Neutralização de traumas
Geniologia · Alexandre A. Tavares, 04/02/2021
Trauma é uma palavra de origem grega, que significa “ferida”. Na psicologia é geralmente empregada para designar a repercussão negativa produzida por um evento desagradável.
Na genioterapia consideram-se traumas não apenas experiências negativas, mas também certos acontecimentos “positivos” marcantes, que com frequência acontecem na infância ou adolescência.
Por isso, no processo de tratamento de traumas, a genioterapia não emprega o termo “ressignificação” (já consagrado), mas sim “neutralização” (criado por nós), como referência à relação “positivo – neutro – negativo”, onde o neutro corresponde ao equilíbrio.
Porque tanto memórias negativas quanto positivas são capazes de produzir desajustes psicológicos: as negativas, por medo e rejeição; a positivas, por desejo e saudade.
Sim, muitos desequilíbrios mentais, às vezes com somatizações graves, têm sua origem em experiências prazerosas.
Isto acontece porque nossa mente – às vezes de forma velada, subconsciente – tem grande facilidade de se apegar a experiências fruitivas intensas, a ponto de querer revivê-las no presente. E ao conectar-se pelo desejo a um prazer do passado, que não pode se repetir no presente, cria-se um vazio traumático de “conexão desconectada” entre o evento recordado e a realidade atual. Um trauma gerado, portanto, pelo sentimento de falta, perda, saudade, infelicidade, carência afetiva.
Esse tipo de “trauma positivo” pode ser até mais prejudicial que um trauma negativo. Porque para o homem o desejo de fruir é maior do que o medo de sofrer.
Enquanto uma pessoa não conseguir olhar de frente para os seus traumas – positivos e negativos – e neutralizar a ação maléfica que eles exercem no presente, dificilmente conseguirá viver num estado de equilíbrio psicológico, autocontrole e paz interior.
Para concluir, façamos uma aproximação, dessa ideia de neutralização, com o magistério católico.
De fato, consideramos o estado de equilíbrio “perfeito” equivalente ao conceito cristão de santidade, ensinado no Evangelho.
Encontramos uma ótima aplicação disso na obra Subida do Monte Carmelo, de São João da Cruz, onde o equilíbrio não é apresentado como um estado de bem-estar egoísta – como pregam as filosofias hedonistas modernas –, mas um estado de indiferença ou neutralidade, intermediário entre sofrimento e alegria, que o santo chama de “noite escura dos sentidos”.
A mesma ideia é reforçada por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais, ao dizer que “é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas [...]. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que breve, e assim por diante, em tudo o mais, desejando e escolhendo somente o que mais nos leva ao fim para que fomos criados”, fim este que o próprio Inácio descreve como sendo “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma”.
Quanta ansiedade, depressão, e tantos outros distúrbios psicológicos seriam evitados se a humanidade se voltasse a essa espiritualidade de silenciar seus pensamentos, desejos e sentimentos! Mas, não: moldadas pelo estilo de vida inquieto em que vivemos, muitas pessoas sequer acreditam que isto seja possível, de tão habituadas que estão a viver escravizadas por suas agitações internas, às vezes desde a mais tenra infância.
Para piorar esse quadro de desequilíbrio e descontrole, circulam em nossos dias diversas teorias bizarras e enganadoras – como as de “bem-estar”, “prosperidade" e “atração"–, que consideram doença o que chamamos de equilíbrio! E divulgam essa mentalidade a todo tempo pela mídia, em filmes, novelas, propagandas, etc. Incitam abertamente suas vítimas ingênuas a desejar e atrair fortuna, poder, sucesso, sexo, saúde... afundando-as assim – sob falso pretexto de equilíbrio – num mar revolto de orgulho, sensualidade, avareza, preocupação, ansiedade, estresse, e todo tipo de expectativas frustrantes.
Infelizmente até certas terapias pregam essa ganância volitivo-intelectual como sendo “libertadora”... Que desastrosa inversão de valores!
Não é aí que mora a paz. O único e verdadeiro equilíbrio consiste nesse aquietar voluntário das potências da alma (inteligência, vontade e sensibilidade), que leva a uma real libertação e desconexão dos traumas. Eis aí, aliás, um dos grandes segredos do sucesso na genioterapia: dispor de meios rápidos e eficazes para essa neutralização dos traumas.
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