Impostação de espírito
Alexandre Augusto Tavares, 3/4/26
· Espiritualidade ·
Quando vemos outra pessoa, é instintivo fazer uma análise, que pode ser superficial ou mais detalhada, na qual podemos, por exemplo, observar se está bem vestida, se bem asseada, se animada, se feliz, se me cumprimenta, se demostra afeto, etc.
Às vezes, por um simples olhar obtemos informações importantes para o convívio humano e experiência da vida. Talvez o conjunto dessa análise se resuma em saber qual é a impostação de espírito da pessoa, no momento em que a vejo.
Impostar o espírito é dar a ela uma postura, uma atitude. Aos nobres convém sempre se apresentarem com postura ereta, gestos e atitudes dignas, atenção distinta às pessoas a quem se dirigem. O mesmo se diga dos governantes e pessoas de elevada posição, seja na hierarquia eclesiástica ou civil.
A dignidade do cristão católico exige também uma impostação adequada de espírito. Pois se somos “templos do Espírito Santo”, devemos nos apresentar como dignos filhos de Deus, representantes da perfeição divina de nosso Pai.
Assim, todo santo mantém uma impostação de espírito elevada, condizente com a grandeza de Cristo, modelo de Perfeição. Por isso, mesmo sendo um simples plebeu, o católico deve ter uma impostação compatível com a nobreza sobrenatural decorrente do convívio íntimo com Deus, com seus anjos e santos.
Asseio, postura, dignidade nos gestos e atitudes, dosagem das palavras, atenção ao próximo, tudo isso é inerente à vida do verdadeiro cristão. Ele não se joga esparramado num assento, mas se senta composto; não se veste sem modéstia, pois está revestindo um templo de Deus; não vive brincando e com conversas levianas; não ofende nem maltrata o próximo, pois vê neles outros templos divinos; não se entrega a vícios nem ao pecado, que são o contrário da dignidade cristã; não demonstra desânimo, preguiça, amargura, ódio, impaciência ou irritação; come educadamente, observando regras de etiqueta e tradições; busca sempre elevar o nível da conversa e do relacionamento humano.
É interessante notar que todas essas atitudes que compõem a impostação de espírito são, em grande medida, artificiais. Ou seja, não espontâneas, mas “fabricadas”. Embora o nobre assuma de tal modo sua postura correspondente, a ponto de se habituar e torná-la quase inerente à sua pessoa, ela em muitos momentos exigirá esforço. Como dizem os franceses, “noblesse oblige” (nobreza obriga).
Não é sempre que estamos com bom humor para sorrir ao próximo e lhe cumprimentar com entusiasmo. Mas se o humor não está preparado, operamos nela uma mudança voluntária, como num gesto teatral, para adequá-lo à circunstância. Gesto artificial e falso? Não, apenas uma correção de postura.
Viver conforme a dignidade de quem é chamado e “ser perfeito como o Pai celeste” exige do cristão uma contínua correção de atitudes, um direcionamento e aprimoramento constante da impostação de espírito.
Vemos, por exemplo, Jesus ensinar: “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” (Mt 6,17).
No mesmo capítulo 6 de São Mateus, encontramos ainda estas correções de impostação:
• Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.
• Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
• Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita.
• Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.
• Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
• Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.
O mesmo se diga sobre aos incentivos bíblicos no tocante à alegria: não importa quanto estejamos sem ânimo, de mal humor, passando por incômodos ou necessidades: o convite é para considerarmos a grande dádiva da vida que Deus nos concedeu, de levarmos em conta as inúmeras graças com que Ele nos beneficia diariamente e, por isso, corrigir nossa postura e impostarmos o nosso espírito na alegria e na gratidão.