O caminho da perfeição

E-book de espiritualidade ─ Alexandre A. Tavares, 14/05/2021

I ─ Jesus, o Modelo

“Sede perfeitos”

A perfeição encanta e cativa o homem de bem. Ela é para o ser humano um atrativo e um convite constante. Mas enquanto uma parte do nosso ser deseja e busca instintivamente a perfeição, outra foge dela, também de forma instintiva. Porque, de um lado, Deus nos criou para a perfeição, e, de outro lado, criou-nos livres, com a possibilidade de rejeitá-la pelo livre-arbítrio.

Deus “precisou” nos criar com as potências da alma (inteligência, vontade e sensibilidade) livres, independentes, autônomas, para que conhecendo-O (pela inteligência) e amando-O (pela vontade), pudéssemos participar de sua felicidade eterna (pela sensibilidade). E esta condição nos põe inevitavelmente numa situação de prova, que consiste em vivermos segundo Deus (decidindo amá-Lo acima de todas as coisas), renunciando às más inclinações da nossa vontade (livre, porém egoísta, porque imperfeita).

Escolher a perfeição é escolher agir como Deus; rejeitá-la é decidir não ser como Ele. E esta capacidade de imitar a Deus é inerente ao ser humano, criado “à imagem e semelhança” (Gn 1,26) d’Ele.

É para isso que existimos: para participar da perfeição de Deus, por Ele, com Ele, n’Ele e para Ele, conforme ordenou Jesus: “Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5,48)

E Cristo, o Homem-Deus, é o modelo único e absoluto de todas as perfeições do universo. Ele não apenas ordenou que fôssemos perfeitos, mas nos ensinou como viver a perfeição. Ensinou-nos com palavras e na prática, com sua vida, registrada nos Evangelhos, e vivida, repetida, imitada por todos os Santos ao longo desses dois mil anos de cristianismo.

Perfeição espiritual é santidade. E só existe um caminho verdadeiro, uma única via autêntica para essa perfeição: a imitação de Cristo, que nos revelou ser Ele próprio “o caminho, a verdade e a vida”, acrescentando que “ninguém vai ao Pai, a não ser por Ele” (Jo 14,6). Portanto, devemos ser perfeitos, e o caminho para isso é imitar Jesus.

“Imitar” não significa “copiar”, pois isto é até impossível. Imitar é pautar nosso comportamento segundo os princípios de conduta ensinados por Cristo, ou seja, sua forma de pensar, de querer, de sentir e viver a vida.

As renúncias de Jesus

Toda a vida de Cristo (Filho) é pautada em fazer a vontade de Deus (Pai). Nesta misteriosa união entre o Homem (Criatura) e Deus (Criador), Jesus Homem se moldava e se adaptava sempre à vontade do Pai, pregando essa renúncia como o caminho perfeito de amor.

Por sua natureza perfeitissimamente ordenada, imaculada e divina, Jesus agia sempre com retidão, justiça e santidade, espontaneamente fazendo o bem, dizendo a verdade e encantando com sua beleza. Mas sua vontade humana, livre, podia escolher entre as diversas possibilidades de ações perfeitas, em que umas podiam superar outras em perfeição. E escolheu como padrão de perfeição absoluta “fazer a vontade do Pai”.

Foi o que nos ensinou quando ditou, na oração perfeita: “Seja feita a vossa vontade.” Ou quando afirmou: “Desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6,38) E num dos momentos mais importantes da Paixão, quando disse “sim” aos planos do Pai, durante a agonia no Horto das Oliveiras: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice [de sofrimento]! Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres.” (Mt 26,39)

E assim como o Pai manifestou sua vontade ao Filho, também a nós Deus manifesta o misterioso desígnio de sua vontade [...] em Cristo (Ef 1, 9-10).

Vemos, pois, Cristo, nosso Modelo, renunciar-Se durante toda a sua vida terrena:

ao aceitar, mesmo sendo desnecessário ─ devido à fusão da natureza humana com a divina ─ viver como homem em estado de padecimento (em tudo o que foi compatível com sua divindade): sentiu dores e incômodos como fome, frio, medo, tristeza, compaixão, incompreensão, rejeição, humilhação, manipulação, traição e abandono;

ao manter-se obediente e “submisso aos seus pais” (Lc 2,51);

ao esperar completar os “trinta anos [de idade], para [só então] começar seu ministério” (Lc 3,23), idade mínima exigida para alguém ser Mestre entre os judeus;

ao não se opor ao domínio do império romano (tão rejeitado pelos judeus, que imaginavam ser o Messias quem os libertaria daquele jugo);

ao permitir-se ser traído, preso, interrogado, humilhado, castigado, condenado à morte e executado;

e ao guiar-se sempre, em tudo quanto fazia, pela inspiração do Espírito Santo.

Da parte do Pai, um plano de vida para Jesus já estava traçado desde toda a eternidade. Havia uma vontade expressa de Deus, inclusive com certos detalhes prenunciados pelos Profetas, e que, na “plenitude dos tempos”, o Messias cumpriria, todos, à risca. A maioria dessas profecias foi predita por Isaías, considerado por isso mesmo “o quinto evangelista”.

O Rei Escravo

Ao ser interrogado por Pilatos, Jesus confirmou: “Sou Rei.” (Jo 18,37) Mas mesmo sendo o Rei do reis, o Senhor dos senhores, o Mestre dos mestres, o Dominador do Universo, o Messias prometido, o Verbo de Deus onipotente... não viveu conforme tais prerrogativas. Muito pelo contrário, abdicou do prestígio e das honras que lhe eram devidas, escolheu não dominar nem reinar, para servir como escravo, deixando-se dominar e controlar pela vontade do Pai, muitas vezes expressa nas intervenções injustas dos homens, durante o simples decorrer dos acontecimentos em sua vida.

Sua entrega, despretensão e renúncia foi completa: nasceu na calada de uma noite fria, numa gruta silenciosa, em que os cortesões eram animais e pastores; foi levado em fuga para o Egito; viveu sua infância e adolescência servindo os pais na obscuridade de Nazaré, como “filho do carpinteiro” José; começou sua vida pública submetendo-se ao batismo de seu primo João; em seguida, foi jejuar e sofrer as tentações do demônio no deserto, durante quarenta dias; a pedido de sua Mãe, transformou água em vinho, mesmo que “ainda não tivesse chegado a sua hora”; durante seu ministério, pedia insistentemente que não divulgassem os milagres, para não atrair o ódio dos invejosos... Inutilmente! Mas não punia tais desobediências, mesmo que prejudicado por elas.

Tal era a sua pobreza que “não tinha um lugar para reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Ao contrário do que todos poderiam imaginar como sendo as prioridades do Messias, exaltou ─ como bem-aventurados! ─ os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os sedentos de santidade, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos, os injustiçados, os caluniados e os perseguidos (cf. Mt 5, 3-11). E viveu tudo isto!

Ao término da última ceia, num gesto supremo de humildade, lavou os pés dos apóstolos, e explicou: “Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes essas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes.” (Jo 13,12-17)

O Messias prometido, o nobre Filho de Davi, o Rei dos reis não vinha trazendo um império humano ─ “o meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36) ─ nem sequer a libertação do jugo romano ─ “dai a César o que é de César” (Mt 22,21).

Jesus trouxe, isto sim, a libertação dos corações, da mesquinhez, da mediocridade, do amor-próprio, da cobiça, da ganância, da inveja, do desejo de brilhar e aparecer, do orgulho, do achar-se mais que outros, de querer viver uma vida de sucessos e realizações mundanas. E para desfazer essa constelação de egoísmos, ensinou-nos a vivermos como escravos voluntários de amor. O imitador de Cristo, o verdadeiro cristão renuncia à sua vontade, para fazer a vontade de Deus e servir ao próximo.

Que lindo e sublime mistério, em que o Rei divino se faz um manso Cordeiro, para nos mostrar quanto é agradável a Deus renunciar à vontade própria, ao domínio, ao governo, ao controle da nossa vida! O Leão de Judá se fez “manso e humilde de coração” (Mt 11,29).

Embora “sendo ele de condição divina, não se serviu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” (Fl 2,6-8)

Aceitemos aplicar isso em nossa vida! Para trilharmos o caminho da perfeição à sombra de Jesus é indispensável renunciarmos à nossa vontade e deixarmo-nos controlar pela Providência divina, que nos faz conhecer os seus divinos desígnios.

II ─ A imitação de Cristo

Perfeição exige renúncia

Viver a prática de “ser perfeito como o Pai celeste” exige uma mudança no nosso jeito de ser, principalmente de entender e querer, pois não é de forma espontânea que imitaremos Cristo. É preciso uma adaptação.

Esta mudança é normalmente chamada de metanoia (transformação) ou conversão, em que a nossa vontade converge para a de Deus. E isto supõe renúncia, entrega, sacrifício, mortificação. Foi a isto que Jesus se referiu quando disse: “Se alguém quiser me seguir, renuncie-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” (Mc 8, 34; Lc 9,23)

Somente por meio desta renúncia poderemos nos considerar autênticos seguidores e imitadores de Cristo: “Quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim.” (Mt 10,38)

Eis, então, o grande dilema da nossa existência, do uso que fazemos da nossa vontade: “Quem ama a sua vida, irá perdê-la; mas quem odeia a sua vida neste mundo, irá conservá-la para a vida eterna.” (Jo 12,25) Nesta frase podemos perfeitamente substituir a palavra “vida” por “vontade”, porque para o homem viver é querer.

A renúncia

A razão da renúncia é obviamente excluir tudo o que nos afasta do caminho de perfeição, para chegar à união plena com Deus. E o maior empecilho para isso é o nosso livre querer.

O objeto específico da renúncia é, então, a nossa vontade. Nossos desejos desordenados, e desconectados do bem que Deus nos oferece, nos levam a decisões egoístas que nos afastam do amor a Deus. E a solução para esta desordem da nossa vontade é a renúncia, é deixar de segui-la, para seguir e obedecer à vontade de Deus. Sim, Deus tem uma vontade a nosso respeito, que nos chega ao conhecimento por diversos meios, como:

pelas leis naturais do universo: os Dez Mandamentos; a razão e a consciência; os instintos;

pelas leis humanas (que quando não contradizem as leis naturais, contribuem para a ordem e devem ser obedecidas);

pelos acontecimentos, enquanto “destino“ ou “providência divina”, ou seja, tudo o que simplesmente “acontece” no curso natural da nossa vida, do nosso dia a dia, independente se bom ou ruim, favorável ou desfavorável, importante ou “insignificante”.

embora já subentendido no item anterior como “acontecimentos”, exemplifiquemos que a vontade de Deus pode se manifestar através de: palavras de um amigo (ou de um inimigo!); uma boa leitura que façamos; um sonho; uma inspiração, em que Deus ilumina a nossa mente, como se fosse um pensamento nosso; e ainda: saúde ou doença, prosperidade ou carência, sucesso ou revés, fama ou obscuridade, vida longa ou curta, muitos ou poucos amigos, consolação espiritual ou provação, revelação (clara e rápida) ou ocultação (temporária ou prolongada) da vontade divina.

por meios extraordinários, como sons, vozes, visões, aparições e outros tipos de revelações. Esta não é a forma habitual de Deus se comunicar, e deve ser vista por nós com grandíssima desconfiança, porque também o demônio pode fazer isto para nos enganar ou atemorizar. Se for de Deus, Ele deixará claríssimo isto. Portanto, na dúvida, não tenhamos receio de rejeitar, como sendo do maligno. Tenhamos, pois, como princípio, que toda comunicação com aparência sobrenatural e extraordinária deve ser ignorada. Um critério muito eficaz para discernir sua proveniência é que tudo o que vem de Deus é bom, verdadeiro e belo; e tudo o que vem do demônio pode até, no início, parecer bom, mas logo se manifestará o lado ruim, falso e feio. Por isso, São João da Cruz nos aconselha a não dar a mínima importância a este tipo de comunicação anormal, até acrescentando que, mesmo comprovado serem de Deus, não devemos nos apegar a elas nem desejá-las, pois seria buscar uma fruição sentimental que facilmente nos afastaria do amor de Deus para nos amarmos a nós mesmos.

A perfeição da sincronia com a vontade de Deus exige que não tenhamos preferência pelo que possa nos acontecer de bom ou ruim durante a vida, de modo que sejamos indiferentes, como ensina Santo Inácio:

“É necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.” (Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, nº 23.)

Portanto, as opções são estas: Queres ser equilibrado, santo, perfeito, ter paz de espírito? Deixa Deus te controlar! Não queres? Controla-te a ti mesmo! Mas, se escolher esta segunda opção, esteja pronto para depois sentir o amargor da tua decisão e experimentar as decepções que ela te trará...

Sem dúvida, a decisão mais penosa para o ser humano ─ dotado de inteligência e vontade livres ─ é renunciar ao uso desta faculdade, tão entranhada e impetuosa: a vontade. Pois ela faz parte da nossa essência. Viver é entender e querer. E aqui se esconde o grande segredo da união com Deus.

Ele, Todo-poderoso, tem e pode tudo, com exceção da nossa vontade, que Ele criou livre, autônoma. Mas acontece que essa vontade independente é incapaz, sozinha, de se manter no bem. Lembremo-nos: “Sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,5) “Não podeis dar fruto, se não permanecerdes em mim.” (Jo 15,4) Mas: “Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto.” (Jo 15,5) É somente assim, sustentados e impulsionados pela divina Graça, que podemos ousar como Paulo: “Tudo posso n’Aquele que me dá forças.” (Fl 4,13)

Aceitemos, pois, sem vergonha nem tristeza, o fato de que, sem o auxílio de Deus, nossa inteligência e nossa vontade ─ pelo simples fato de não serem divinas ─ são falhas, erram e fazem o mal. Somente com a intervenção de Deus, chamada Graça, é possível perseverar no bem. Por isso, é indispensável desejarmos e pedirmos a ajuda da Graça.

A importância da oração

Nesta caminhada, uma coisa não pode faltar: oração. Com palavras bem diretas, São Afonso de Ligório assim resume a importância da oração: “Quem reza se salva, quem não reza se condena. Salvar-se sem rezar é dificílimo, até mesmo impossível... mas rezando, a salvação é certa e facílima. Se não orarmos, não temos desculpas, porque a graça de rezar é dada a todos. Se não nos salvarmos, a culpa será toda nossa, por não termos rezado.”

Jesus evidenciou, de diversos modos, a importância e necessidade da oração, tanto falando dela com frequência, quanto ao ter como hábito retirar-se para orar em lugares mais tranquilos. Além de nos ter ditado a oração perfeita do Pai Nosso, ensinou-nos com qual estado de espírito devemos nos dirigir a Deus:

“Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.

“Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.

“Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.

“Eis como deveis rezar: ‘PAI NOS­SO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.’

“Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.” (Mt 6,5-15)

Oração é definida como a “elevação da mente a Deus”. Eis aqui algumas maneiras de rezar:

Petição ─ onde realizamos pedidos a Deus, vocais ou mentais.

Contemplação e meditação ─ meditar sobre Deus e sua criação, sobre a vida de Cristo, sobre a relação d'Ele conosco, etc.;

Quietude ─ um estilo raro de oração, porém riquíssimo em frutos, em que elevamos nossa mente a Deus e silenciamos as potências da alma (inteligência, vontade e sensibilidade) e os sentidos do corpo, numa constante intenção de adoração, sem usar palavras, nem pensamentos.

União, Presença ou Posse ─ o pressuposto dessa oração é o fato de sermos “templos do Espírito Santo”, que inabita nossa alma. Unimo-nos então a Deus pela atenção e pela intenção, conectado a Ele cada gesto, atitude ou ação. Podemos, assim, “divinizar” qualquer ação e transformá-la num culto, dando-lhes, pela intenção, o significado de “eu te amo” ou “eu te adoro”, ou ainda desejando que o próprio Deus aja conosco, por nós e em nós, como nos possuindo. Assim, nos colocamos na presença e na posse d’Ele. É esta prática que permita a São Paulo dizer “já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). De muito proveito é viver esta oração, tanto nos momentos felizes como nos de dor.

Quanto à oração de petição, existem algumas condições para que Deus nos atenda:

humildade e submissão à vontade divina: relacionar-se com Deus na oração pressupõe uma atitude de inferioridade e indignidade, própria à nossa condição de criaturas imperfeitas e pecadoras;

reta intenção da oração, visando como fim último a nossa salvação;

fé e confiança com que se reza, como sinal de que acreditamos, sem margem de dúvida, no poder e na bondade de Deus;

perseverança, como prova de que realmente precisamos o que pedimos.

Observadas estas condições, não haverá impedimentos para se realizarem as promessas de Jesus:

“Tudo o que pedirdes com fé na oração, vós o alcançareis.” (Mt 21,22)

“Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei.” (Jo 14,13)

“O que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará.” (Jo 15,16; 16,23)

“Tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e vos será dado.” (Mc 11,24)

Oração de quietude e o silenciar das potências

Assim como nosso corpo tem cinco sentidos (visão, audição, paladar e tato), nossa alma possui três potências: inteligência, vontade e sensibilidade. Na inteligência estão o pensamento, o raciocínio, a avaliação e a conclusão; na vontade está o poder livre de decisão; e na sensibilidade estão os sentimentos (emoções), os instintos, a memória, a imaginação e a conexão com os sentidos do corpo.

Embora se possa fazer esta separação didática entre as três potências, elas funcionam juntas, numa triunidade que, por sua vez, também está ligada ao corpo. Por isso, tudo o que sentimos (pela sensibilidade) avaliamos (pela inteligência) e decidimos (pela vontade) num processo conjunto.

Pelas potências somos semelhantes a Deus, que é Inteligência, Vontade e Sensibilidade. E exatamente Ele nos criou com estas potências para sermos capazes de nos unir a Ele por uma semelhança conatural. Interagir com Deus é tudo o que de melhor podemos fazer nesta vida, e será a grande felicidade que nos espera na eternidade.

Imaginemo-nos entrando no mais magnífico dos palácios, e chegando diante do maior dos imperadores da terra, sentado em seu trono. Seria um grande disparate nos comportarmos mal diante do imperador. Pois, ao nos dirigirmos a Deus, devemos fazê-lo com enorme compostura, respeitando a diferença infinita entre criatura e Criador.

Falar dignamente com Deus exige uma atitude de atenção (concentração, compenetração), respeito, sinceridade e humildade. Diante d’Ele não convém nos distrairmos nem brincar, porque Ele é Seriedade, Grandeza, Gravidade, Solenidade, Beleza, Nobreza, Soberania, Conhecimento, Sabedoria, Santidade, Bondade, Justiça e Perfeição.

Diante de Deus, nossas potências devem “se comportar” com nobreza e dignidade, e a melhor forma de fazerem isto é se calarem. Silenciar as potências significa “parar” a atividade delas. Assim como ao calarmos a boca deixamos de falar, ao silenciar as potências, paramos de pensar, de querer e de sentir. E então, neste silêncio, nos colocamos numa atitude humilde, submissa, com a prontidão de um escravo prestes a receber ordens de um Soberano Senhor que lhe ama a ponto de tratá-lo não como servo, mas como filho querido.

Nesta nobre e santa comunicação, talvez Deus “rompa” o silêncio, “dirigindo-nos” uma palavra (por exemplo, em forma de inspiração em nosso pensamento). Neste caso, se necessária uma resposta, “falemos” apenas o indispensável. Mas lembremo-nos de que Deus conhece os nossos pensamentos, desejos e intenções. Portanto, durante esta oração de quietude, quando tivermos um início de intenção, saibamos que Ele já está vendo. E ao nos darmos conta de que Ele “viu” (porque aconteceu em nós), na verdade já dissemos a Ele: não é mais necessário formular pedidos, pensamentos, desabafar emoções, etc.

Misteriosamente, uma das reações que costumam acontecer durante esta comunicação com Deus através somente da intenção, é o choro. Este dom de lágrimas não deve ser “provocado” por nós; apenas deixemos acontecer. A propósito, presença ou ausência de lágrimas não significam maior ou menor devoção, ou amor, ou bondade, ou maldade. Acontece com algumas pessoas e não com outras, e ─ repito ─ não deve ser algo esperado nem desejado.

Quando decidimos “parar” ou “silenciar” nossa inteligência, vontade e sensibilidade, para “ouvir” a vontade de Deus, algo inusitado acontece: um grande e assombroso “vazio”, uma sensação de “morte”. E isto se dá porque, como dissemos acima, querer é viver, e quando deixamos de querer, é como se morrêssemos.

Se ousarmos persistir neste silêncio, começaremos a nos dar conta de quem realmente somos, pois começarão a vir à tona “reivindicações ocultas” da nossa vontade, revelando desejos e defeitos para os quais não ousávamos olhar.

Aprendendo a silenciar as potências

Agora nos será possível encarar verdades antes escondidas pelo nosso orgulho. Esta visão pode até doer e causar tristeza, mas é parte do caminho que decidimos percorrer. Contemplar esta realidade é conhecer o nosso verdadeiro “eu”, aquele eu que andava mascarado de egoísmos e travestido de ilusões.

Mantendo esse abandono das potências, perceberemos também que muitos coisas que antes nossa vontade queria ardentemente não passavam de desejos inúteis, desnecessários, prejudiciais ou até proibidos. Passaremos então a olhar os nossos erros, nossos egoísmos, a nossa miséria, nossa maldade, nossa falta de amor a Deus e ao próximo.

Talvez, o especto mais assustador dessa visão seja o desânimo que inicialmente ela produz. Aliás, um desalento bem egoísta, de quem ainda não se desprendeu daqueles desejos, e de quem não chegou ao estado de humildade necessário para renunciar com generosidade. Apenas imaginávamos que seria difícil renunciar, mas quando, por esta visão, nos damos conta de quanto deveremos mudar, ficamos assustados e o nosso ego geme...

Pois acabamos de descobrir que... não somos deuses! Não somos poderosos, nem heróis, nem fortes, nem inteligentes, nem verdadeiros, nem bons, nem justos, nem lindos, nem cativantes, nem dignos de amor. Era apenas uma ilusão, que pintamos enquanto controlávamos (descontroladamente) a nossa inteligência e a nossa vontade. Criamos para nós mesmos essa ilusão de “divindade” para alimentar um ego vaidoso e desequilibrado.

Mas agora, desmascarada essa mentira, vemos a verdade!

O próximo passo será ─ mantendo sempre o silêncio das potências ─ a conexão com Deus. Sentindo-se agora pequeno, miserável, pobre, simples e incapaz, estou pronto para conectar-me com Deus. E para fazer isto, basta imaginá-Lo “entrando” em mim ─ porque desejo e peço com sincera intenção ─ e preenchendo aquele vazio deixado pelo enchimento de orgulho e sensualidade que antes me inflava.

A partir deste preenchimento, que é real e efetivo, posso fazer todas as coisas do meu dia assim conectado a Ele. Posso continuar cumprindo as minhas obrigações, como se já fossem elas a vontade de Deus. Consigo agora orar e meditar para perseverar na imitação a Cristo, sem medo que este caminho passe por vales tenebrosos, mares tempestuosos, e desertos áridos, pois confio que a Graça me sustentará.

Na realidade, se este caminho fosse lindo e fácil, não seria o caminho ensinado por Cristo. O que importa não é o que vemos ou sentimos pelo caminho, mas o fim: Deus, que nos espera na glória celeste. E, como disse o Apóstolo, “o tempo é breve”: logo passam os anos e chega o momento da nossa morte, em que poderemos dizer: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Dai-me agora, Senhor, o prêmio da vossa glória!” (cf. 2Tm 4,7-8) Apenas sigamos adiante, seja fácil ou difícil.

A confiança na Providência

Vivemos num mundo de tantas informações desencontradas, que somos constantemente convidados a manter nossas mentes mergulhadas num mar de confusão e incertezas. A fé, que deveria ser nosso corrimão da segurança, encontra-se enevoada pela fumaça espessa do relativismo, do materialismo e do neopaganismo. Enfraqueceu-se a luz da razão, a luz da fé e, cada vez mais, a luz da memória... É como se as pessoas não conseguissem se lembrar, na prática do seu dia a dia, das razões pelas quais devem acreditar e confiar. Nossa capacidade intelectual está minguada.

Aceita-se hoje, unanimemente, que transtornos psicológicos como ansiedade, depressão e estresse constituem “doenças do século”. E nisto devemos reconhecer, com assombro, que o inferno foi muito bem sucedido em trazer a humanidade para este abismo.

Mas o que menos se nota ─ e isto também por influência deste mesmo abestamento psíquico ─ é que a causa dessa cegueira intelectual está principalmente em nosso afastamento de Cristo e das práticas evangélicas, a saber: a submissão amorosa a Deus (obediência), a pobreza de espírito (humildade) e a pureza, tanto espiritual (retidão) quanto corporal (castidade).

É lamentável e assustador ver como, cada vez mais, os cristãos vão se distanciando da simplicidade evangélica, em que simplesmente Cristo é o Centro, o Mestre e o Modelo para se embrenhar em filosofias e doutrinas bizarras... Como recurso para tentar conciliar sua vida desregrada ─ quando não pecaminosa ─ com uma teoria que a justifique, abandonam Jesus e correm atrás de técnicas pagãs de meditação, de equilíbrio físico e psicológico, práticas naturalistas como leis de “atração”, culto de “agradecimento“ e interação com um “cosmo divino”, além de outras espiritualidades anticristãs... Desorientados e perdidos, alguns vão saltando de religião em religião, mesclando filosofias e teologias contraditórias, e com isto só afundam mais e mais na confusão mental, como se estivessem se remexendo numa areia movediça.

E nesse processo, aparentemente irreversível, de decadência, nada é mais alarmante do que assistir pessoas até de bom espírito e com reta intenção de fazer o certo, pessoas que buscam encontrar a verdade e agarrarem-se nela para sobreviver a esse naufrágio universal, não encontrando o “caminho de volta”. É como se lhes faltasse a Graça, como se Deus estivesse “ausentasse” neste momento histórico de trevas, permitindo uma vitória momentânea de satanás.

Perplexos e angustiados, os justos, temendo eles mesmos naufragarem no mar revolto, clamam a Deus, para que sua divina Providência intervenha. Porque estes dias se assemelham àqueles que precederão o fim do mundo, em que, “ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos esfriará. [...] A tribulação será tão grande como nunca foi vista [...], e se aqueles dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia; mas, por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados.” (Mt 24,12;21-22)

Não obstante a trágica situação em que nos encontramos, confiemos que Deus é Deus, e que, mesmo que pareça, Ele nunca será um “derrotado”, e jamais deixará de socorrer seus filhos, pois “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,18). Ainda que pareça “dormir”, o Justo e Misericordioso Senhor sempre mantém um canal de comunicação com os seus amados, como um filete iluminado que se abre por entre as nuvens carregadas, permitindo-nos subir. E então, por este facho de esperança, elevando-nos acima das nuvens, onde brilha o sol da confiança, poderemos receber o socorro do abraço divino.

A confiança é definida por São Tomás de Aquino como “uma esperança fortalecida por sólida convicção”. É, portando, uma “super esperança”, que exclui a menor dúvida.

Um episódio do Evangelho em que a questão da confiança ficou bem exposta foi quando Jesus apareceu a Pedro e aos que com ele pescavam no fim da madrugada. Ao ver o Mestre, Pedro, na dúvida, gritou: “Senhor, se és tu, manda-me ir contigo sobre as águas.” Jesus respondeu: “Vem!” Pedro, então, descendo do barco, e andando sobre as águas, foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o vento e as ondas, teve medo; e, começando a submergir, clamou: “Senhor, salva-me!” Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o, e disse: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?!”

Pedro era desconfiado por natureza. Mas, ao pedir a Jesus uma prova e obtê-la, como pôde duvidar?! Que prova precisava ela, além de estar andando sobre as águas?! Contudo, sua confiança era ainda tão pequena que o vento e o mar agitado o assustaram a ponto de voltar a desconfiar. Se Pedro mantivesse seus olhos fixos em Jesus, não temeria, e continuaria andando. Mas ele começou a se impressionar e a se preocupar com o “perigo” do vento e das ondas. E ao desviar o olhar de Cristo e fitar o perigo, desconectou-se de Quem poderia mantê-lo confiante.

A confiança acontece quando nos sentimos seguros, protegidos. E ninguém pode nos dar tanta segurança quanto Deus. Mas não conseguiremos nos sentir seguros se olharmos mais para o perigo do que para Deus. A preocupação com a dificuldade é o primeiro passo para a desconfiança. E quanto mais for necessária a ajuda de Deus para resolver a dificuldade, tanto mais o risco de desconfiarmos será maior.

O problema é que, enquanto não soubermos se Deus intervirá ou não, paira a insegurança. Então, para evitar a desconfiança, o melhor é sempre querer o que Ele quer, ou seja, evitarmos ter uma preferência e evitarmos pedir que Ele faça o que nós queremos, sem saber qual é a vontade d’Ele. Porque em muitos casos em que ─ aos nossos olhos ou desejos ─ a melhor solução pareça uma, será ─ aos olhos da Providência e Sabedoria divina ─ outra!

É verdade que Deus pode nos conceder tudo o que pedirmos com confiança. Mas que inconveniente pedir algo que não é o melhor...! Ele atenderá a nossa prece, mas depois poderá acontecer algo que não era desejado por nós... Simplesmente porque pedimos algo que não sabíamos estar de acordo com a Sabedoria divina.

Mais uma vez, o melhor, o mais seguro, o mais santo, o mais lindo é sempre querer que a solução venha de Deus, da forma que mais o glorifique. Deixemos para pedir-lhe com confiança somente aquilo que sabemos ser a vontade d’Ele. Porque aí será mais fácil confiar.

A divina Providência sabe o que os homens precisam, e tem o poder de conceder-lhes. Esta é a razão pela qual devemos confiar, cegamente. “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8, 31-32)

Por isso, “não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas?” (Mt 6, 25-26)

“Põe no Senhor as tuas preocupações, porque ele será teu sustento; não permitirá jamais que o justo esmoreça.” (Sl 55,22)

“Não vos aflijais, nem digais: ‘Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?’ São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso.” (Mt 6, 31-32) “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã.” (Mt 6, 33-34)

Um pensamento que aumenta a confiança é considerar o amor infinito que Deus nos tem. Complementando os trechos evangélicos citados acima, vejamos esta mensagem que Jesus revelou, no início do século passado, para a Irmã Josefa Menéndez, no convento da Sociedade do Sagrado Coração, em Les Feuillants (Poitiers-França). Aqui vão alguns trechos:

“Deixa-te nas minhas mãos. Não me importam tua pequenez e tua fraqueza; o que peço é que me ames e ofereças tudo para consolar meu Coração. Quero que saibas quanto te amo, e que tesouros meu Coração te reserva.” (25/8/20) “Quero que descanses sem medo em meu Coração. Olha para ele, e verás que esse fogo é capaz de consumir tudo o que há de imperfeito em ti. Abandona-te ao meu Coração, e não pensa em outra coisa, senão dar-me prazer.” (25/8/20) “Meu Coração arde querendo consumir as almas no amor. Deixa-me agir em ti, humilha-te, que eu te buscarei em teu nada, para unir-te a mim.” (8/11/20) “Lembra-te que o teu nada é o ímã que atrai meu olhar.” (14/3/21) “O amor apaga tudo [o que fizeste de errado].” (15/3/21) “Farei todo o trabalho; nada tens que fazer, a não ser amar e abandonar-te. Não te preocupes com o teu nada, nem com tua debilidade, nem mesmo tuas quedas. Meu Sangue apaga tudo: basta saber que te amo. Abandona-te.” (17/3/21) “A alma que ama deseja sofrer, e o sofrimento aumenta o amor. O amor e o sofrimento unem a alma estreitamente a Deus, até transformá-la n’Ele.” (26/1/21) “Lembra-te que o teu nada é o ímã que atrai meu olhar.” (14/3/21) “O amor apaga tudo [o que fizeste de errado].” (15/3/21) “Não sabes que quanto mais miseráveis são as almas, mais as amo? Tu me roubaste o Coração, por causa da tua pequenez e da tua miséria.” (19/8/22) “Porque és pequenina, pudeste entrar tão fundo em meu Coração.” (21/10/22)

Recurso aos Sacramentos

Ao reabrir-nos as portas do Céu pela Redenção, Jesus bondosamente nos deixou recursos especiais que facilitam e possibilitam a perseverança na prática do bem e a conquista da glória celeste. Estes recursos são os Sacramentos, aplicados pelos Apóstolos e seus sucessores:

Batismo. Por ele somos oficialmente perdoados da culpa Original e introduzidos no regime da Graça e no convívio com a Trindade Santa.

Confirmação ou Crisma. Reafirmamos com este sacramento a fé que professamos, e assumimos, numa idade consciente, as responsabilidades e compromissos de cristãos. Rebemos, pelo crisma, um incremento da ação do Espírito Santo, através dos seus sete dons.

Eucaristia. Jesus, ao retirar-Se para a glória eterna, permaneceu entre nós sob as aparências de pão. Com efeito, ao recebermos o pão consagrado, estamos recebendo o próprio Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele mesmo estabeleceu este sacramento: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.” (Jo 6, 50-51)

Confissão, Reconciliação ou Penitência. “Confessai os vossos pecados.” (Tg 5,16) O batismo nos limpa da mancha de todo pecado passado, inclusive o Original. Porém, nossa miséria nos leva a manchar-nos novamente, ofendendo a Deus por nossos próprios pecados. Mas estes podem ser novamente perdoados por este misericordioso sacramento, cujo poder foi entregue aos Apóstolos quando Jesus disse: “A quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados, e aqueles a quem retiverdes serão retidos.” (Jo 20,22-23)

Ordem e Matrimônio. Ambos sacramentos que conferem mudança de estado civil: ordem, para tornar alguém sacerdote, e matrimônio para tornar casado.

Unção dos Enfermos. Era chamado de Extrema Unção, sacramento oferecido aos enfermos com grande risco de morte. Recentemente passou a ser ministrado para qualquer doença grave, mesmo sem risco iminente de morte. Por esta unção (com óleo), o católico recebe, novamente, o perdão de todas as suas culpas. Além disso, o sacramento tem poder curativo.

III ─ Dificuldades específicas da nossa época

A má influência da velocidade

Cada época histórica tem suas dificuldades específicas, e por certo muitas há neste início de terceiro milênio. Vamos tratar de uma da qual não se fala sob o prisma que apresentaremos aqui: a velocidade.

O avanço tecnológico trouxe, sem dúvida, muitas facilidades para o ser humano. Mas, embutidas nessas facilidades, trouxe-nos também prejuízos consideráveis, principalmente do ponto de vista da união com Deus. É verdade que a tecnologia pode ser considerada um progresso da inteligência humana, aproximando assim o homem da sabedoria divina. Basta considerarmos, por exemplo, quanto as conquistas da informática mudaram a vida na terra: smartphones, sistemas automatizados em máquinas, globalização do conhecimento pela internet, etc.

Entretanto, desde a revolução industrial, introduziu-se na vida humana uma agitação antinatural, provocada pela velocidade. E na medida que novas tecnologias foram surgindo, elas foram aumentando essa agitação, culminando na velocidade da transmissão em “tempo real” do 5G.

Talvez as novas gerações tenham até certa dificuldade em compreender o mal que há nisto, por causa do hábito de viverem mergulhadas na velocidade. Na prática, o efeito nocivo da velocidade influencia nosso modo de pensar, de querer, de sentir e de agir. Mexe com todo o nosso ser, incutindo-nos a mentalidade de que tudo pode e deve ser tão rápido quanto o 5G.

Ora, Deus não age com velocidade, Ele é solene e grandioso. Ao criar o mundo, Deus poderia tê-lo feito num “estalar de dedos”, ou simplesmente com um “desejo instantâneo”. Mas, como narra o gênesis, ele o faz em solenes “seis dias”. Em via de regra, é assim que tudo funciona na natureza: tudo nasce, cresce e definha num tempo adequado, sem pressa.

O universo é calmo

A simples observação do universo e o uso do bom senso nos levam à realidade de que “a pressa é inimiga da perfeição”. Num campo mais filosófico, podemos igualmente notar que nemo summus fit repente (“nada que é importante se faz de repente”). Ambas observações ressaltam o aspecto negativo da velocidade, e positivo da lentidão. Deus teve o cuidado de fazer parecer ao homem que o movimento dos astros são quase imperceptíveis, de modo que ─ mesmo se deslocando em grandes velocidades ─ a terra demora 24h para dar a volta do dia sobre seu eixo, e 365 dias dar a volta do ano, em torno do sol. De modo que, lua e sol se deslocam aos nossos olhos tão lentamente que mais parecem parados. Idem as estrelas. Assim acontece também no processo da vida, desde o nascer até a morte natural de uma planta, de um animal ou de um ser humano. Esse é o ritmo ordenado da vida, a solenidade divina.

Velocidade versus Divindade

A tensão e a agitação interior geradas pela velocidade afasta o ser humano da perfeição e do amor de Deus. Como isto se dá? Quem vive em contato com tanta velocidade, tende a achar que esse imediatismo é o padrão de tempo para tudo. Ou seja, em nossa mente vai se criando a vivência e a crença de que entre ação e reação não deve existir demora. Na prática, quando queremos saber algo que desconhecemos, basta digitar no Google e, em milésimos de segundos, temos a resposta; ao falarmos por vídeo com alguém que está do outro lado do globo terrestre, vemos a pessoa em tempo real, como se estivesse na nossa frente. Para fazer uma conferência com muitas pessoas ao mesmo tempo, mesmo estando elas em lugares diferentes do planeta, basta iniciar uma live...

Mas a realidade é que muitas situações exigem de nós uma espera paciente e submissa. A principal delas é a nossa relação com Deus, que depende de uma humilde e paciente submissão, bem como ausência de controle do tempo e das decisões divinas. Exige, igualmente, um estado de espírito calmo, silencioso e pacífico, que é precisamente o contrário da velocidade e da agitação que ela causa.

E o grande risco é cair no erro de substituir Deus pela “rapidez” e “eficácia” da tecnologia: “Para que eu preciso de um “Deus solene, grandioso, lento”, se o médico, o Google e as máquinas me atendem rapidinho?!” Provavelmente poucas pessoas chegam a um pensamento tão explícito, mas suas experiências concretas levam à fixação dessa ideia no subconsciente, que influencia sua conduta e dita suas ações.

Desordem no ver, julgar e agir

Para o funcionamento normal da mente humana, é preciso que aconteça o ver, julgar e agir, em que a assimilação de informações e memorização se dão de forma natural e equilibrada.

Hoje em dia, a quantidade de informações que a maioria das pessoas recebem ultrapassa grandemente a capacidade de processamento equilibrado do nosso intelecto. Na verdade, a mente até se habitua e, de algum modo, se adapta a essa “digestão” acelerada, mas não sem gerar prejuízos alarmantes. Não há tempo para raciocinar e julgar: tudo vai para a memória sem análise e opinião formada.

A sobrecarga de informações passa a viciar o processo de assimilação, acostumando-o a ver sem julgar, ou seja, sem raciocinar e concluir. De modo que a pessoa perde o hábito de raciocinar, e começa a se sentir mal quando há falta de informação. Também a memória, sobrecarregada de informações não digeridas, começa a falhar por hiperatividade; como recurso para “ordenar a casa”, devolve informações ao pensamento, solicitando sua conclusão, o que causa agitação no pensar, o que pode ocorrer tanto em vigília quanto durante o sono.

Uma vez ocupando a memória de forma “incompleta” (sem um juízo) vai crescendo o número de dúvidas e incertezas, o que gera insegurança e indecisão no agir. As verdades ─ resultante de raciocínios e conclusões lógicas ─ vão se tornando cada vez mais relativas e escassas, enfraquecendo e extinguindo as crenças conscientes. Piora a situação o fato de que muitas das informações que recebemos atualmente contêm, em si, críticas, dúvidas ou opiniões contrárias sobre os ensinamentos divinos, abalando as convicções da fé.

Esse acúmulo de atividade cerebral, bem como o conceito de imediatismo entre ação e reação acarretam inevitavelmente problemas sérios, como estresse, déficit de atenção, perda de memória, preocupação, desconfiança e medos excessivos, ansiedade, depressão e outros sintomas patológicos.

O imediatismo moderno

O homem do terceiro milênio é imediatista, não gosta de esperar, quer tudo para já, ou “para ontem”, como costumamos brincar. Tem dificuldade em empreender a longo prazo, em iniciar obras demoradas, em fazer qualquer coisa que exija tempo. Come rápido; desloca-se o mais rápido possível; faz tudo com pressa, da forma mais simplificada; à noite não consegue se “desligar” para dormir tranquilamente; no geral, odeia dedicar-se à oração, à adoração, à meditação e à leitura piedosa. Para se “aliviar”, agita o corpo com exercícios físicos ou com o prazer efêmero do sexo; e agita a mente, com mais informação: telejornais, documentários, filmes, vídeos, redes sociais... É agitado, ansioso, impaciente, não tem paz interior nem equilíbrio psicológico. Vive estressado e depressivo.

Ora, toda esta agitação é contrária à santidade, à perfeição, à vida calma e cheia de paz que somente a conexão com Deus pode proporcionar.

O “antídoto”

Para não aventar um problema tão complexo sem apresentar uma solução, digamos uma palavra sobre a metanoia necessária para reverter os efeitos maléficos da velocidade em nossa mente.

O trabalho de livrar-se dessas consequências causará sintomas semelhantes à exclusão de um vício. Na verdade, como a velocidade “invadiu” a nossa vida e se faz presente em tantos momentos do dia a dia das pessoas, a maior defesa que temos contra os seus efeitos é simplesmente evitando-a sempre que pudermos. Também ajuda muito observar e notar sua má influência em nós. Conhecer como ela nos prejudica e rejeitar a priori essa ação velada e sutil já exerce sobre nós uma reação contrária que funciona como antídoto.

Imagine como seria retirar-se para um lugar sem energia elétrica, sem conexão com internet e sem nenhum tipo de máquina ou equipamento eletrônico. Alguém que estivesse habituado a tudo isso sentiria grande mudança na mente e no corpo. Talvez fosse necessário um acompanhamento psicológico para fazer isto. Mas conseguir entrar consciente e voluntariamente em “sintonia” com a calma, acarretaria um processo “terapêutico” que levaria à paz interior e a um relaxamento corporal que normalmente é impedido pelo contato inadvertido com a velocidade.


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