O poder da intenção
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 18/10/2023
O homem é, por natureza, um microuniverso, contendo em si elementos dos mundos mineral, vegetal, animal, humano e angélico. Pode ainda, por um movimento ordenado de sua vontade livre, participar da natureza divina, no que dela é transmissível através da Graça.
Nossa natureza é mista de corpo material e alma espiritual. Se bem ordenados, esses elementos devem conviver em harmonia. E tudo depende na nossa vontade. É ela que equilibra ou desequilibra tudo.
A parte mais importante da vontade é a intenção. Através dela é que se move a vontade. E, movendo-se esta, move-se todo o nosso ser.
Para que a intenção tenha poder sobre a vontade, é preciso haver atenção. A atenção é responsável por manter a intenção “ativa”, racional e conscientemente, permitindo a compenetração. A atenção direciona a razão e a consciência para ajustar a intenção conforme o desejo.
Concatenam-se, então: atenção (olhar da mente) > compenetração (consciência racional focada) > intenção (direcionamento atento do desejo) > decisão (resolução estável e prolongada) > ação (comportamento em harmonia com a intenção desejada).
Não existe aqui um desencadear complexo de etapas: todo este mecanismo da inteligência e da vontade pode se produzir num segundo, como um olhar que se fixa atentamente num ponto. A intenção é o olhar da alma. Se ela está bem direcionada e pura, é como se estivéssemos olhando para algo belo e santo. O que acontece é que os nossos sentimentos passam a se adequar a este olhar da intenção, e assim passamos a direcionar a parte mais frágil da nossa alma, a sensibilidade, onde moram as emoções, as imaginações e as memórias.
Com isto, ordenamos e equilibramos as três potências da nossa alma ─ inteligência, vontade e sensibilidade ─, numa hierarquia perfeita em que a vontade se guia pela reta razão (iluminada pela fé), governando e ajustando as manhas, caprichos e egoísmos da nossa sensibilidade desregrada. Nisto consiste a vitória do nosso lado nobre, espiritual e mais elevado (a alma) sobre o nosso lado plebeu, material e mais prosaico (o corpo).
O fim do bom direcionamento da intenção é obter a perfeição do comportamento. A ação é o termômetro da intenção. Por isto disse Jesus “pelos frutos conhecereis a árvore" (Lc 6,43; Mt 7,16). A árvore é a intenção, e os frutos, o comportamento.
Sendo assim, nossa maior preocupação deve ser: direcionar bem a intenção e mantê-la ativa pela atenção. Intenção pura = ação perfeita.
A intenção limpa é o instrumento que Deus nos deu para que O amemos. Adorar a Deus (nosso principal dever como criaturas d'Ele, é uma ação que se faz com a intenção. Se eu tenho a intenção de amá-Lo acima de todas as coisas, já estou amando!
Ora, todas as minhas ações podem estar conectadas à intenção de dar glória a Deus. Basta que eu, no agir, tenha a intenção de que a ação seja uma adoração.
Mais ainda: posso desejar que eu esteja ─ enquanto faço qualquer coisa ─ dando a Deus a máxima glória possível. E assim eu estarei me unindo a Ele tanto quanto me seja permitido pela natureza e pela Graça nesta vida.
Renovar, pois, esta intenção durante todos os meus atos do dia é o grande segredo para me unir inteiramente a Deus.
Ao desejar estar dando a Deus a máxima glória em minhas ações, purifico e aperfeiçoo todos os meus atos, atitudes e comportamentos. E o hábito dessa contínua adoração purifica minha alma, meu corpo e minha vida, num amor sincero que acontece sempre no agora da minha existência. Mas ao juntar os agoras que se concatenam no decorrer do tempo, vou desenhando uma vida em que passado, presente e futuro preenchem toda uma existência de adoração, totalmente satisfatória a Deus, que me criou exatamente para isto.
A pureza de intenção produz em mim um processo de espiritualização e divinização que me santifica, me torna sempre mais puro e perfeito, cada vez mais semelhante a Deus, mais unido, mais íntimo, mais sintonizado, sincronizado e conectado a Ele, rumando para aquela gloriosa fusão e deliciosa simbiose que acontecerá no Paraíso celeste.
Entretanto, leve-se em conta que o agir com essa pureza de intenção não é uma possibilidade natural humana. É totalmente impossível manter a intenção sempre pura e direcionada à maior glória de Deus sem a força e ajuda da Graça divina. E por Graça entendemos o auxílio criado por Deus para nos dar a possibilidade de agir divinamente.
Necessitamos, pois, da Graça para tudo! Como disse Santa Teresinha, “tudo é graça”. Ou seja, todo bem que façamos é pela ajuda indispensável da Graça. Jesus foi muito enfático ao dizer “sem mim NADA podeis fazer" (Jo 15,5). Mas com a Graça, podemos com segurança dizer com São Paulo “tudo posso n'Aquele que me fortalece" (Fl 4,13). Só assim se compreende que possamos “ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito" (Mt 5,48)
Como filhos do Deus Perfeito, somos chamados a honrar e espelhar a perfeição do nosso Pai. Não conseguimos fazer isto por nós mesmos, mas temos disponível a Graça divina, que supre nossas deficiências e incapacidades. Ora, a Graça não nos chega sem que a desejemos com intenção sincera. Deus não nos invade; respeita a liberdade do querer com que nos criou. A união com Ele nos está sempre acessível, mas condicionada ao nosso livre arbítrio: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.” (Santo Agostinho)
Com o auxílio da Graça podemos, então, mesmo sendo criaturas defeituosas, incapazes e imperfeitas, conseguimos agir conforme o próprio Deus: participativamente, passamos a ver com os Olhos d'Ele, a querer Sua Vontade, e a sentir com Sua Sensibilidade, numa união de conaturalidade com Ele, numa santa conexão com o Caminho, a Verdade e Vida que Ele é. (cf. Jo 14,6)
Que presente insondavelmente grande, o de receber de Deus a vida! Como viver assim conectado a Ele pela intenção dá à minha existência todo sentido! Que sublime mistério participar da própria Vida divina já nesta Terra, como preparação para ter a plenitude da felicidade no Céu! Que chamado altíssimo de contemplar e amar eternamente Aquele que é a Razão do meu ser, a Causa da minha alegria, meu princípio e fim!
Confio, espero e me abandono em Vós! Possuí-me, para que eu Vos dê a todo instante a máxima glória possível! Ó meu Jesus, assumi o meu coração, e morai em mim eternamente! Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre! Amém.
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