O desequilíbrio mental
Geniologia · Alexandre A. Tavares, 23/01/2024
Equilíbrio é sinônimo de paz interior. Paz que provém da harmonia entre as três potências da alma (intelecto, vontade e sensibilidade).
Numa alma ordenada, a vontade não se guia pelos sentimentos, mas pela razão (iluminada pela fé). Ou seja, sua fé (pela graça divina) dá à razão elementos cognitivos que ela não teria por sua natureza limitada. Conhecendo, então, a verdade, a razão é capaz de guiar a vontade para o bem. E a sensibilidade se adapta ao que a vontade decidiu, ainda que sua natureza instável e caprichosa peça o contrário. Assim é uma alma ordenada, que vive em paz.
Referimo-nos à fé tradicional católica, cuja doutrina interpreta com sabedoria os ensinamentos da Revelação cristã, oferecendo à razão o conhecimento da verdade.
No caso do desequilíbrio, duas coisas podem acontecer: ou a vontade está se guiando pela sensibilidade, ou pela razão confundida (por estar desconectada da verdade).
Quando a vontade se deixa conduzir pelos sentimentos, acontecem decisões irracionais (sem lógica, sem motivo plausível). Ora, como seres racionais, temos que explicar e justificar todas as nossas ações para o nosso intelecto. E havendo uma ação sem razão, se não houver um arrependimento pela ação irracional cometida, a razão vai “criar” ou “maquiar” um motivo falso para justificar a atitude descontrolada da vontade que está seguindo um sentimento desordenado. Assim é que surgem os sofismas e as heresias: a razão se desconecta da fé e da verdade, para criar seus próprios conceitos, doutrinas e crenças.
Como bem escreveu Paul Bourget, “é preciso viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu” (Le Démon de Midi).
Essa deturpação da verdade corresponde a um estado de ilusão que não resolve satisfatoriamente a necessidade de lógica da razão: apenas disfarça, gerando um conflito interno que, sendo uma desordem, afeta negativamente a harmonia e paz interior.
Outra causa frequente da desordem mental é a rejeição (a não aceitação) da realidade; a intolerância, a inconformidade, a discordância com alguma situação da vida. Incluem-se aqui os traumas, também derivados da não aceitação de uma realidade.
Temos, então, que a vontade entra em conflito com os sentimentos em duas situações: quando estes desejam obter algo que não têm, ou quando eles desejam afastar algo que rejeitam.
Tomemos como exemplo o vício, seja alimentar, sexual, intelectual, comportamental...
Vício é qualquer hábito prejudicial.
Todo vício é irracional, necessitando, portanto, de uma “justificativa” racional. Normalmente alega-se uma “necessidade” imperiosa de “aliviar” alguma tensão, através do prazer momentâneo que o vício produz.
Felizmente, todo ato irracional provoca depois alguma ressaca, seja ela física ou mental. A ressaca é um mecanismo natural de defesa e proteção do organismo que responde, à prática do vício, com um mal-estar, que corresponde a um protesto pelo prejuízo do irracional.
Assim, por mais que uma pessoa seja dissimulada e viciada em mentir, sentirá sempre algum incômodo posterior, tanto maior quanto mais grave for a mentira.
A ressaca também funciona como um alerta que clama pelo restabelecimento do equilíbrio, da harmonia e da paz interior.
A grande verdade é que nenhum prazer da terra se equipara ao prazer da paz interior, da harmonia da alma, do espírito ordenado em função da fé, da consciência livre de pecado.
Por fim, alguns viciados alegam que até “querem” deixar seu vício, mas “não conseguem”. Aí entra, novamente, a questão da fé: pois, sim, geralmente não é possível deixar um vício com esforço próprio. Ninguém chega ao estado de equilíbrio ─ e nele se mantém ─ sem a ajuda de Deus.
Como disse Jesus, “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5). Somente a Graça divina pode nos levar ao equilíbrio e à verdadeira paz interior: “Tudo posso n’Aquele que me dá forças.” (Fl 4,13)
Então, “não consigo parar” não é justificativa, pois a força para estancar um vício não vem de nós mesmos, mas de Deus.
O que falta aí é uma séria conexão com Deus, um sair de si mesmo e mergulhar generosamente no amor divino. E isto se faz com um ato sincero da vontade, que deseja seriamente o equilíbrio.
Aliás, para que seja realmente sincero esta intenção de mudança, é preciso que não seja desejada simplesmente pelo prazer da paz interior ou para livrar-se da ressaca (o que seria uma forma de desequilíbrio), mas porque somos filhos de Deus, criados para nos assemelharmos a Ele (com a ajuda da Graça), que é Santo, Nobre, Justo, Puro, Verdadeiro, Bom, Belo e Perfeito.
Sobre o papel da intenção, leia-se o artigo: A pureza de intenção.
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