Laila e o copo de água

Crônica · Alexandre Augusto Tavares, 10/3/26

Laila e o copo de água

Era uma manhã quente. Estava eu debaixo do sol, trabalhando no revestimento de um piso, quando ouço vozes de visitas: eram primas, que moravam longe e vieram ver minha mãe. Não pude lhes dar atenção naquele momento, pois meu trabalho exigia continuidade.

Laila, a priminha mais nova, de seis anos, preferiu não entrar na casa, e ficou ali na sacada me observando trabalhar. Sociável e faladeira, não hesitou em interagir desde o início, sem qualquer sombra de timidez: perguntava, comentava, respondia... Um mimo de menina!

Em certo momento desapareceu, sem nada dizer. Atitude que não parecia combinar com ela. Dali a pouquinho reapareceu, já não na sacada, mas na minha frente, estendendo a mão e me oferecendo um copo com água: “Você está trabalhando muito, e deve estar cansado; então eu te trouxe este copo d’água.”

Muito surpreso com a gentileza da pequena Laila, sorri, agradeci, e tomei a água como um presente do Céu. Ela então se retirou, satisfeita por ter aliviado meu cansaço.

Para a menina parecia tão óbvia a relação entre água e descanso... E eu, cinquenta anos mais velho que ela, fiquei ali filosofando sobre a teoria...

De fato, a sensação de tomar um copo de água fresca quando se está com sede é de alívio, de satisfação. E isto tem relação com descanso, com diminuição de tensão. E foi o que senti quando tomei a água que ela trouxe, mesmo sem estar com sede.

Ora, contrariando a ciência moderna, a minha teoria pessoal era de que água só se toma quando se está com sede. Mas Laila veio trazendo um novo conceito: o de tomar água não apenas para matar a sede, mas para aliviar o cansaço. Esta relação entre água e outros benefícios não fazia parte das minhas cogitações.

Comecei então, durante os dias seguintes, a refletir sobre o assunto. Notei que eu tinha alguns preconceitos em relação à água: que em excesso ela faz suar, obriga a ficar indo com frequência ao banheiro, tira o sono e engorda (dizia-se isto no meu tempo de criança); também percebi, desde pequeno, que – sobretudo no tempo frio – fazia escorrer o nariz; e ainda que, após tomar água demais, vinha uma sede interminável.

A questão a resolver era: tudo isso é mesmo real (pelo menos para o meu organismo)? Ou: estaria eu enganado, deixando de aproveitar benefícios importantes como o do “descanso”, recém revelado pela pequenina filósofa Laila?

Achei que – melhor que pesquisar teorias – seria ótimo experimentar. De todas as minhas objeções, a mais inconveniente era a de que água tira o sono. Mas, pensando bem, este conceito poderia corroborar o benefício apontado por Laila: se tira o sono, é porque dá energia, ânimo.

Então, partindo para a prática, experimentei tomar um copão de água logo ao despertar, e me hidratar mais durante o dia, apenas evitando a água próximo à hora de dormir.

O resultado foi positivo: senti-me mais bem disposto e animado, como se tivesse tomado um farto dejejum. Sim, Laila, senti-me mais “descansado”! E já comecei a olhar para a coitadinha da água sem tanta discriminação.

Contudo, havia ainda outra objeção, um tanto mais filosófica: se a ciência moderna faz tanta propaganda da hidratação, deve ter nisso algo de errado, pois, no geral, o mundo moderno é mestre em ensinar princípios “cientificamente comprovados”, porém falhos na realidade. Para dar um entre vários exemplos: segundo a ciência, eu deveria ter morrido ao passar 21 dias em jejum absoluto de sólidos, sendo 7 desses dias sem água.

Outra experiência citada por minha mãe é a da minha bisavó Idinha: passou a vida quase sem tomar água, e morreu centenária. Minha mãe – talvez em boa medida influenciada por Dª Idinha – também não tem hábito de tomar água, e já vai rumando para os oitenta com ótima saúde.

O fato é que, mesmo estando essas minhas teorias baseadas em experiências convincentes, tinha chegado o momento de revê-las, repensá-las e talvez reestruturá-las (graças à convicção filosófica da minha priminha Laila).

Durante a experiência de beber mais água, percebi ainda outras mudanças:

• leve diminuição dos batimentos cardíacos, caindo de 58 para 56, o que indicaria menor esforço do coração para fazer circular o sangue;

• mais calma e tranquilidade;

• na mente, menos pensamentos, maior fluência de ideias;

• mais facilidade para solucionar problemas.

Para terminar, assim como eu fiz meu próprio experimento, muitos cientistas competentes o fizeram. Listei abaixo algumas das vantagens “comprovadas” da água, pela hidratação adequada do corpo:

• Sendo a água o principal componente do sangue, a boa hidratação garante o transporte eficaz de nutrientes essenciais e oxigênio para todas as células do corpo.

• A água auxilia os rins na filtragem e eliminação de resíduos metabólicos, descartados pela urina; e a boa hidratação do intestino previne a constipação.

• A água regula a temperatura interna do corpo, pela transpiração, e a hidratação correta repõe o líquido perdido pelo suor, evitando um superaquecimento.

• Lubrifica as articulações, facilitando os movimentos e reduzindo atritos entre os ossos.

• Atuando como amortecedor para órgãos e tecidos, a água os protege contra choques e lesões. É de capital importância a saúde do cérebro, da medula espinhal e de outros tecidos delicados.

• Água é o principal componente da saliva, essencial para digerir os alimentos e absorver seus nutrientes.

• Melhora a função cognitiva, facilitando a concentração, acesso à memória e bom humor. A desidratação pode afetar negativamente o humor, causando irritabilidade e ansiedade.

• Aumenta a energia e agilidade do organismo.

• Mantém a pele hidratada, elástica e com aparência mais saudável.

• Previne a formação de cálculos renais, diluindo os minerais e eliminando-os na urina.

• Auxilia na manutenção do peso ideal, participando de processos metabólicos relacionados à queima de gordura.

• Reduz o risco de infecções da urina, ajudando a eliminar bactérias do trato urinário.

Em resumo, a boa hidratação é fundamental para a manutenção da saúde e bom funcionamento de todo o organismo.

Pois é, Laila, são muitos benefícios! Obrigado por me chamar a atenção para isso que antes eu não dava tanta importância!