Mente mentirosa

Espiritualidade · Alexandre A. Tavares, 07/05/2022

Ser enganado não é nada bom. Difícil perdoar certas traições. Mas já imaginou ser traído por sua própria mente? Pois esta é uma habilidade ardilosa do ser humano...

Isto acontece por um mecanismo instintivo de defesa, que busca evitar o sofrimento e manter a vivência, a lembrança ou o desejo do prazer. Busca na qual pode haver algo de ilusório, mas o que importa? A mente não se guia só pela realidade, mas também com o que ela imagina, pois o cérebro não distingue imaginação e realidade.

O fato é que a vontade livre do homem, influenciada pelo desejo inato mas desequilibrado de bem-estar, leva-o a decisões erradas durante a vida. Uma delas consiste em aceitar sofrimentos secundários, a fim de evitar dores que a pessoa vê como maiores.

Mas quantas vezes nos iludimos, achando que estamos aceitando um sofrimento secundário quando, na verdade, ele é mais doloroso do que aquele que estamos evitando...

O parâmetro para enxergarmos o que nos é ou não mais doloroso varia muito conforme a filosofia e a religiosidade individual, que podemos sintetizar nestas perguntas:

1) Para quê vivemos? O que consideramos deveras importante em nossa vida?

2) Como queremos ser diante de Deus? Que nível de relação queremos ter com Ele?

3) Quanto estamos dispostos a sofrer e nos dedicarmos para viver santamente e conquistar o Céu?

Seria muito sensato e benéfico considerar que as dores que nos estão reservadas durante a vida são, na realidade, remédios amargos mas necessários. Só eles podem nos curar definitivamente de certas doenças, e nos libertar de certos jugos que incomodam o mais profundo do nosso ser.

Um exemplo. Alguém que, por carência afetiva, se entregue a um desejo desequilibrado de viver na companhia de outra pessoa: enquanto não conseguir seu objetivo, sentirá que não está vivendo, como se houvesse uma grande lacuna em sua existência, um erro inadmissível. Supondo, neste exemplo, que essa aproximação com a outra pessoa seja impossível, o razoável seria obviamente abandonar tal desejo utópico. Não apenas abandoná-lo, mas arrancá-lo da alma, até as raízes.

Isto seria o correto, o mais sensato, uma atitude libertadora. Entretanto, certas coisas que o ser humano quer demais tornam-se obsessões doentias, acarretando consequências devastadoras para a mente e o corpo. Um apego destes é capaz de destruir uma vida ou, pelo menos, parte dela.

Mas, consciente ou subconscientemente, a atitude se “justifica” assim: aceitar o sofrimento resultante desse apego é como um ato de protesto, contra a natureza, contra o universo, contra a humanidade, contra a pessoa desejada e, no fundo, um ato de revolta contra Deus. E ao não desapegar-se desse desejo, uma raiz de desordem interna se estabelece na alma, deixando suas marcas também no corpo. Daí o surgimento de doenças, temporárias e variantes, ou crônicas, que nenhum medicamento será capaz de aliviar, pois a causa é muito mais profunda.

Se alguém propuser à pessoa um tratamento psicológico, ela pode até aceitar, mas quanto melhor for a terapia, mais resistência ela oporá, porque o tratamento a levaria ao abandono daquela vontade insana, e isto ela não quer! Digamos que nenhum poder do universo é tem força suficiente para dobrar uma vontade inveterada, decidida a trocar a paz interior e o bem-estar corporal pelas funestas consequências de um apego.

Difícil compreender como o ser humano pode ser tão maldoso consigo mesmo, mas é esta a realidade. A este nível chega o nosso amor egoísta, o nosso apego à nossa vontade melindrosa. Por isso, conhecer profundamente os nossos reais desejos é um ótimo passo para quem busca chegar ao equilíbrio, pois, diante de Deus e do universo, somos o que desejamos.

Vale sempre a pena lembrar que o estado de paz e equilíbrio estável pressupõe uma relação íntima e amorosa com Deus, Fonte da paz e do equilíbrio. Ora, quem não tem suficiente generosidade para se livrar sequer de um apego, como quererá submeter estavelmente sua vontade ao amor de Deus, para servi-Lo e honrá-Lo na humildade e despretensão?! Este é, lamentavelmente, o motivo básico pelo qual as pessoas não encontram hoje a paz: não querem abandonar seus desejos egoístas e moldar sua vontade segundo os planos de Deus. Nada surpreendente, pois desprezar o primeiro e principal dos Mandamentos ─ “amar a Deus acima de todas as coisas” ─ não poderia ter consequência diferente: a falta de paz, o desequilíbrio, o descontrole... É lógico, óbvio, arquitetônico, justo.

Qual é, então, a solução? Em certos casos, simplesmente não há, pelo menos enquanto o sofrimento da escolha mal feita não chegar a um extremo insuportável que comece a cobrar, como única solução, uma aproximação de Deus, um desapego, uma generosidade, uma sinceridade, um parar de olhar só para seu umbigo e elevar humildemente os olhos para o Céu.

Mas, em muitos casos, é preciso que a convivência prolongada com esse conflito chegue a exaurir o amor-próprio. Suportada a dor até esse extremo, aí sim a razão, liberta pela exaustão dos sentimentos machucados, poderá gritar “chega!”, mostrando ao coração de que suas paixões estavam irracionalmente equivocadas. Dá-se, então, início a um processo de conversão, de redirecionamento e reorganização da mente. Infelizmente isto só costuma acontecer em situações de grande estresse, em que a alma está mergulhada num esgotamento depressivo. Mas chegar ao fundo deste poço foi “indispensável” (pois o único meio) para convencer o auto-sofredor a buscar a paz no desapego e abandono do ego.

Espantoso é constatar que toda essa perturbação tem início quando a vontade decide querer obstinadamente algo que não devia, tomando esse anseio desordenado numa “necessidade básica”. Aqui é que entra uma manobra mental ligada à mentira: pois como seria irracional e vergonhoso pagar o preço caro do desequilíbrio só para alimentar esse desejo caprichoso ─ tantas vezes um sonho quimérico ─, a mente maquia o desejo irracional, apresentando aquele apego como uma “real necessidade”.

Instintivamente agimos assim sempre que precisamos “explicar” internamente a lógica das nossas atitudes errôneas, porque a razão humana não consegue operar fora da lógica: então, só mesmo forjando um sofisma para “substituir” a verdade.

Por um lado, a pseudo explicação criada “serve” como “justificativa” do comportamento desordenado; mas há em nossa consciência uma parte incorruptível, que detecta e rejeita a enganação, provocando outras desordens, como alerta para interrompermos a desordem, no caso a auto enganação.

Em outras palavras, se o desejo é irracional e ilógico, a mente “precisa” mentir, para a razão se “convencer” de que há, na manutenção daquele anseio, um “motivo plausível”. Como disse um famoso escritor francês, “cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu” (Paul

Bourget. Le Démon de Midi. Paris, 1914.).

É por esta necessidade ontológica humana (de explicar tudo racionalmente) que surgem os sofismas, as heresias, as ideologias utópicas e toda sorte de conceitos adulterados, que podem se apresentar como “dogmas”, mas não passam de falsas crenças, hoje chamadas de crenças limitantes. Contudo, não passam de explicações distorcidas para “legitimar” nossos apegos a prazeres que queremos ter, ou sacrifícios que queremos evitar.

Ou seja, a rejeição de um sofrimento que deveria ser aceito ─ como a extirpação de um defeito ─ é o outro lado da moeda que busca a satisfação do prazer. Está aqui também subentendido que os nossos medos, receios e preocupações são uma atitude de prevenção contra a dor, o que constitui, igualmente, um mecanismo de busca ou manutenção do prazer, que é inato no homem, mas deturpado pelo pecado. Sim, somos criados para a felicidade! Mas como estamos em estado de prova, a plenitude da alegria não é para agora: este é um momento de luta, de correção e purificação do nosso ser, de adequação e moldagem à Santidade divina. Esta é, aliás, a única grande felicidade que podemos ter nesta terra: a de dobrar a nossa vontade para adequá-la à perfeição de Deus. É o único jeito de ganharmos aquele “cêntuplo” (cf. Mt 19,29) nesta terra, além do prêmio na eternidade.

Compreendido este mecanismo de racionalização da verdade, através do exemplo afetivo, abramos sem medo um leque, incluindo alguns outros vícios:

desejo de relação afetiva ─ com ou sem índole sexual ─, seja hétero ou homo, por determinada faixa etária, por determinada raça, por características comportamentais específicas, etc;

ganância, avareza, desejo de ser rico ou ter coisas específicas para, geralmente, ostentá-las;

desejo de aparecer, de brilhar, de atrair a atenção dos outros, seja pela aparência física, seja pela suposta genialidade das ideias;

demonstração de poder ou capacidade de governar;

demonstração de força ou capacidade de sacrificar-se (masoquismo) como um super-herói, como um salvador da pátria que nunca sabe dizer “não”, mesmo quando se prejudica.

A formação de um apego está geralmente ligada ou a uma “real” experiência vivida ─ bem comum na infância ─, envolvendo ou um prazer ou um desprazer. Colocamos “real” entre aspas porque também esta realidade não é absoluta, mas pessoal, subjetiva. Por exemplo, uma criança que viu a mãe ser espancada pelo pai pode desenvolver diversos conceitos e comportamentos: de que ela deve evitar pessoas agressivas; ou enfrentá-las; ou educá-las; ou pode viver à procura de pessoas carinhosas, que representam o contrário; ou decidir genericamente ser desconfiada com todos os homens, a ponto de se tornar homoafetiva só com mulheres... Enfim, uma mesma experiência pode criar diferentes preferências ou preconceitos, que atuarão como crenças limitantes, ditando padrões comportamentais.

Sejam quais forem os meios empregados para nos convencermos de que a melhor decisão nesta vida é viver no desapego dos vícios, passaremos certamente por um caminho que nos proporcionará uma visão sem véus de nós mesmos, e a uma grande união com Deus.

É sempre de se esperar que este sinistro imergir da alma no estado de aceitação da desordem psicossomática originada pela racionalização de uma mentira possa ─ e deva! ─ ser revertido. E a reversão costuma seguir as seguintes etapas:

Estresse pela perseverança no erro;

Visão ampla, generosa e consciente da profundidade do erro;

Confiança de que desamarrar-se será melhor que as consequências do apego;

Aproximação de Deus, pois sem a ajuda d’Ele nada mudará;

Decisão firme e irreversível de operar a mudança, doa ao nosso ego o quanto doer.

Da firmeza e irreversibilidade incondicional da mudança ─ também chamada de conversão ou metanoia ─ dependerá a estabilidade no estado de paz. Ou seja, se a decisão for apenas parcial, será infrutífera: quem não deu tudo, não deu nada. O desapego deve chegar a 100% para ser efetivo. Não se pode ter saudades do mau desejo abandonado.

Falando ainda sobre o exemplo da carência afetiva, é possível que o movimento da alma que ansiava uma pessoa específica representasse apenas a ponta de um iceberg, a manifestação parcial de um desejo mais profundo, que busca permanentemente “alguém” para ser companheiro na vida. E tendo-se agora desamarrado daquela pessoa específica, por meio deste processo doloroso, surgirão outras pessoas, substitutas, porque aquele desejo era mais profundo e enraizado. Neste caso, é absolutamente necessário extirpar a raiz do defeito, o conceito errado que está na mente, por onde se deseja com desequilíbrio a presença de outra pessoa.

Poderia alguém objetar que, uma vez levado o apego a um grau tão entranhado, ele se tornaria como que irreversível; e, neste caso, não se trataria de algo efetivamente dispensável, pois passou a ser uma real necessidade. Assim, certos viciados estariam destinados a ficar sempre presos em seu vício. O raciocínio tem algo de real, mas não pode ser aceito como verdade. Porque se supõe aí uma espécie de alienação ou escravização do livre-arbítrio, por onde ele deixaria de funcionar efetivamente como “livre”, o que é impossível. Sim, ceder a um vício pode criar uma dependência tão forte que torne muito difícil a remissão; jamais, porém, impossível. Talvez, do ponto de vista meramente humano, certas situações possam ser vistas como irreversíveis. Mas a grande omissão deste sofisma é que o recurso à Graça divina permite, sim, reverter qualquer vício.

Pode inicialmente parecer árdua e super cansativa esta batalha, mas é certamente o que a vida tem de melhor: dobrar-se, dominar-se, reinar sobre a própria alma e vencer seus defeitos é propriamente conquistar a liberdade, o autocontrole e a paz!

Tenhamos a bravura de olhar de frente para os nossos defeitos, para os nossos apegos e as nossas amarras. Mesmo se eles estiverem tão velados que sequer consigamos acessá-los à primeira vista, tenhamos a coragem de debastar, de procurar e encontrar. Comecemos por olhar para o nosso comportamento de forma crítica, como um justo juiz, sem pena de si, sem mimos, e detectar o que não está de acordo com a nossa reta consciência e com a perfeição divina.

Se a nossa mente tende a ser mentirosa, arrumemos um jeito de mudar esta realidade, de trazê-la à verdade, de sermos sinceros conosco mesmo e, principalmente, com Deus.

Ao morrermos, entraremos imediatamente num estado visão apurada, onde toda falsidade será dizimada. Veremos, então, somente a verdade, sem maquiagem. Quanta decepção poderá haver neste momento...! Não esperemos a morte para enxergar assim: comecemos, desde já, a observar e corrigir os nossos apegos.

Tenhamos grande confiança de que Deus está conosco nessa luta, e nada pode ser tão agradável e fácil para Ele quanto nos ajudar na tarefa de buscar a verdade, olhar para ela, dobrar a nossa vontade egoísta e adequá-la à santidade.


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