O Caminhar da vontade

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 21/03/2021

Assim como um rio que nasce na montanha e desce buscando o nível do mar, o nosso coração corre em direção ao nosso tesouro: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.” (Mt 6,21) Mas no campo espiritual não existe gravidade: esteja nosso tesouro nos abismos ou nas alturas, lá vai a nossa vontade atrás dele, e não para até o encontrar.

O grande tesouro do homem se chama felicidade, para isso fomos criados. É ela que nossa vontade busca, incessantemente. Entretanto, nossa vontade e nossa sensibilidade são cegas, precisam que nossa razão lhes indique onde está a felicidade. E aqui é que tudo se complica...

Se acreditássemos simplesmente que nosso tesouro está no Céu, e deixássemos nossa vontade e nossos sentimentos rumarem para lá, trilharíamos um caminho reto, santo, perfeito. Mas em vez de mantermos este foco principal, distraímo-nos pelo caminho, paramos para nos iludir com falsas felicidades e, ao ficar ali tentando sugar delas um sabor que não podem dar. Às vezes até retrocedemos, ao tentar recordar aquele suquinho mais docinho do passado, espremendo a nossa memória para ver se ainda conseguimos senti-lo.

Mas esse esforço não passa de frustração e perda de tempo. Pior ainda é quando essas paradinhas da caminhada nos tiram o ânimo de voltar a caminhar: a preguiça e a impaciência nos invadem, e nos contentamos em ficar ali, lambendo a ilusão dessas insípidas migalhas de felicidade. E aí tudo piora, porque a esperança da felicidade total é o único combustível que realmente nos move. Sem ele, andamos mal, falhamos, quebramos, travamos, desfalecemos, adoecemos.

Quando, então, nos encontramos sem combustível, alerta-nos a nossa consciência (se ainda não a tivermos sufocado por completo), lembrando-nos onde está o nosso verdadeiro tesouro.

Caso não consiga se expressar, certamente o farão nossa mente e nosso corpo através de doenças, como que gritando: “O teu tesouro não está aí pelo caminho, mas lá no Céu! Volta a caminhar e recupera o tempo perdido! Põe novamente os teus olhos em Deus e volta a andar sem distração!” Esta é a linguagem de uma ansiedade, uma depressão, um pânico, um estresse, uma insônia e tantos outros transtornos psíquicos e corporais. Para interrompê-los basta olharmos para o nosso tesouro celeste e, enchendo-nos de esperança e confiança em Deus, voltarmos a caminhar com humildade, resignação e ânimo. Talvez precisemos de socorro para isso: não importa, seja humana, seja divina, peçamos essa ajuda!


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