tudo o que ali havia. Uma única coisa não podia o homem fazer: provar do fruto de uma árvore, a da ciência do bem e do mal.

Eva, porém, ludibriada pelo demônio, decidiu comer do fruto proibido, pensando que assim obteria conhecimentos divinos. E logo convenceu Adão de que também ele deveria comê-lo.

Esse foi o Pecado Original, que acarretou consequências extremamente desagradáveis:

o homem foi retirado do paraíso de delícias, e devolvido à terra onde fora criado;

deixou de ter alimentos à sua disposição, e se viu obrigado a trabalhar para comer;

a terra se transformou num “vale de lágrimas”, que passou a produzir espinhos e ervas venenosas;

Adão perdera o domínio sobre os animais selvagens, passando a ser atacado por eles;

a natureza humana, que no Éden era íntegra, tornou-se débil, sujeita a doenças e achaques;

a mulher foi condenada a ter parto dolorido a se sujeitar ao homem como por necessidade;

ambos passaram a sofrer fortes tentações dos espíritos infernais e a terrível dor da morte;

e, pior que tudo, perderam a intimidade com Deus nesta vida, e a glória de vê-Lo face a face no Céu.

Ora, o homem fora criado para que, provando seu amor a Deus através da obediência, pudesse deleitar-se com a visão beatífica. Mas após ter ofendido o Criador, as portas do Céu se fecharam: agora, mesmo sendo bom durante a vida, sua alma, separada do corpo pela morte, ficaria num lugar sombrio das profundezas terrestres, chamado Limbo. Ali não sofreria mais; entretanto, não veria a Deus. Quão trágicas foram as consequências do pecado...!

Mas Deus, ciente da debilidade de suas criaturas, havia preparado um plano de redenção: unir sua divina natureza à natureza de um homem, tornando-O realmente Deus.

E assim, na “plenitude dos tempos” encarnou-se em Jesus, o Filho da Virgem Maria, para salvar a humanidade pecadora. Cristo, o Salvador, ao mesmo tempo homem e Deus, era o único que podia resgatar o gênero humano.

Mas o Messias prometido não se contentou em reabrir-nos as portas do Céu: bondosamente Ele nos ensinou a viver a santidade, e deixou-nos meios eficazes de salvação, os Sacramentos, ministrados por uma igreja que ele mesmo instituiu para existir até o fim do mundo, resistindo vitoriosa às investidas do Inferno.

Nem no Paraíso o homem tinha um penhor tão seguro da glória celeste. Daí podermos jubilosamente exclamar com São Paulo: “Ó culpa feliz” esta de Adão, que nos trouxe um tão doce Salvador!

Somos fracos e pecadores; caímos com frequência; praticamos o mal que não queremos, e evitamos o bem que almejamos... Mas sejamos humildes a ponto de reconhecer nossa extrema fraqueza, a ponto de nos convencermos que, por mais que nos esforcemos, não somos capazes de praticar o bem sem o Sangue do Redentor.

Não nos entristeçamos nem desanimemos com nossas quedas, pois isto é sinal de pouca humildade, sintoma de que o empenho em ser bom está baseado não em Deus, mas nas próprias forças. Levantemo-nos a cada tombo, mais confiantes no Senhor, mais dispostos a praticar o bem, apoiando-nos exclusivamente n'Ele.


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