Jejum prolongado
Alexandre Augusto Tavares, 10/11/2023
· Crônica ·
Em 2018 tomei conhecimento de que há pessoas que passam longuíssimos períodos em inédia, sem comer nada e às vezes também sem nada beber. Que Jesus tenha ficado 40 dias e 40 noites nesse completo jejum eu sabia, mas Ele é o Homem-Deus, Imaculado, para quem tudo é possível. O que me surpreendeu e me fascinou foi saber que meros humanos pudessem praticar esse jejum prolongado.
A primeira notícia que tive foi de uma australiana conhecida por Jasmuheen que, ao visitar um povo africano, conheceu uma senhora que vivia em inédia. Jasmuheen então experimentou reproduzir o prodígio, e conseguiu! Escreveu depois um livro em que ensina um processo de 21 dias para fazer a transição do comer para o não comer.
Li o livro em 2019 e já em seguida comecei a experiência. Mas achei estranhos vários conceitos não cristãos ali contidos, ligados a religiões gnósticas orientais e ao movimento New Age, do qual a autora era simpatizante.
Um desses conceitos é a própria explicação “científica” pela qual se consegue ficar sem comer: “viver de luz”. Segundo a australiana, para ficar em inédia é preciso “se alimentar” da luz solar, onde se absorve o prana.
Mas ao estudar um pouco mais o assunto, li que alguns santos viveram muitos anos em inédia, e isso me deu a certeza de que essa prática não se baseia numa suposta ativação de glândulas cerebrais pela luz solar. Devia haver outra explicação. Pensar que se tratasse de milagre também não explicava, pois a inédia existe em todas as religiões.
Tentei então apenas continuar o jejum do meu jeito, sem entender como se dava cientificamente o processo, e cheguei a ficar 5 dias sem nada comer ou beber. Mas ao me sentir muito fraco, com tonturas e o coração acelerado, sem supervisão de um profissional da saúde, decidi não arriscar e interrompi.
Hoje vejo que eu não estava bem preparado psicológica e espiritualmente, e esta preparação faz grande diferença no sucesso do processo.
Acho que minha intenção não era pura o suficiente. Havia duas falhas: de um lado, uma certa ansiedade por concluir o processo e contradizer o princípio “científico” de que quem não ingere alimentos morre; de outro lado, parecia haver um certo desejo mundano de realização pessoal, que visava mais os benefícios secundários da inédia, como:
ter mais ânimo, boa disposição e poder descansar em poucas horas de sono;
não intoxicar o organismo com tantos produtos alimentícios de que se fala mal;
ter melhor saúde (embora a minha sempre tenha sido boa);
economizar com médico e dentista;
gastar menos com comida e material de higiene pessoal;
e, mais do que tudo, desapegar-me do comer, que eu considero um “vício”.
Em 2022 fiz outro jejum, que resultou em apenas 3 dias de inédia. Desta vez eu estava ainda menos preparado, pois tentei conciliar o jejum com o trabalho, num clima de correria extremamente desfavorável.
Contudo, embora fracassadas, as duas experiências foram muito úteis, e até me alimentaram a esperança de que um dia eu conseguiria.
Em novembro de 2023 comecei a me preparar melhor para uma terceira tentativa. E desta vez com mais confiança. Não me incomodava o fato de falhar novamente: se fosse a vontade de Deus, aconteceria; se não fosse, eu talvez tentasse em outra ocasião.
Também preparei melhor meu organismo. Meses antes fui aos poucos, sem pressa, tirando primeiro os alimentos que eu mais preferia (pois se conseguisse ficar bem sem eles, o resto seria mais fácil). Fiz então um plano para ir excluindo aos poucos cada tipo de comida, nesta sequência:
café preto;
leite e pães;
doces (meu “vício de estimação”);
carnes e bebidas alcoólicas;
ovo e legumes;
frutas.
Passei alguns dias em cada uma dessas etapas, até me adaptar bem. Além disso, desde o início diminuí aos poucos a quantidade geral de comida e o número de refeições no dia: primeiro só 3 vezes no dia, depois 2 e, na fase final, só 1 refeição com 1 fruta por dia. A partir daí senti-me preparado para começar o terceiro jejum prolongado.
Era 17 de outubro de 2023, e acabei ficando 21 dias sem nada comer.
Nesta terceira vez ignorei as previsões de reações e providências descritas pela australiana no jejum dos 21 dias, mantendo apenas a estrutura de uma semana sem nada comer + 2 semanas consumindo só líquido (para limpeza e adaptação do organismo).
Com base nas duas experiências anteriores, fiz o que me pareceu melhor para sanar as dificuldades que fui tendo. E assim consegui passar pelos terríveis dias iniciais ─ principalmente do 4º ao 7º, durante os quais o “fantasma da morte” costuma apavorar os jejuantes, convidando-lhes a desistir.
Não emagreci muito, em termos de quilos: uns 2, no máximo. Mas como sou bem magro, fez diferença na aparência.
Durante esse jejum prolongado ─ bem como nos dois anteriores ─ não tive fome. Este parece ser um dos menores problemas. A grande dificuldade é a fraqueza. Dizem que seria necessário ficar mesmo um tempo sem fazer atividades físicas, e isso eu não consegui: saí normalmente para trabalhar, ir à missa, compras e demais compromissos. Isso é extenuante durante o jejum.
Após ter completado os 21 dias, eu teria continuado o jejum, para comprovar que minha voltaria em sua totalidade. Mas não tive tempo de esperar que isto aconteça, porque tem trabalho pesado me esperando... Então, vou ter que aguardar outra ocasião propícia para esta experiência.
Deixo, a seguir, o que me ocorreu ser a “explicação” da possibilidade de viver sem comer.
Se uma pessoa, que se alimenta normalmente, comesse o dobro do que ela come, o que lhe aconteceria? Ela provavelmente acumularia em seu organismo um pouco de reservas em forma de gordura, e descartaria todo o resto desnecessário. E quanto mais ela comesse, mais seria descartado. Se, pelo contrário, ela passasse a comer metade do que normalmente comia, muito menos seria descartado pelo organismo. Mas ainda assim continuaria descartando o desnecessário.
Então, que quantidade de alimento é preciso ingerir para que o organismo aproveite tudo, sem nada descartar? Acredito que a resposta a esta pergunta é nada. Ou seja, se nada entra, nada sai.
Quando parei de comer e beber, parei de descartar sólidos e líquidos. Deixei inclusive de transpirar, mesmo com trabalho pesado. Quer dizer, meu organismo guarda tudo o que tem, e assim se mantém, sempre do mesmo jeito.
Isto é muito agradável: não ter maus odores, não se sujar de dentro para fora, de forma a não precisar sequer tomar banho; não precisar de perfumes ou desodorantes; sem caspa; sem irritações na pele; sem cáries; sentir-se sempre limpo e saudável...
Notei que o efeito de cada dia de jejum tem reações retardadas no organismo: o que se come ou não se come hoje vai fazer efeito 1 ou 2 dias depois. Por exemplo, mesmo voltando a comer, continuei emagrecendo uns dias, para depois ir voltando ao peso normal.
Contudo, ao retomar o que se perde, tem-se uma boa sensação de que houve uma limpeza total do organismo, e de que agora tudo está renovado, não apenas no corpo, mas também na alma.
Percebi outra coisa: eu comia muito rápido e sem mastigar bem. Isto fazia com que meu estômago não conseguisse digerir tudo na velocidade que eu lhe enchia. E o resultado era um grande descarte de sólidos. Por isso sempre fui magro.
Agora estou comendo mais devagar, mastigando mais, facilitando o trabalho da digestão. Com isso proporciono maior assimilação e retenção da gordura no organismo. Vamos ver o resultado daqui a um tempo.
Se eu fizer novamente este jejum, não seguiria o padrão recomendado pela australiana, de ficar os primeiros 7 dias sem comer nem beber nada, e tomar sucos diluídos nas duas próximas semanas. Isto é penoso e desnecessário. Eu começaria a primeira semana com os sucos, passaria à água na segunda, e iria diminuindo a água gradativamente na terceira. Parece-me bem mais lógico, tornando a limpeza do organismo mais suave e menos dolorosa.