Felicidade, um tempero “a gosto”

Alexandre Augusto Tavares, 30/1/2021

· Espiritualidade ·

Especiarias e temperos diversos

No Céu a felicidade nos vem de Deus; na terra, também. Mas lá ela é plena, perfeita, eterna e não depende da nossa vontade; aqui ela é parcial, imperfeita, temporal e depende da nossa vontade. Neste último aspecto é que reside o segredo da felicidade terrena: felicidade é um estado de espírito “fabricado” pela nossa vontade.

Um cão se sente feliz involuntariamente e sem noção que está assim, sem saber sequer o que é felicidade, mas manifesta instintiva e involuntariamente seu bem-estar abanando o rabo; nós, humanos, sentimos a alegria sabendo o que ela significa, podendo até prolongá-la ou interrompê-la. Podemos ainda produzi-la, do nada, recordando bons momentos ou criando-os em nosso espírito, ou ainda “atuando”. Sim, como um ator! Fingir felicidade nos traz ela de verdade. Pois está dito: “Deus ama os que dão com alegria.” (1Co 9,7) E ainda: “Alegrem-se no Senhor e exultem os que são justos! Cantem de alegria, todos os que são retos de coração!” (Sl 31,7)

Ou seja, ao oferecermos algo a Deus, podemos fazê-lo com estados de ânimo e motivações diferentes, produzidos por nós mesmos.

Felicidade é como um tempero que colocamos “a gosto” em nossas ações, dando-lhes o significado que queremos. De modo que todas as nossas ações podem ser executadas com alegria, com tristeza ou com indiferença.

É óbvio que certos acontecimentos são próprios a nos trazerem reações naturais e instintivas (como as do cão), tanto de alegria quanto de tristeza. Mas nossa reação voluntária poderá ser mais forte e superar a negatividade do evento. E para isso contamos com a ajuda divina, na medida que a invoquemos.

O próprio de quem ama a Deus é ser alegre. Por isso, no olhar de um santo sempre transparece alegria e generosidade, mesmo em momentos de apreensão ou dificuldade. A pena de si não está presente nos santos: eles se alegram e se mantêm animados nos bons momentos e também nos ruins. Jejuam, mortificam-se e se sacrificam com brilho no olhar, sempre sorrindo para Deus. Não veem Deus como um adversário que lhes quer impor suas regras de leis; pelo contrário, consideram que “os preceitos do Senhor são justos e dão alegria ao coração; os mandamentos do Senhor são límpidos e trazem luz aos olhos.” (Sl 19,5)

E, como consequência, a automotivação desses santos gênios os leva a um ânimo estável, que lhes permite fazer obras incríveis e memoriais. Demonstram força sobre-humana, praticam virtudes em grau heroico, deixando na História marcas indeléveis da perfeição divina. E, com isto, conseguem atingir na terra o máximo de felicidade que se pode alcançar neste Vale de Lágrimas. Isto sim é saber viver!