Inedismo
Alexandre Augusto Tavares, 22/8/2022
· Filosofia ·
Hoje fala-se muito de jejum, talvez mais por motivos de saúde corporal e estética do que pelos motivos religiosos, que estão na origem desta prática.
São várias as modalidades: jejum parcial (abstinência específica de sal, açúcar, gordura, diminuição de calorias, etc.); jejum breve; jejum intermitente; jejum prolongado; jejum total (em que não se come nada, mas se toma água); jejum seco ou absoluto (em que não se come nem se bebe nada); e, por fim, uma modalidade de jejum não muito conhecida ─ tema deste artigo ─, a inédia (jejum absoluto por longuíssimos períodos ou por toda a vida).
Alimentar-se, necessidade básica?
Nosso comportamento é totalmente dependente dos nossas crenças. Crença é uma verdade que criamos a partir de nossas próprias experiências, ou do que ouvimos e acreditamos ser real. Existem, então, dois tipos de verdade: a verdade absoluta, e a verdade criamos para nós.
Para citar um exemplo simples e comum, lembremo-nos das vezes que saímos de casa num dia frio de inverno, e vimos algumas pessoas muito bem agasalhadas, e outras com roupas de verão. Para estas últimas, a crença é de que o frio não faz mal, ou até faz bem. Então, o corpo se torna infenso ao frio, que tanto incomoda aqueles que o tomam como um incômodo ou uma ameaça. O mesmo acontece quando alguém se sente compulsoriamente privado da comida: como ela acredita que não alimentar-se leva à morte, ela morre. Mas um bebê que, após o desabamento de um edifício, fica preso durante muitos dias debaixo de escombros, mesmo que passe um pouco de fome porque estava habituado a mamar, ele não sai desnutrido quando resgatado, porque na cabeça dele ainda não se formou a crença de que a ausência de alimento leva à morte. É também por este motivo que a medicina atual vai mais e mais se convencendo de que a causa da maioria das está na mente: temos esse estranho poder de criar doenças ─ até mortais ─ com resposta ao que não aceitamos em nossa vida.
Com efeito, nossa mente e nosso organismo físico se comportam segundo as nossas crenças, que por sua vez se baseiam em tudo o que acreditamos ser verdade. O ser humano não é inerrante; somente Deus detém a verdade absoluta. Nós somos eternos aprendizes inseguros, mas, sim, capazes de conhecer a verdade. E, como ensinou Jesus, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Jo 8, 32)No caso do inedismo, se alguém acredita ─ contra todos os conceitos “científicos” hoje em voga ─ ser possível ao homem viver sem se alimentar, então isto é sim possível. Mas há uma enorme dificuldade de renunciar a uma crença com tantas “evidências” de verdade, e substituí-la por uma nova crença com tantas “evidências” de falsa.
De onde vem o conceito “evidente” de que não podemos viver sem alimento? Desde o ventre materno somos alimentados pelo que nossa mãe ingere, pois ademais de obedecer ao conceito de que “comer é necessário”, ela ainda acredita que, “grávida precisa comer mais, para alimentar também o bebê”. Quando nascemos, nossa mãe nos entope de leite, acreditando que sem ele vamos ficar desnutridos. Assim que começamos a comer sólidos, somos igualmente incentivados a “comer muito, para poder crescer”. E assim, a experiência de comer torna-se para nós a crença básica de que “fisiologicamente não conseguimos sobreviver sem alimento”.
Ora, contrariando este conceito propomos aqui que o ser humano é sim capaz de viver na inédia. E baseamos este conceito no fato de que somos seres híbridos.
Os seres animais têm sua natureza programada instintivamente por Deus para se alimentarem. Alguns são capazes de passar longos períodos sem água e comida, mas em algum momento todos se alimentam. Diferentemente, o mundo angélico não come nem bebe, pois anjo não têm corpo, é espírito. E nós, seres humanos, somos uma mescla de anjo e animal, hibridez esta que nos permite optar por nos alimentarmos ou não. Prova disto é a existência dos inedistas. Talvez nenhuma era histórica tenha tido tantos praticantes da inédia como em nossos dias.
Mais precisamente, temos uma alma espiritual (com inteligência, vontade e sensibilidade) atrelada a um corpo com sentidos e instintos semelhantes aos dos animais. E isto nos inclui como uma espécie diferenciada nos planos da criação, que são cinco: mineral, vegetal, animal, humano, angélico. Por conter em si características dos cinco planos, o homem é considerado um microuniverso ou microcosmo, um resumo da criação. Por isso Deus escolheu o mais perfeito de todos os homens, Jesus, para a Ele se unir e divinizá-Lo com a Encarnação.
Aceitação do conceito
Mesmo sendo a inédia uma prática comprovada, tornar esse conceito uma crença pessoal encontra uma série de dificuldades vivenciais. Pois habitualmente temos a experiência prática e pessoal de que quando não comemos nos sentimos cansados e adoecemos. Acreditamos igualmente que ao nos alimentarmos restauramos nossas forças, e acumulamos energia para novos esforços. E o nosso organismo se comporta efetivamente segundo estas crenças, reforçando-as experiencialmente. Portanto, abandonar tais crenças é quase impossível, pois vai contra uma “evidência” confirmada por experiência pessoal.
Aplicação da nova crença
Diante de um inedista é possível abandonar as “evidências” científicas e aceitar o inedismo como realidade. Pois nossa razão tem o bom senso de reconhecer que “contra fatos não há argumentos”. Mas daí a adotar a inédia como prática pessoal existe um percursos árduo e perigoso.
Teoricamente, para tornar-se um inedista basta parar de se alimentar; na prática, encontraremos três obstáculos quase intransponíveis:
a crise de abstinência;
as associações emocionais com o alimento;
o repúdio social.
Crise de abstinência
Sabemos que deixar certos vícios exige um esforço hercúleo. Certa vez, ouvi um norte-americano especialista em drogadição dizer: “Quem uma vez se viciou na droga será sempre viciado.” Esta é mesmo a regra, sobretudo para certas drogas com alto poder de vício, ou mesmo o álcool. Mas também sabemos que toda regra tem exceções. Do contrário nem existiriam os centros de reabilitação.
Considera-se vício toda prática prazerosa excessiva que se tornou um hábito imperativo de difícil desistência. No caso da alimentação, podemos considerar vício somente quando houver um excesso prejudicial. Porque, como acima dissemos, comer é uma opção totalmente legítima e saudável, quando praticada de forma equilibrada. Mas para quem decidir praticar o inedismo, deixar a alimentação ─ mesmo que regrada ─ exigirá o esforço igual ao de abandonar um vício.
Ora, como dissemos, o hábito de comer começa já no ventre de nossa mãe, e vai se incrustando e inveterando durante toda a nossa vida, apoiado na crença básica da sobrevivência, na prática universal da alimentação, e na sensação de prazer que traz o comer. E reverter esta situação é extremamente mais difícil que deixar qualquer outro vício. Paga-se um preço muito alto. Mas é esta a regra da vida: coisas muito boas são caras. Na realidade, pelo princípio de que nossas crenças governam nosso pensamento, nossa vontade, nossos sentimentos e nosso comportamento, devemos considerar que quando alguém implanta em sua mente uma forte crença de que o corpo vive sim sem alimento, isto tornará o processo suave e indolor, tanto mais quanto maior for sua perseverança nesse conceito.
Barreira emocional
Talvez ainda mais entranhado que o hábito, sejam as associações emocionais que fazemos com o alimento. Nada tem tanta capacidade de viciar o ser humano quanto o prazer da degustação. Pois nele atuam juntos os cinco sentidos, para que seja introduzido em nosso interior um deleite.
Além desse prazer físico, a frequência com que normalmente comemos – 3 a 6 refeições por dia – colabora para que o ato de ingerir participe da catalisação de memórias relacionadas com o que acontece no nosso dia a dia. Isto significa que facilmente nossas memórias registram nossas experiências associadas ao que comemos.
Motivação da prática
Sobretudo inicialmente, é um holocausto deixar o hábito tão social e prazeroso de alimentar-se. Então, por que fazer isto?!
Alguns benefícios do inedismo podem ser muito atrativos:
economia com comida;
acréscimo de tempo livre pela ausência de refeições;
acréscimo de tempo livre por não precisar preparar a comida, nem limpar mesa, louça, panelas, etc;
preservação do meio ambiente dos restos de comida e suas embalagens;
acréscimo de tempo livre pela diminuição da necessidade de dormir;
diminuição do suor e da necessidade de desodorante;
diminuição das cáries, dos problemas bucais e da necessidade de escovação;
melhora da saúde;
aumento do ânimo físico e mental;
maior controle físico e emocional.
Mas a verdade é que por mais forte que seja o desejo de obter taus benefícios, isto não é suficiente para levar alguém à inédia. Há relatos de pessoas chegam ao inedismo por causa de uma grande necessidade de liberdade ou independência; outras, por motivo de saúde, como para se livrar de uma doença mortal. Mas o motivo que mais leva alguém à inédia é o perfeccionismo religioso, ou seja, a busca de um sumo equilíbrio e de uma maior integração com a divindade.
A prática é mais comum entre as religiões orientais, e recentemente vem encontrando cada vez mais adeptos no ocidente.
A Igreja Católica conta com uma lista de pessoas virtuosas ou santos canonizados praticantes da inédia, geralmente até o fim da vida, durante 50, 60, 70 anos. A única coisa que entra por suas bocas é o Corpo eucarístico de Cristo. A inédia não é algo importante em suas vidas, mas um simples reflexo da grande renúncia de prazeres que fizeram por amor a Deus.
O hábito do inedismo traz uma paz de espírito e um equilíbrio corporal altamente prazerosos, que de longe superam o prazer da comida. Mas exige uma especial atenção no tocante à manutenção da espiritalidade, que é o que lhes proporciona viver neste estado. Assim, a inédia é uma prática espiritual, não material. É o lado angélico do homem, que aí se desenvolve, superando o lado animal.