Na tua brisa
Poesia · Alexandre A. Tavares, 18/02/2024
Sempre quis te amar. Mas era impossível, pois sequer eu conhecia o amor. Eu vivia nas trevas gélidas do fora de Ti. Morava no nada, dormia no vazio, caminhava errante, nas apalpadelas inconsistentes de uma densa e prolongada noite de inverno.
Teu amor me rondava à distância, sem pressa de me seduzir. De quando em vez chegava-me um arzinho da tua brisa suave, perfumada e atraente. O bastante para chamar-me a atenção e eu perceber que ali estavas, observando-me de longe. De fato, não podias te aproximar, pois estava eu blindado contra o teu amor. Não voluntária, mas efetivamente.
Com o tempo, tua brisa foi se tornando mais frequente e mas intensa. Fiquei curioso. Comecei a te procurar, olhado ao meu redor. Mas tão espessa era a escuridão, que nela eu tropeçava a cada passo. Meu coração arisco e selvagem se eriçava, enrijecia quando mirava o exterior do egoísmo.
Mas tu te aproximavas mais e mais. E era impossível sentir o teu calor sem começar a derreter, observar tua luz sem começar a enxergar, resistir à atração imantada da tua divindade.
Eu sabia que um dia chegarias tão perto de mim, que tudo mudaria. Minha resistência cederia, e eu colaria em ti. Pensando nisso eu me arrepiava e levantava a guarda contra ti, mas, no fundo, querendo ser vencido, fascinado pela tua aproximação.
E antes mesmo e chegares, vendo apenas o teu vulto entre brumas, eu já me comprazia na pré-contemplação do nosso encontro. Eu te abraçaria para nunca mais soltar; penetraria em teu Espírito, para conhecer o teu interior, o teu “dentro”, o teu íntimo.
Passei a olhar só para ti, ainda que as brumas me toldassem a visão. Meu pensamento te buscava. Minha pressa aumentava. Meu coração se incomodava com a demora, mas compreendia a necessidade do vagar para algo tão sublime.
De certa forma, este anseio já me dava algo do que eu queria, já me levava para dentro e ti, como se já tivesse acontecido. Eu me imaginava no teu interior, esvoaçando suavemente em direção ao teu âmago.
Extremamente ousado era este desejo, tão grande quanto minha indignidade e pequenez. Mas isto até me animava, pois sei que tens uma atração pelos débeis e miseráveis. Ademais, como podia aquele anseio estar no meu coração, se tu mesmo não estivesses soprando aquelas brasas? E por que o farias, se não quisesses de fato me conceder aquele dom?
E assim, animado por esta ideia, fui deixando-me levar, adentrando, confiante. Mas quanto mais rumava em direção ao que me parecia ser o teu cerne, sentia-me mais pesado, opondo-se uma gravidade àquele voo. Eu precisava ficar mais leve, mais fluído, mais etéreo, sem amarras nem pesos.
Comecei a soltar tudo, a desprender de mim cargas que antes eu carregava sem me incomodar. E quanto mais leve eu ficava, mais tua brisa me dava asas, fazendo-me flutuar na direção que tu e eu queríamos. Eu sequer imaginava onde me levarias, mas era tão bom flanar em teu interior... O rumo nem importava, pois era tua brisa a indicar a direção. O que poderia eu temer?!
Meu esforço era mínimo: bastava olhar para o alto e deixar-me levar, sem entretanto olhar para baixo, pois quando o fazia, parava de subir.
Parecia-me estar em outra dimensão, na qual, embora correndo, o tempo tinha parado. O mistério atraía sem deixar curiosidade; a altura não dava vertigem; e mesmo lá no alto, eu continuava cá embaixo, acompanhando os absurdos da terra, sem neles deitar a atenção.
E se eu caísse? Também não temia, pois sabia que instantes depois estaria ali tua mão paternal a me resgatar.
Eu caminhava sem mover as pernas; planava sem asas; ouvia só a tua voz, mesmo imerso em ruídos atordoantes; enxergava no escuro; via o teu invisível; compreendia o inexplicável; jejuava sem fome; padecia sem dor; e me enchia de alegria e prazer, sem nada sentir...
Isso tudo parece tão complexo, misterioso e fictício... Mas é tão real, simples e compreensível!
Ah, tua brisa...! É nela que moro, é nela que morro, é nela que vivo! Que seja para sempre! Amém, amém!
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