O querer decisivo

Filosofia · Alexandre A. Tavares, 15/02/2025

O ser humano é movido por sua vontade. Não por qualquer vontade, mas pelo querer decisivo.

Nossa alma possui quatro níveis de vontade: racional, sentimental, instintivo e decisivo.

Vontade racional. A razão humana se baseia na lógica para concluir o que é melhor para nós. E uma vez encontrado um “caminho”, surge um querer racional.

Vontade sensitiva. O querer sensitivo – também conhecido como sensibilidade ou emoção – é gerado por necessidades da alma.

Vontade instintiva. Também chamado simplesmente de “instinto”, o querer instintivo é uma programação que Deus colocou no homem para organizar e proteger sua vida. Ele atua tanto sobre a razão quanto sobre a sensibilidade, agindo até sobre a própria vontade decisiva.

Por exemplo, o instinto de sobrevivência nos impede (geralmente através do medo) de sermos imprudentes a ponto de arriscarmos nossa vida por nada; o instinto de sociabilidade nos incita a vivermos em grupos, permitindo-nos protegermos e ajudarmos uns aos outros; o instinto sexual nos atrai ao casamento, para que a espécie não se extinga por falta de descendência; o instinto familiar – especialmente o materno – nos convida a proteger e a dedicarmo-nos aos nossos entes mais próximos, promovendo a boa convivência, educação…; mencionemos ainda os instintos básicos, que nos indicam a hora de comer, de ir ao banheiro, de dormir, etc. O instinto racional, também chamado sindérese da razão, nos dá um senso natural do que é certo e do que é errado, facilitando-nos distinguir entre bem e mal. Este instinto funciona como um legislador da Lei natural (os Mandamentos de Deus), que age sobre nossa consciência e nossa razão, anfim de impedir-nos de matar, roubar, mentir, trair, desrespeitar, desobedecer, brigar, exagerar no alimento, entregarmo-nos a prazeres sexuais, trairmos, vivermos sem Deus e outros comportamentos inadequados à nossa natureza.

Vontade decisiva. O querer decisivo é o mais importante de todos. Porque, baseando-se nas outras três vontades, ele tem o livre arbítrio para escolher o que fazer. E uma vez decidido, ele dita o comportamento humano.

Ou seja, agimos conforme nossas decisões.

Note-se que, embora todas as vontades possam influenciar as nossas decisões, a vontade decisiva tem o poder de contrariar qualquer delas e fazer o que quiser.

O querer decivo é, portanto, juiz soberano, que julga, decide e executa a ação.

Diferente dos anjos que, por sua natureza elevada e espiritual possuem uma vontade decisiva irrevogável, o homem é passível de arrependimento. Suas decisões são, pois voláteis.

Fomos originalmente criados com um poder de decisão mais ordenado e invariável. Mas o pecado de Adão desordenou nossa razão, nossa sensibilidade e nossos instintos, de forma a dificultar as boas decisões.

Assim, é comum tomarmos decisões equivocadas e, percebendo-as, precisarmos mudá-las, corrigi-las.

Para suprir essa deficiência e instabilidade da nossa vontade decisiva, Deus nos oferece a sua Graça. Esta ajuda divina não nos é dada automaticamente: devemos solicitá-la sempre que necessitarmos.

O resultado de toda essa matemática é que continuamos com o nosso poder de decisão livre. Pois mesmo nossa natureza fornecendo-nos elementos falhos para decidirmos, se recorrermos a Deus teremos o esclarecimento e a força para tomar as boas decisões.

Não nos iludamos, portanto, quanto à nossa capacidade livre de fazer o bem e proceder ordenadamente, conforme a reta razão e a sã consciência. É verdade, como afirmou Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer.” Mas como disse o Apóstolo, “tudo posso n’Aquele que me dá forças”.

Por isso, nosso mau comportamento é culposo: todo vício, toda compulsão e má inclinação podem e devem ser vencidos com a Graça divina.

Por fim, nesse mecanismo de formação do querer decisivo é de fundamental importância a sinceridade do desejo. O que de fato nos move não são desejos superficiais.

Por exemplo, se uma pessoa quer se livrar de um vício, mas, no fundo, ama o prazer que o acompanha [geralmente efêmero e acompanhado de frustração], a verdade é que sua vontade mais quer mantar-se no vício que deixá-lo.

O querer real é formado por uma intenção forte e sincera. Quando realmente quisermos mudarn o rumo da nossa vontade, será necessário trabalhar o querer nas profundidades da sinceridade da intenção.

Parece estranho, mas alguém que deseje se afastar de um vício deve, em primeiro lugar, pedir a Deus o desejo sincero do benefício contrário ao vício.

Ou seja, se a pessoa se dá conta, racionalmente, de que seria ótimo abandonar uma atitude e assumir outra, mas percebe que seu querer é insuficiente, comece por querer o querer, e pedi-lo a Deus.

Em alguns casos, mesmo percebendo racionalmente uma enorme necessidade de mudança, a vontade é tão fraca que sequer consegue pedir a Deus a mudança. Neste caso, deve-se começar por pedir a graça de pedir…

E isto é importante, porque Deus não costuma atender nossas preces se nossa real intenção não quer onque estamos pedindo.

Seja a nossa intenção sempre santa, reta e verdadeira, em tudo o que fizermos, e assim alcançaremos, com o auxílio divino, os nossos objetivos.


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