O encontro com a vocação
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 11/04/2018
Poucos acontecimentos marcam tanto a nossa vida e preenchem tanto a nossa alma quanto conhecer a nossa vocação. Não é para menos: nesta ocasião Deus nos revela qual é o Seu plano a nosso respeito desde toda a eternidade, antes mesmo de o mundo ser criado! A vocação não é, pois, “acrescentada” à nossa vida: já nascemos destinados a ela.
O que é vocação
A palavra vocação ─ do latim vocare, “chamar” ─ se refere a um “chamado”. Como vocação universal, todo ser humano é chamado a buscar a santidade e a perfeição, porque Deus ─ de Quem somos “imagem e semelhança” ─ é santo e perfeito.
Vocação universal
Em consequência desta vocação universal, todo homem é chamado: a batizar-se; a renunciar ao pecado, ao mundo e à carne; a conhecer e amar a Deus (acima de todas as coisas), louvando-O, reverenciando-O e adorando-O; a cultivar sua vida espiritual num relacionamento íntimo com a Trindade divina, para, no fim da vida, entrar na bem-aventurança eterna.
Vocação específica
Mas além deste chamado universal, algumas pessoas possuem um convite específico de Deus, que consiste numa visão única da Divindade, que tem tudo a ver com a visão beatífica pessoal, na glória celeste. Aquela é como que uma semente desta.
Essa visão peculiar dá forma ao nosso relacionamento com Deus, com as pessoas e com o restante da criação: ela nos modela.
Vocação e missão
Atrelada a esta visão, nossa vocação inclui uma missão, uma forma específica de fazer bem na Terra, sempre ligada ao bem do próximo, seja no contato direto com ele, seja através da Comunhão dos Santos.
Discernimento vocacional
Não é raro uma pessoa passar pela vida sem conhecer sua vocação específica; alguns simplesmente a vislumbram, sem explicitá-la inteiramente, o que já pode ser suficiente para cumpri-la; outros se dão conta dela na infância, e alguns só no fim da vida. Isso depende muito dos desígnios de Deus para com cada um.
Isso não costuma acontecer, entretanto, com certas vocações especiais, devido à evidência do convite divino. Neste caso, tarde ou não, elas explicitam de forma clara o seu chamado específico, o que lhes é uma fonte rica de espiritualidade, um laço forte de união com Deus.
Assim, uma das características de uma vocação autêntica é a certeza e clareza de ser aquele o chamado de Deus.
A revelação da vocação pode acontecer repentinamente (num só momento) ou aos poucos durante um período da vida. É curioso notar que às vezes Deus permite que uma pessoa pense ter certa vocação e tentar aquele padrão, para só depois dar-se conta do verdadeiro chamado. Isso é até comum na vida dos santos: entra para uma ordem religiosa e ali não se dá bem, até, por fim, encontrar seu
rumo.
Variação da missão vocacional
Note-se ainda que a parte missionária de uma vocação pode sofrer alterações ao longo da vida. É o que vemos frequentemente na hagiografia (história dos santos), quando um vocacionado à vida contemplativa passa a ser missionário; um monge do deserto se torna bispo; uma viúva entra num mosteiro; um casal renuncia à vida de intimidade matrimonial para viver ─ dentro do casamento ─ a castidade perfeita; etc. Um lindo exemplo disto é a Virgem Maria, que, tendo consagrado a Deus sua virgindade, foi chamada à vida matrimonial; e ainda, mantendo a virgindade, tornou-se mãe.
Às vezes, portanto, os caminhos de Deus para uma alma são como aqueles rios chineses, que, antes de desaguar no oceano, dão voltas e mais voltas ─ às vezes quase chegando ao mar ─, até, por fim, encontrar seu destino nas as águas salgadas.
Mas tudo isto que estamos dizendo sobre a missão vocacional não se aplica ─ em via de regra ─ à visão vocacional. Ou seja, embora possa variar a forma de cumprir a missão, não é costume variar (a partir de que se explicitou inteiramente) aquela forma específica de contemplar a Deus.
Vocações especiais
Para algumas pessoas Deus reserva um chamado especial, uma visão mais abarcativa d’Ele, uma missão de maior responsabilidade.
É o caso, por exemplo, de certas vocações ─ religiosas, sacerdotais ou leigas ─ com vistas ao apostolado, à caridade fraterna, à explicitação teológica, à defesa da fé, etc.
Parece ser uma característica comum marcante dessas vocações o chamado a um grande sofrimento: “A quem muito foi dado, muito será pedido.” (Lc 12, 48) Elas participam de forma mais íntima do amor padecente de Cristo, unindo-se aos Seus sofrimentos.
A essas almas Deus trata com um especial carinho, cuidando que nada lhes aconteça ao acaso: sua divina Providência as acompanha desde o nascimento, preparando-lhes o caminho para o cumprimento de seu chamado. Por isso, mesmo quando só em idade avançada explicitam a plenitude de sua vocação, dão-se conta ─ ao olhar para trás ─ que Deus esteve presente em suas vitórias e suas derrotas passadas.
Vocação matriz e vocação participativa
Embora toda vocação tenha um caráter individual, muitas pessoas são chamadas a pertencer a famílias espirituais em instituições ou sociedades, como as ordens religiosas, compartilhando um mesmo chamado.
Portanto, a algumas pessoas destinadas à liderança e ao exemplo, Deus dá uma matriz
vocacional, com vistas à formação de famílias espirituais. Esses fundadores possuem um carisma singular, do qual participam seus seguidores.
Os diversos carismas fundacionais inspirados pelo Espírito Santo refletem a riquíssima variedade de aspectos da divina personalidade do Fundador dos fundadores, Jesus Cristo.
Vocação abortada
Abandonar uma vocação específica (após tê-la discernido) pode pôr em risco a salvação eterna, pois equivale a dizer “não” a Deus. De fato, “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos” (Mt 22,14). Escolhidos são os que, como Maria, dizem “sim” ao chamado de Deus.
Mas, mesmo ao infiel, Deus dará, enquanto viver, oportunidades para se arrepender e buscar uma forma de retomar a vocação deixada ou, não havendo possibilidade de realizar a missão “A”, cumprir um “plano B”. Enquanto houver vida, há chance de alcançar o Céu.
Oração pela minha vocação
Ó Maria de Nazaré, Mãe de Deus e da Graça, Vós que generosamente dissestes “sim” ao chamado de Deus, concedei-me, também, discernir com clareza minha vocação e a ela ser fiel por toda a vida. Que o preciosíssimo Sangue de vosso divino Filho não tenha sido derramado em vão por mim! Ó Jesus de Nazaré, que sempre aceitastes e obedecestes incondicionalmente à vontade do Pai, mesmo quando Ele Vos enviou aquele cálice de dor no Horto, e mesmo quando Vos sentistes por Ele abandonado na Cruz, eu Vos suplico a graça da fidelidade à minha vocação, e que um dia possais dizer a meu respeito o que ao bom ladrão dissestes: “Estarás comigo no Paraíso!”
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