Fabricando amor
Alexandre Augusto Tavares, 19/10/2024
· Espiritualidade ·
O afeto humano é imperioso, tem a capacidade de arrastar o entendimento e a vontade para conseguir o que lhe agrada.
É, portanto, muito importante conhecer e controlar o que lhe agrada, para que afeições desordenadas não nos levem para o mau caminho.
O afeto reside na sensibilidade, e é uma das potências da alma, junto com o entendimento e a vontade.
A Santa Catarina de Siena, Jesus revelou que essas três potências precisam estar alinhadas para que consigamos praticar a virtude. Em outras palavras, acontecerá o seguinte:
Nossa razão mostrará o caminho pela fé, mas nosso afeto será atraído para outro caminho, mais cômodo, mais agradável, mais de acordo com nossas más inclinações. Então será muito difícil para a vontade recusar o ímpeto da afeição, guiando-se pelo racional. E cederemos...
Como evitar isso? Trabalhando o afeto. E este é o grande segredo para alinhar as potências da alma de acordo com a fé.
Nossos afetos se guiam por nossa memória, e ambos estão na potência dos sentidos.
Ora, a memória pode ser programada pela nossa vontade. Ou seja, é possível inserir dados nela, de modo a deixá-la como queremos. E uma vez programada segundo a fé e o reto amor, ela seguirá o programa.
As informações registradas na memória podem ser inseridas consciente e voluntariamente, ou podem ser inseridas automaticamente.
Tudo o que chega às nossas potências nos vem pelos cinco sentidos e fica registrado na memória.
Mesmo quando estamos distraídos, registramos tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, degustamos, tocamos ou sentimos no corpo e na alma.
O segredo está, então, em filtrar todas essas informações e temperá-las com o amor. É preciso, em tudo o que façamos, estarmos atentos ao que acontece em nosso corpo e nossa alma, direcionando nossa atenção e nossa intenção para Deus, de forma a fazermos tudo por Ele, com Ele, n’Ele e para Ele, e este é o tempero afetivo que transforma uma ação comum num ato de amor a Deus.
Isto quer dizer que tudo o que fazemos, mesmo as ações mais insignificantes ─ como escovar os dentes, lavar um copo, beber água ─, pode ser feito distraída e automaticamente ou consciente e intencionalmente.
A fim de bem programar nossa memória para amar, é importante oferecer a Deus principalmente as contrariedades da vida com paciência, carinho, e afeto amoroso, como que sorrindo para Deus. Isso não apenas programará de forma eficaz nossa memória, mas ainda suavizará acentuadamente o sofrimento. Deixará registrado em nosso ser que realmente amamos a Deus. E, registradas muitas informações de afeto, nossos sentimentos tenderão naturalmente a agir segundo essa programação.
Acontecerá então que, quanto mais amarmos conscientemente, mais amaremos automaticamente. Ama para amar!
Tendo como pressuposto que não somos capazes de praticar nenhum bem sem a Graça divina, é indispensável regar com muita oração esse esforço de moldar o nosso afeto.
Todo esse mecanismo de moldagem voluntária dos sentimentos acontece graças ao poder da vontade de decidir com livre arbítrio.
É, aliás, esta liberdade que nos incriminará ou nos garantirá o prêmio da salvação quando morrermos e formos julgados por Deus.