Integridade
Alexandre Augusto Tavares, 19/9/2023
· Espiritualidade ·
O estado de integridade original no qual Deus criou o ser humano lhe conferia uma tendência natural para o bem, de forma a facilitar sua união o Criador. Mas sua condição de ser inteligente exigia que sua vontade fosse livre, e devesse formalmente aderir ou não ao bem.
E aconteceu, como sabemos, que nossos primeiros pais perderam sua integridade original, quando desobedeceram a Deus, fazendo mal uso de sua liberdade. Assim, todos nós, filhos de Adão, herdamos aquela desordem produzida pelo pecado original. Desordem que, entretanto, aumenta quanto mais pecamos, mas diminui quanto mais sejamos virtuosos, quanto mais nos unamos a Deus pela Graça que o Jesus nos tornou acessível.
Este é o ponto central da vida humana: ter ou não ter união com Deus. Todo o resto é secundário. Cumpre, portanto, dedicarmo-nos com empenho na busca de uma plena intimidade com Deus, para dar-Lhe a máxima glória nesta terra, e alcançarmos o prêmio máximo após a morte.
Ora, união plena com Deus exige determinação, renúncias, entrega completa. Nossa natureza decaída não quer isso. Mas se a nossa vontade, dobrando nossa natureza rebelde, pedir com sinceridade a Graça, Deus jamais negará. Pois é para isto que Ele nos criou, é para isto que existimos, é o que Ele mais quer nos dar.
Seja, então, total a nossa adesão ao bem!
A teologia escolástica ensina que “o bem procede de uma causa íntegra” (bonum ex integra causa); e “o mal provém do mínimo defeito” (malum ex quocumque defectu).
Embora filosófico, este princípio também se aplica com grandíssima exatidão à teologia. Pois o sumo bem é Deus; e o mal, a ausência d’Ele.
Daí se conclui que tudo o que é bom, verdadeiro e belo procede de Deus, que é a Integridade; e tudo o que tenha algo de ruim, falso e feio provém da falta de Deus, que é o mal.
E assim podemos considerar que em todo o universo existem apenas dois extremos: o do bem e o do mal, a ação divina ou sua ausência.
Na ordem física há vários reflexos desta realidade: luz e escuridão; calor e frio; positivo e negativo, etc.
Esta verdade explica por que Jesus nos ensinou a ser tão enérgicos, decididos e radicais no pensar, no falar, no querer e no agir, excluindo qualquer relativismo:
“Quem ama sua vida a perderá; quem sacrifica sua vida por amor de mim a salvará.” (Jo 12,25)
“Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena.” (Mt 18,9)
“Seja a vossa linguagem sim, sim; não, não.” (Mt 5,37)
“Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.” (Mt 10,34)
“Quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim.” (Mt 10,38)
“Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito.” (Mt 5,48)
“Como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.” (Ap 3,16)
Só somos realmente bons na medida em que somos radicais, decididos, completos, íntegros! Uma união íntima com Deus só acontece num nível de entrega total, incondicional, cem por cento.
Deus não quer que um filho seu seja “meio bom”, “bonzinho”: ou é íntegro e extremo ou não é bom!
Ora, neste início do terceiro milênio somos ensinados, desde pequenos, a ser relativistas na discriminação entre bem e mal; liberais e complacentes para com o pecado; lerdos e ambíguos em nossas decisões; católicos “meia-boca”; cúmplices da mediocridade; conciliadores entre nosso egoísmo e a santa vontade de Deus; mornos malditos, destinados a ser vomitados da boca de Jesus no dia em que morrerem... Eis a triste e gravíssima realidade desta geração em que vivemos.
Não nos esqueçamos, contudo, que a Graça de Deus está disponível para nos levar ao mais alto grau de virtude. Depende, apenas, de querermos isto com sinceridade, e pedirmos na certeza que obteremos.