O Reino de Maria
História · Alexandre A. Tavares, 26/07/2022
Um reinado espiritual
O Reino de Maria é o mesmo Reino de Deus anunciado por Jesus no Evangelho como um reino espiritual: “Sou Rei, mas o meu reino não é deste mundo” (cf. Jo 18, 36-37). Trata-se, pois de um reinado que Ele mesmo exerce sobre a vontade livre do homem: “O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá ‘ei-lo aqui’ ou ‘ei-lo ali’. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.” (Lc 17, 20-21) Sim, o Reino de Deus consiste em seguir a Cristo Rei, que esteve bem ali, à vista dos apóstolos e discípulos, mas que continua reinando, e continuará até o fim do mundo, a todos os que queiram ser por Ele governados. Os vassalos desse Reino são voluntários: participa dele quem quiser.
Se o Reino de Maria é o mesmo “Reino de Deus”, por que então não chamá-lo assim? Isto se deve a uma função que o próprio Deus atribuiu a Maria, enquanto Medianeira universal de todas as graças, enquanto Mãe de Deus, enquanto Esposa do Divino Espírito Santo, enquanto Rainha dos anjos e dos homens, e enquanto Elo indispensável na ordem do universo. Sobre este papel de Nossa Senhora na criação, é recomendável ouvir esta linda explicação do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:
O reinado das nações
Além desta característica individual, o Reino de Maria deverá se configurar também como um reinado coletivo, um período histórico em que a maioria dos povos na terra será efetivamente governada pelo Espírito Santo. Um longo “tempo de paz”, como menciona o Apocalipse (cf. 20 a 21), em que o mal será impedido de agir, e o bem prevalecerá. Aquele reino que Jesus nos ensinou a pedir: “Venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu.” (Mt 6, 10)
Durante o Reino de Maria Deus governará efetivamente seu povo, por meio de sua Mãe, coroada pela Santíssima Trindade no Céu como Rainha do Universo, e dali, da glória celeste, Ela reinará de fato na terra, agindo diretamente nos corações dos seus súditos, por meio da Graça divina. E então a vontade de Deus será feita, aqui na terra, como é feita no Céu, em total consonância com o Espírito Santo.
Santo Agostinho bem imaginou como seria uma perfeita Cidade de Deus, onde todos cumprissem os Mandamentos da Lei de Deus, originando um povo sem crimes, todo feito de virtudes. Entretanto, um longo período histórico em que a maioria dos homens vivessem submissos à vontade de Deus, não aconteceu ainda. Podemos dizer que na Idade Média ─ notadamente na época de São Luís IX, Rei da França ─ houve um “ensaio” disso, que o Papa Leão XIII descreveu como um “tempo em que a filosofia do Evangelho governava os Estados” (Encíclica Immortale Dei, 28, 1° de novembro de 1885).
Mas após ter alcançado um nível elevado de santidade coletiva, a Cristandade medieval (então concentrada principalmente na Europa) deixou de progredir e, retrocedendo, decaiu antes de chegar à estabilidade e duração prolongada que deverá caracterizar o Reino de Deus.
Uma necessidade lógica
Do ponto de vista histórico, o Reino de Maria é uma necessidade lógica. Pois é preciso que, durante um período prolongado, a humanidade adore, em seu conjunto, ao Deus que a criou.
A ausência de uma era em que o bem prevaleça pareceria um erro de Deus. Pelo contrário, a efetivação do Reino de Maria confirma a sabedoria da Criação divina ao confiar no livre arbítrio humano, e comprova que Deus não foi desprezado pelos seres inteligentes livres que criou.
Extensão e proporções do Reino
No Reino de Maria “todas as nações glorificarão ao Senhor”. Isto não significa a totalidade absoluta dos indivíduos, e sim o conjunto, com exceções. Pois nesse período, o mal não deixará de existir, ainda que representado por pessoas “menos boas”, isoladas ou agrupadas.
Ademais, não precisamos acreditar que todos os viventes no Reino de Maria terão um grau super elevado de santidade.
São Luís de Montfort profetiza que os santos do Reino de Maria serão como carvalhos, comparados a graminhas, estas últimas representando os justos do passado. Mas entre graminhas e carvalhos há plantas de todos os tamanhos, e essa gradação é uma regra imprescindível na ordem do universo. De modo que, em todos os níveis da criação, tudo o que é excelente, belo e precioso é raro e escasso.
No tocante ao número de habitantes, também não é de se esperar uma população gigantesca, exorbitante. Mas deverá ser um número grande, que caracterize uma civilização.
Em Fátima, Nossa Senhora revelou que “varias nações serão aniquiladas”.
Formação do Reino de Maria
Como nemo summus fit repente (nada de grandioso se faz de repente), podemos acreditar que o reino marial não se instalará da noite para o dia. Desde o seu princípio até seu reconhecimento oficial, haverá um tempo gradativo de formação.
Pois a transformação espiritual necessária para deixar tantos vícios modernos inveterados, e criar hábitos de alta santidade exigirá um enorme processo de purificação, que certamente se dará numa penosa metamorfose. A metanoia esperada é uma mudança diametral de mentalidade.
E como toda purificação implica filtragem, com limpeza e exclusão de impurezas, às vezes depuradas em altas temperaturas, é bem compreensível que um grande castigo divino, que “aniquile várias nações” seja o instrumento para tal purificação.
Transformação da natureza
Dissemos, no início do artigo, que o Reino de Deus será espiritual. Mas assim como, na civilização cristã medieval surgiram tantas maravilhas originadas da fé, o mesmo deverá acontecer nesse período de ouro. Na Idade Média foram cridas escolas, universidades e hospitais; houve a humanização das leis e do direito; o deslumbrante aperfeiçoamento das artes plásticas, da música e da arquitetura; incrível desenvolvimento teológico e filosófico... Também assim haverá, na era mariana, um grande esplendor em todos os campos, como em nenhuma civilização anterior. Não seria demasiado esperar, por exemplo, que até a natureza seja em alguma medida renovada, a ponto de produzir belezas e alimentos paradisíacos.
Participando previamente do Reino de Maria
Se o Reino mariano se dará nos corações, o que impede que ele já comece a ser criado e vivido em nós? O que é necessário mudar em nossa mentalidade, e sobretudo em nossa vontade, para que Maria se torne nossa Rainha efetiva? Teoricamente, a santidade dessa futura era de luz não se diferencia estruturalmente dos ensinamentos evangélicos.
O que mais será necessário é a ação do Espírito Santo, como um novo Pentecostes. Mas, como disse Jesus, Deus não nega o seu Espírito a quem o pede: “Todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. [...] Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.” (Lc 11, 10-13)
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