Gato e sapato

Alexandre Augusto Tavares, 7/6/2022

· Espiritualidade ·

Um gato dentro de um sapato

Nada de melhor pode acontecer em nossa vida, do que tomarmos aquela firme decisão de sermos bons. Não apenas “bonzinhos”, mas perfeitamente ótimos, uma vez que o convite é para sermos “perfeitos como o Pai celeste”.

Esta decisão categórica é comumente chamada de conversão, e implica numa séria e radical mudança de vida, desapego de coisas que nos agradam, aceitação humilde das adversidades, e completa submissão à vontade de Deus, para carregar a nossa cruz, à imitação do Salvador. Em suma, quem se converte opta sabiamente por “perder sua vida” terrena, para ganhar a vida eterna.

“Quem quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la.” (Mc 8, 35)

Como nada é mais precioso para nós que a nossa vontade, é ela a principal agente dessa conversão, é nela que se travarão as grandes lutas do nosso novo caminho rumo à eterna felicidade. E porque será desmedida a nossa alegria no Céu, será amarga a vida neste Vale de Lágrimas.

Ninguém gosta de ser contrariado, ninguém aprecia o revés, o insucesso, a perda, a pobreza; custa-nos suportar a sensação de solidão, de abandono, de rejeição, de traição, de imperfeição, de incapacidade. Que árdua a batalha de quem optou pelo bem, que busca a todo tempo fazer o certo, mas precisa ─ por imposição natural do destino ─ conviver com o errado, o falso, o injusto, o feio, o defeituoso, o imperfeito! Não apenas ao nosso entorno, mas até em nós mesmos.

É normal, então, lamentarmos com o Apóstolo: “Sinto nos meus membros outra Lei, que luta contra a Lei do meu espírito e me prende à Lei do pecado, que está nos meus membros. [...] Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero.” (Rm 7, 19 e 23)

E contudo não há nada de “errado” nisto: simplesmente esta é a nossa prova, pois o prêmio da visão beatífica será “demasiadamente grande” (cf. Gn 15, 1). Assim, não nos assustemos com as proporções da luta, nem deixemos, por nada, de buscar em tudo a perfeição, pois o próprio Homem-Deus é quem nos convida e fortalece nessa difícil caminhada: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e numerosos são os que por aí entram.” (Mt 7, 13)

Certa vez uma freira, que estivera muitos anos enclausurada, teve que sair do convento para uma viagem. Ao subir no automóvel, não contava com a surpresa de deslocar-se, pela primeira vez, por uma via asfaltada (pois antes as ruas eram de terra ou pedra).

De volta à clausura, comentou com as irmãs: “Que incrível uma estrada asfaltada: tão lisinha e confortável que parece o caminho do Inferno...”

Nem sempre o que parece agradável, plano, direitinho, limpinho, cômodo, suave, macio, perfumado, saboroso e acolhedor é o que mais nos faz bem e nos leva ao nosso destino.

Sim, é lógico, arquitetônico, correto e justo que o caminho seja árduo! Pois incomparavelmente superior será a recompensa. É o que encontramos no quinto capítulo de Mateus (3-12):

“Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!

“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!

“Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.”

Assim é a vida de quem decidiu ser perfeito: tem que suportar a imperfeição, tanto a própria quanto a dos outros, sem reclamar, sem se impacientar; tem que conviver com os defeitos, seus e alheios; tem que aceitar a pobreza, o insucesso, o revés, precisamente quando e quanto mais incomodam.

Que ilusão mundana e romântica, esta de que a vida do santo é próspera, feliz, saudável, cheia de consolações divinas, um caminho asfaltado, ladeado de anjos que vão tirando todas as pedrinhas que possam nos atrapalhar... Não é esta a vida do cristão, não foi este o exemplo de Jesus!

Se queremos ir para o Céu, se queremos imitar Jesus, se queremos ser eternamente felizes, então aceitemos ser contrariados! O tempo todo, sem exceção! Não tenhamos pena de nós, não busquemos conforto, saúde, carinho, atenção, riqueza, fama, prestígio, reconhecimento...

O grande Santo Inácio, em seus Exercícios Espirituais, deixa bem clara a lógica da vida cristã:

“O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se.” (EE 23,2)

“Daí se segue que ele deve usar das coisas [e pessoas] tanto quanto o ajudam para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio e não lhe está proibido: de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.” (EE 23,5)

Ou seja, o pecado deve ser evitado a qualquer custo; e no tocante às decisões opcionais, saibamos que “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém” (cf. 1Cor 6, 12). Em outras palavras, fugir do pecado é SEMPRE a vontade de Deus e o caminho que leva ao Céu; mas ser pobre ou rico, ser conhecido ou não, ter saúde boa ou precária, viver muitos ou poucos anos, etc., a tudo isto devemos ser indiferentes, QUERENDO exclusivamente o que for mais agradável a Deus.

Se alguém ensinar outro caminho que não este (o da renúncia, do desapego, da cruz de Cristo), estará compartilhando uma doutrina perversa, diabólica, que nos afasta da união com Deus, e da “porta estreita”, da estrada sinistra, tortuosa e esburacada que, entretanto, leva ao Paraíso.

As doutrinas de espiritualidade podem ser muito claras na teoria; mas no campo da prática costumam gerar muitas dúvidas e desvios. Isto acontece principalmente pela debilidade inerente à natureza criada: a resistência da nossa vontade em entregar-se sem reservas; a falta de generosidade da nossa sensibilidade ao renunciar ao prazer (ou evitar a dor); e o obscurecimento da nossa razão, ocasionado pelo pecado Original e por nossos próprios pecados. Todavia, Deus quer nos ajudar nesta via de progresso espiritual, a fim de superarmos tais dificuldades e nos tornarmos semelhantes a Ele. O que é muito necessário da nossa parte é humildade para reconhecermos que somos incapazes de chegar sozinhos à perfeição: dependemos de Deus até para minúsculos passos. E isto é bom, pois se conseguíssemos sozinhos nos julgaríamos deuses.

O verdadeiro discípulo de Cristo é sério, radical e sincero em sua decisão de entregar-se por inteiro a Deus. A exemplo da santíssima Virgem Maria, vivamos, na prática, como escravos de amor, deixando-nos manipular pela divina Providência como “gato e sapato”, como se fôssemos um objeto ou um ser isento de vontade própria.

Ó santa Virgem Maria, Mãe querida e Soberana do Universo, que viveste na terra como escrava do Senhor! Neste mundo em que o homem vive ébrio de liberdade, de orgulho e de sensualidade, decidi viver como Vós, escravo de amor, humilde e puro. Tratai-me da forma que mais agrade a Deus; se quiserdes, como mísero objeto, sem vontade própria, como “gato e sapato”. Aceito todos os reveses, insucessos, incômodos, doenças, dificuldades e adversidades que me venham – especialmente os que mais contrariarem o meu amor-próprio –, e tudo vos ofereço de bom grado e com alegria, para o bem que quiserdes fazer, a mim ou ao próximo. Peço-Vos apenas que me animeis e guieis neste caminho, para que eu persevere na virtude e assim me una sempre mais a Vós e a vosso divino Filho, dando-Vos, a cada instante, a máxima glória que me seja possível.