O Inferno

Teologia · Alexandre A. Tavares, 16/08/2021

O Inferno existe para “aliviar” a injustiça do pecado contra Deus. Sim, apenas aliviar, porque nenhum castigo seria capaz de reparar proporcionalmente essa injustiça. A suprema punição do Inferno é infinitamente desproporcional à gravidade da revolta e rejeição ao Amor infinito de Deus. Os castigos do Inferno deveriam ser extremamente mais severos do que são, mas isto é impossível, porque uma punição criada ─ ainda que pelo próprio Deus todo-poderoso ─ não consegue equivaler à ofensa contra sua suprema Bondade incriada, divina, infinita.

A maior vitória do mal em nossos dias é, sem dúvida, a indiferença incutida no ser humano para com o pecado. Deus é desobedecido e ofendido a todo momento, até publicamente, sem que isto cause indignação na maioria dos “bons”.

A humanidade está tão habituada ao desprezo aos Mandamentos divinos que já não se importa mais com suas violações.

Ora, o pecado é o que mais nos afasta de Deus e o que mais nos aproxima dos demônios e do Inferno; é a causa de todos os males, crimes e desordens que há no mundo.

E ─ o mais importante ─ Deus não é indiferente ao pecado: lembremo-nos de que a causa de todos os tormentos de Cristo em sua Paixão foi o pecado dos homens!

Enquanto a humanidade não der importância a Deus, não amá-Lo e respeitá-Lo a ponto de odiar e abandonar o pecado, tudo irá de mal à pior. Até o momento em que a divina Misericórdia mande “fogo do céu” para que abramos os nossos olhos e os nossos corações. Pois no nível de indiferença ao qual chegamos, somente grandes castigos poderiam reiniciar um processo de conversão. Precisamos de epidemias, cataclismos e, no âmbito pessoal, grandes tormentos psicológicos e físicos para nos “despertar” deste sono diabólico, que nos torna frios e adormecidos para com o nosso bondoso Criador.

A verdade é que Deus não pode ser indiferente ao pecado, pois seria uma injustiça incompatível com a Divindade. Por isso Ele cria o Inferno, como uma obrigação de justiça. “Cria”, sim, no presente! A todo momento Deus cria, recria e mantém criado o Inferno, dentro de Si, já que o “fora” de Deus não existe. Deus tem pleno conhecimento de cada tormento do Inferno, e sustentará esse castigo eternamente. E na medida em que achemos isto injusto ─ ainda que minimamente ─, estamos dopados por essa indiferença infernal de que falamos.

Em 1917 Nossa Senhora apareceu em Fátima (Portugal) para nos dar uma chance de reacender o nosso amor a Deus, antes que Deus nos enviasse os grandes castigos que mencionamos acima.

Nossa Senhora mostrou aos três pastorinhos a visão aterrorizante do Inferno, dizendo-lhes ser o lugar “para onde vão as almas dos pobres pecadores”, e lhes disse ainda que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. E se já era assim quando Nossa Senhora lhes advertiu em 1917, quanto isto se agravou com o relativismo moral, a decadência das práticas religiosas e dos costumes que houve desde então... Hoje, na era da internet e da globalização (de tudo o que é ruim), quantas pessoas se perdem no crime, atoladas na mentira, na confusão mental, na pornografia e tantas outras facilidades para pecar...!

Lúcia, a mais velha das crianças, assim descreveu a visão que tiveram do Inferno:

“Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumaça, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas em grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi [breve, apenas durante] um momento, graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição)! Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.”

O simples fato de nos dar a conhecer a existência do Inferno, acaba sendo ato de bondade da misericórdia de Deus, pois muita gente decide mudar de vida por causa d’Ele.

No mesmo sentido, foi assim que, em sua santa didática, Nossa Senhora serviu-se da visão do Inferno para fazer bem aos pequenos pastorinhos e, por eles, a toda a humanidade, mostrando que a vida é séria e que o pecado leva à condenação eterna.

“Muitas almas se perdem”, advertia a Senhora do Rosário, confirmando essa terrível verdade, já afirmada em diversas ocasiões:

“É certo que poucos se salvam.” (Santo Agostinho)

“A maioria dos homens não verão a Deus.” (São Justino, O Mártir)

“Aqueles que se salvam são uma minoria.” (Santo Tomás de Aquino)

“A maior parte da humanidade escolhe ser condenada ao invés de amar Deus todo-poderoso.” (Santo Afonso de Ligório)

“Dentre os adultos, poucos são salvos, por causa dos pecados da carne. Com exceção daqueles que morrem na infância, a maior parte dos homens se perderão.” (São Remídio de Reims)

“Dentre 100 mil pecadores que permanecem no pecado até a morte, mal um será salvo.” (São Jerônimo de Stridon)

São Leonardo de Porto Maurício relata: “Um arcediago (auxiliar do bispo) em Lyon (França) abandonou o seu cargo e se retirou para um lugar deserto para fazer penitência. Ele morreu no mesmo dia e hora que São Bernardo. Após sua morte, ele apareceu ao seu bispo e lhe disse: ‘Na hora em que eu morri, 33 mil pessoas também morreram. Desse total, Bernardo e eu fomos para o céu sem demora, três foram para o purgatório, e todos os outros caíram no Inferno.’”

Jesus fala muitas vezes da Geena, do “fogo que não se apaga”, do lugar onde há “choro e ranger de dentes”, reservado aos que recusam até o fim de sua vida crer e converter-se. Serão “lançados na fornalha ardente” (Mt 13, 41-42), e ouvirão a condenação: “Afastai-vos de mim malditos, para o fogo eterno!” (Mt 25,41). (cf. CIC 1034)

A Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte ao Inferno, onde sofrem as penas do “fogo eterno”. A pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus: a pena de dano. (cf. CIC, 1035)

Por isso, cuidemos muito bem da nossa vida espiritual! “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. E poucos são os que o encontram.” (Mt 7,13-14)

São Paulo disse: “Não vos enganeis: nem os devassos (imoral, pervertido), nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões (furtadores), nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores (assaltantes) herdarão o reino de Deus.” (1Cor 6,9)

Deus não predestina ninguém ao Inferno; para ser condenado é preciso uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal), sem arrependimento. Na Liturgia Eucarística e nas orações cotidianas de seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, que quer “que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se” (2Pd 3,9): “livrai-nos da condenação e acolhei-nos entre os vossos eleitos” (CIC 1037).

Mas, após a morte, passado o tempo da misericórdia e chegado o tempo da justiça, o Deus que sabe e mantém tudo no universo, o Deus que “sonda o íntimo de cada um”, que conta “até os fios de cabelo que caem da nossa cabeça”, também acompanha, sustenta e mantém ─ porque quer ─ cada fragmento de tormento, cada segundo de dor de cada condenado no Inferno. O Inferno está em Deus, é parte d’Ele (pois o “fora” d’Ele não existe), é o esplendor de sua divina justiça: é “dentro” de Deus que um condenado passará toda a eternidade sofrendo. Assim como Ele próprio é a felicidade dos bem-aventurados no Céu, Ele mesmo é o tormento dos condenados no Inferno, manifestando sua santa cólera. Daí a Igreja cantar o “Dies iræ, dies illa” (Aquele dia de ira), referindo-se ao Juízo divino.

A religiosa Josefa Menéndez recebeu mensagens de Jesus no convento da Sociedade do Sagrado Coração de Jesus, em Poitiers, França, entre 1920 e 1923. O então Cardeal Eugênio Pacelli, depois Papa Pio XII, aprovou a divulgação.

Um dia Deus permitiu que ela tivesse uma experiência espantosa de como se sente um condenado no Inferno:

“Minha alma caiu num abismo imenso, sem fundo. Instantaneamente, achei-me no Inferno, sem ter sido arrastada: era como se eu mesma me precipitasse, como se desejasse desaparecer da vista de Deus para poder odiá-lo e amaldiçoá-Lo. Ouvi outras almas debocharem de mim, vendo-me nos mesmos tormentos que elas. Ouvir aqueles horríveis gritos já é um martírio, mas creio que nada é comparável em dor à sede de maldição que se apodera da alma e, quanto mais maldizemos, mais aumenta a sede.

“Vi longos corredores, cavidades, fogo... Fui empurrada para um daqueles nichos inflamados e esmagada como entre duas tábuas ardentes, sentindo como se ferros e pontas em brasa fossem enfiadas no corpo.

“Senti puxarem minha língua, como para arrancá-las, mas sem conseguir: tormento que me levava a extremos da dor. Os olhos pareciam sair-me das órbitas, creio que por causa do fogo que tanto os queimava! Não havia uma só unha que não sofresse horríveis tormentos. E não podia mover sequer um dedo para buscar alívio, nem mudar de posição: o corpo fica como que achatado e dobrado pelo meio. Os ouvidos são acabrunhados com os tais gritos de desespero que não cessam um só instante. Um cheiro nauseabundo e repugnante asfixia e invade tudo; é como se carne em putrefação estivesse queimando com piche e enxofre, mistura que não se pode comparar a coisa alguma deste mundo. Tudo o que descrevi é só uma pálida sombra em comparação de como se sofre realmente no Inferno.”

Definitivamente, Deus não nos criou para passar toda a eternidade ardendo nesses tormentos; pelo contrário, o convite é para vivermos sob suas bênçãos agora e alcançarmos, ao morrer, a felicidade eterna. Mas essa felicidade deve ser desejada e conquistada por nossa vontade livre, devemos viver na graça de Deus, amando-O a ponto de abandonar o pecado e imitar Jesus.

A vida é séria, muito séria, pois é aqui que decidimos a nossa eternidade! Paremos de perder tempo com preocupações mesquinhas e de buscarmos apenas satisfazer as nossas vontades e prazeres! Tudo acaba em breve, e nos veremos diante da morte, para prestar contas do uso que fizemos da nossa liberdade.

Obrigado, Senhor, por terdes escolhido me criar dentre as incontáveis possibilidades de pessoas a quem poderíeis ter dado a vida em meu lugar. Obrigado por esta oportunidade única de poder ser santo na Terra e bem-aventurado no Céu. Obrigado, meu Jesus, por terdes derramado por mim até a última gota do vosso Sangue para me libertar da perdição eterna e abrir-me as portas do Paraíso celeste. Obrigado por me terdes revelado no Evangelho o caminho do Céu, e me deixardes os Sacramentos para me facilitar a perseverança. E por este mesmo Amor e Bondade, mantende-me agora, Senhor, em vossa Graça, pois sem o vosso auxílio eu seria indiferente ao pecado e viveria vos ofendendo sem arrependimento. Lembrai-vos, doce Jesus, que sou a causa da vossa vida e Paixão! Não permitais que eu me perca: dai-me a perseverança e confirmai-me em vossa graça, para que jamais eu vos ofenda. Concedei-me viver constantemente em vossa presença, amando-vos e imitando-vos, dirigindo sempre minha intenção para que em tudo eu vos dê a maior glória. Seja a bondosíssima Virgem Maria minha intercessora junto a Vós, ela que é nossa Advogada, a Mãe do Bom Conselho, da Confiança e do Perpétuo Socorro!”

Imaculado Coração de Maria, intercedei por nós!


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