O primeiro olhar
História · Alexandre A. Tavares, 24/12/2021
Assim que o anjo Gabriel revelou a Maria o mistério da Encarnação, começou ali uma relação íntima entre Mãe e Filho. Não cabe em nossa imaginação a sublimidade que encerra tão grande mistério: uma Virgem, fecundada pelo Espírito Santo, levando Deus em seu ventre, fornecendo-Lhe, durante nove meses, toda a matéria prima para formar o corpinho do Menino. Somente na eternidade poderemos desvendar e contemplar os detalhes daquele santíssimo convívio.
Nos últimos dias de gravidez, César Augusto lançou um decreto de recenseamento, pelo qual cada um devia se alistar e sua cidade natal. José e Maria eram nobres, descendentes da família real de Davi, e por isso precisavam se dirigir a Belém. A cidade estava cheia, pois havia muitos viajantes de outras partes, cumprindo o decreto. E com isso, quando chegaram, não havia mais hospedagens com vaga.
José conhecia um abrigo de animais, onde brincava quando menino. E, sem outra opção, dirigiu-se para lá com Maria. Chegando à pequena gruta, encontraram ali alguns animais se protegendo do frio rigoroso do inverno. Já era tarde, e a perspectiva era de uma noite terrível. Quão difícil deveria ter sido para José, ver sua esposa grávida de nove meses ali naquele lugar tão inapropriado...
Entretanto, aquela situação tão constrangedora estava prevista pela Providência divina, desde toda a eternidade, para ser o mais belo de todos os momentos da História. Com efeito, no meio da noite Maria percebe em seu ventre um movimento diferente. Completara-se a “plenitude dos tempos”, na qual o esperado Messias nasceria para reparar os pecados da humanidade, e reabrir-nos as portas do Céu.
Por ser imaculada, Maria não estava sujeita aos incômodos da gravidez nem do parto. Por sua vez, o Menino era não apenas imaculado, mas Deus. E esta misteriosíssima fusão da sua natureza humana com a divina lhe dava o privilégio de ter no corpo as características da glória. Por isso, ao nascer, Ele atravessou o ventre de sua Mãe sem tocá-lo, como faria mais tarde, ressurrecto, ao entrar no Cenáculo cruzando a parede sem abrir a porta. E assim, do útero, Jesus simplesmente passou às mãos de sua Mãe, sem causar-lhe qualquer dor ou incômodo. Eis a razão pela qual Maria é Virgem, antes, durante e após o parto.
E ali, nos braços de sua Mãe, acontece a cena que todo o Céu se ajoelhou para contemplar: o primeiro olhar entre os dois seres mais perfeitos do universo. Ele, o Amor encarnado; Ela, a Mãe do Amor, que o gerou e deu vida, a criatura com a maior capacidade de amor, superada unicamente por seu Filho. Ambos admirando-se face a face pela primeira vez...
O Evangelho narra momentos em que Jesus chorou; mas nenhum em que riu ou sequer sorriu. Jesus era sério, e nesta seriedade se espelhava sua grandeza divina, de Redentor que veio para se imolar por causa dos nossos pecados. Mas é adequado imaginar que no instante em que viu sua Mãe pela primeira vez, o Menino sorriu, como gesto de amor grandioso e compatível com sua divina sacralidade.
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