O que é o amor

Espiritualidade · Alexandre Augusto Tavares, 2022-03-24

O que é o amor

O que disse o Apóstolo Tiago sobre a fé – que sem obras ela é morta (cf. 2,14) –, podemos aplicar igualmente ao amor: ele só existe se for um movimento centrífugo que foge despretensiosamente do egoísmo, desdobrando-se em bondade para com Deus e o próximo.

Muito diferente daquele amor romântico, egoísta e apegado, a caridade cristã não ama pelo prazer de sentir a paixão; pelo contrário, o verdadeiro amor se volta para o próximo com total despretensão, para compartilhar aquela mesma bondade que Deus manifesta a todos, sem exceção.

O amor cristão é movido por uma intenção pura que, ao desprender-se do ego, voa em direção ao divino e ao próximo. É um reflexo do amor criador com que Deus, sendo em si eternamente feliz, não quis manter seu amor encerrado em sua divindade, mas o deixou generosamente transbordar no ato criador, compartilhando conosco a sua infinita Bondade.

É igualmente assim que o Espírito Santo, que é o próprio Amor divino, comunica-se a nós, convidando-nos a sairmos de nós mesmos e nos despejarmos na Trindade e no próximo, fazendo o bem não importa a quem, sem nos apegarmos a coisas nem pessoas, desejando puramente a vontade e a glória de Deus.

O supremo ato de amor, o ato mais lindo de pura bondade foi a Paixão de Cristo, que derramou até a última gota de Sangue para nos livrar do desamor e atrair-nos ao Amor. Uma bondade tão grande por cada um de nós, que teria se oferecido como Vítima ainda que uma única alma devesse ser resgatada.

“Deus caritas est” (1Jo 4, 8) – Deus é amor. Nenhum dos atributos de Deus o definem tanto quanto o amor, sua essência. Na Trindade, ao “olhar” para si, o Pai gera (desde toda a eternidade) o Filho, a segunda Pessoa divina, que é sua imagem, seu reflexo, seu pensamento, sua expressão, seu Verbo; e do amor entre Pai e Filho, procede (também desde toda a eternidade), a terceira Pessoa, o Espírito Santo, que é o próprio Amor trinitário!

A Trindade é, pois, em sua essência, um movimento divino de eterna expansão, um amor centrífugo que “transborda”... Mas não poderia transbordar “só” em si: o amor é dinâmico e comunicativo por natureza. E foi por esse movimento natural de se expandir, que Deus quis “dilatar-se”, criando, num gesto supremo de infinito amor, o universo. A criação é um desabrochar do Amor divino.

E assim, na Mente divina, o Amor se manifesta, produzindo sua obra-prima: Jesus, o centro e modelo de toda a criação. Tão perfeito que não pôde ser “apenas” criatura, mas principalmente divino. E, em função deste Ser híbrido perfeitíssimo, Deus-Homem, modelou o Criador todo o universo.

Jesus é a perfeita Imagem de Deus, e nós somos imagens de Jesus. Tanto mais semelhantes a Ele, quanto mais queira a nossa liberdade. Jesus é Deus por essência, através da misteriosa união hipostática; nós, embora meras criaturas, podemos ser divinizados pelo mesmo Amor que gerou Jesus em Maria. Não como um ímã, que tem em si o poder de atração, mas como um metal que recebe a imantação. É por participação na divindade de Cristo que podemos, pela ação da graça, nos imantarmos da divindade.

E então, o próprio Espírito de Amor realiza em nós as obras que jamais realizaríamos por nós mesmos.

Por isso vemos os santos agirem de forma divina. Somente assim, pela graça santificante, pela divinização humana é que nos desapegamos de nosso egoísmo, de nosso amor-próprio, e nos abrimos num movimento de amor em direção a Deus e ao próximo.

O santo não vive para si, seu olhar está em Deus e em tudo o que reflete o Criador: a verdade, o bem e o belo. De modo que o combustível que move suas intenções é o amor.

É o que vemos no comovente poema de Santa Teresa:

“Não me move, Senhor, para Te amar, o Céu que me prometestes; nem me move o inferno, tão temido, para deixar de Te ofender.

“Tu me moves, Senhor! Move-me ver-Te pregado na Cruz e ridicularizado; move-me ver teu Corpo tão ferido; movem-me teus sofrimentos e tua morte.

“Move-me, enfim, o teu amor, pois ainda que não houvesse Céu eu Te amaria, e ainda que não houvesse inferno eu Te temeria.

“Nada tens que me dar para que eu Te queira, pois mesmo que eu não esperasse o que espero, eu te quereria o quanto Te quero.”