Non duco, ducor

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 03/06/2021

O brasão da cidade de São Paulo estampa o lema latino non ducor duco, que significa “não sou conduzido; conduzo”. A proposta deste artigo é utilizarmos este lema ─ mas invertido! ─ como um caminho de união com Deus: non duco ducor (“não conduzo; sou conduzido”).

Comecemos com um exemplo que está acontecendo neste preciso momento: ao ler este artigo, você pode estar “conduzindo” a leitura, de forma analítica e seletiva, “governando” consciente e voluntariamente seus raciocínios, suas reações, etc. Mas você pode, também, ler de forma “passiva”, apenas assimilando o conteúdo e “deixando-se levar” pelas minhas palavras. Obviamente, para agir desta última forma (deixando-se “conduzir”) você deveria ter como pressuposto que eu seja uma pessoa idônea, que somente lhe influenciaria positivamente.

Em tudo o que fazemos, podemos aplicar esta atitude de “conduzir” ou de “ser conduzido”. E isto se faz com a intenção. Note, entretanto, que ao fazermos algo sem uma intenção específica, estamos fazendo de forma distraída, o que equivale a “abrir” a nossa mente para nos deixar influenciar e “conduzir” hipnoticamente por tendências, ideias ou pessoas. É muito fácil isto acontecer quando assistimos um filme, um vídeo, uma propaganda, numa conversa, ou mesmo na leitura.

A ideia aqui, então, é deixarmo-nos conduzir pelo Espírito de Deus. E isto precisa acontecer intencionalmente: é preciso termos, em cada atividade, a intenção expressa de ducor. Ao desejarmos (pela intenção) que o Espírito de Deus nos conduza, devemos evitar conduzir e também evitar qualquer outra influência que não seja a d‘Ele.

Teoricamente parece uma prática bem simples. De fato, é e não é. As dificuldades são duas: o desejo que temos de conduzir, e a distração.

Um aviador tem total confiança nos equipamentos eletrônicos automáticos que conduzem com precisão a aeronave. Ele apenas fica ali observando e deixando-se conduzir, mesmo que sempre atento para retomar o comando manual se necessário. Mas nós, ao nos pilotarmos, somos naturalmente como aviadores que não gostam de usar o automático, seja por desconfiança, seja pelo prazer de governar. E isto vai interferir na condução de Deus. Temos que nos habituar ao ducor, renunciando sempre ao duco. Até que a virtude de deixar-se conduzir por Deus se torne uma prática fácil, na medida que for acontecendo de fato.

E, quanto às distrações, são frequentemente tão maléficas quanto o duco. O que precisamos fazer é simples: pôr a intenção de, em cada ação, Deus nos guiar. Mas é necessário manter nossa atenção n'Ele, “conferindo” sempre se é mesmo Ele que está nos conduzindo. E para esta conferição, basta termos como padrão e modelo o comportamento de Jesus e de Maria. Seria como se Eles estivessem em nós, guiando cada pensamento, cada movimento da vontade, cada gesto.


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