Fusão com Deus

Alexandre Augusto Tavares, 24/2/2023

· Espiritualidade ·

Metal derretido

Na física, fusão é o derretimento de uma substância para misturar-se com outra, o que geralmente acontece através do calor. É diferente, por exemplo, de misturar o leite com o café, pois embora eles se “fundam”, não há uma transformação de pelo menos uma das substâncias, pois não houve o derretimento.

Ao falarmos em “fusão com Deus”, estamos usando uma linguagem metafórica, mas cuja realidade é bem mais profunda do que o fenômeno térmico da fusão, na física. Principalmente porque se trata de uma fusão espiritual.

“Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço”: é uma regra clássica da física. Mas quando dois corpos se fundem, passam a ocupar, pois sua união é tão entranhada que não é mais possível distingui-los. De modo semelhante, dois espíritos não ocupam o mesmo “lugar”, a não ser que se fundam. E assim como o derretimento é o fator que permite a fusão de substâncias físicas, a semelhança é a condição que permite a fusão dos espíritos.

Então, para nos fundirmos em Deus, é indispensável que nosso espírito seja compatível com o Espírito d’Ele. Sem um “derretimento” do nosso espírito, não há fusão como o Divino Espírito Santo.

No que consiste esse derretimento? Na adequação ética, moral e comportamental. Em outros termos, precisamos pensar, querer e agir como Deus. Eis a transformação necessária para nossa fusão com Ele.

Como fazer isto? Assim como o fogo (o calor) é que permite o derretimento na física, no campo espiritual é o amor que opera a fusão. O amor possibilita ao amante fundir-se no amado, por um “derretimento espiritual”. O amor tem essa capacidade de transformar o espírito. Resta, então, saber o que é e como acontece o amor.

Amar a Deus é a primeira e mais importante das Regras para a fusão com Ele. Ora, se o próprio do amor é transformar, amar é querer essa transformação, querer essa fusão. Mas não com um “quererzinho” medíocre: tem que ser de verdade, com o coração, a ponto de acontecer a mudança, que é o derretimento que permite efetivamente a fusão.

Trata-se, pois, de um endeusamento (uma divinização) do nosso ser. Complicado? Não, simples! Porque foi para isso que Deus nos criou! É a razão da nossa existência. Deus nos fez “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26), configurados para a fusão, capazes de nos derretermos n’Ele através do amor.

Assim sendo, o fator determinante da nossa fusão com Deus é a nossa vontade livre. Estamos falando de uma intenção sincera que faz acontecer.

Amar a Deus a ponto de transformar o nosso espírito para que haja a união fusional está condicionado a uma intenção REAL. E esta intenção precisa estar presente em TUDO o que fazemos, desde o despertar até o dormir. De modo que nossas ações estejam embebidas dessa intenção reta de fazer tudo por Cristo, com Cristo, em Cristo e para Cristo (não por mim, comigo, em mim e para mim). E com esta pura intenção presente em todos os atos do nosso dia, passamos a viver num estado de compenetração, em que nossa atenção, posta em Deus, já vai operando o derreter do nosso espírito no d’Ele. Passamos a viver na presença contínua de Deus.

O mecanismo mental de purificar a intenção se inicia com a atenção. Ou seja, para termos uma intenção pura é necessário FOCARMOS no que estamos desejando. Voltar a atenção para Deus, “olhar” para Ele é, então, o primeiro passo para a fusão. E quando fazemos isto, entramos no estado de oração, pois, como define a Igreja, “oração é a elevação da mente a Deus”.

Resumindo, a fusão com Deus se dá assim:

Atenção (foco) > Intenção (sincera) > Compenetração (no agir) > Transformação (derretimento) > Fusão (união total).

Poderíamos ainda usar outros termos, como: Olhar (para Deus) > Amar (com o coração) > Unir-se (na ação) > Mudança (adaptação) > Simbiose.

Por fim, é importante ressaltar que existe ainda um fator sem o qual a fusão não ocorre: a vontade de Deus. Embora Ele nos tenha criado para isso, não somos nós que realizamos a fusão com o nosso querer, pois ainda que tenhamos a capacidade de nos transformarmos, não derretemos sem o fogo, que é o Espírito Santo. Nada se opera no campo da santificação sem uma ação direta de Deus. Neste processo é necessária, da nossa parte, uma séria compenetração disto.

Tenhamos a confiança de que esta fusão é o que Deus mais quer para nós, e Ele mesmo nos dá sempre todos os meios para chegarmos a ela. Assim, não temamos qualquer adversidade: culpas do passado, apreensão pelo futuro

Comecemos simplesmente por olhar com calma e humildade para Deus, purificando nossa intenção e derramando n’Ele todas as nossas ações, confiantes de que o resto Ele fará. Esta impostação de espírito já é derretimento, já é divinização, já é fusão!