O desafio de viver sepultado em Cristo
Espiritualidade · Alexandre A. Tavares
Revista Por Ali, nº 9, 02/05/2016
A morte da própria vontade e a renúncia às más inclinações é uma experiência inevitável na vida de quem decidiu sepultar-se em Cristo, como o Apóstolo Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20)
Mas a desordem introduzida no ser humano pelo Pecado Original ─ e acentuada por seus pecados atuais ─ clama por uma vida independente de Deus, livre das leis, despreocupada da vigilância contínua exigida pela prática da virtude. A capacidade intelectual e a liberdade da vontade que Deus pôs no homem fá-lo desejar agir como se fosse “outro deus”.
O apelo e a atração do pecado, da concordância com a opinião mundana e das ilusões demoníacas são como a força de uma onda gigante que varre tudo o que estiver à sua frente.
Por isso, a submissão aos Mandamentos, aos preceitos da Igreja, às leis humanas e a todas as regras impostas pelo convívio social constitui um enorme desafio a este ser que foi criado “à imagem e semelhança de Deus”.
E a decisão de viver mortificado não é algo que se consiga sem o auxílio da graça divina. É mister reconhecer a total incapacidade do ser humano, de praticar o bem por suas próprias forças. E já desde esse ato inicial de humildade ─ pressuposto da vida santa ─ o papel de Deus é relevante. Na realidade, é esta a maior prova que o ser humano pode dar de seu verdadeiro amor. É como um atestado de que ele realmente ama a Deus “acima de todas coisas”: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (Jo 14,15)
O fato é que nada glorifica tanto ao Senhor nesta terra, quanto uma alma que decide vergar sua própria vontade e recusar os prazeres impostos por seus sentidos, a fim de viver a plenitude da união com Deus. À sua maneira, todo santo está sujeito a essa contínua mortificação.
Há lindos exemplos na hagiografia, em que Deus manifesta seu divino contentamento para com os eleitos que se entregam sem reservas: “Amo os que me amam. Quem me procura, encontra-me.” (Pr 8,17) Assim aconteceu com aqueles que tiveram seu coração substituído pelo Sagrado Coração de Jesus, como sinal de que seu querer estava totalmente submisso ao querer divino.
No caso da Bem-aventurada canadense Dina Bélanger, houve um grau surpreendente de união, talvez sem antecedentes na história: ela teve não apenas seu coração trocado pelo Coração de Jesus, mas todo o corpo! Foi toda “substituída" pelo Senhor. E neste sinal extremo de intimidade com seu Criador, viveu ela os últimos três anos de sua curta existência terrena.
Mas o que provavelmente mais cause espanto aos leitores de sua autobiografia é o fato de que, após ter-se unido assim tão estreitamente a Deus, sobrevinham-lhe tentações de “voltar a ser ela mesma”... Era o clamor sufocado do seu “eu” que Dina havia sepultado em Cristo, mas que não pode ser extirpado do ser humano enquanto ele viver neste Vale de Lágrimas.
Com efeito, a batalha é árdua, “a vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7,1), mas esta lida vale muito a pena. Ou melhor, ela vale infinitamente mais do que “a pena”, pois “nenhum olho humano viu, nenhum ouvido ouviu, nenhum coração humano imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9); “os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor” (Sb 5,15).
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