Eu em Ti

Alexandre Augusto Tavares, 10/4/24

· Livro ·

Bifurcação de caminho

O que é a vida humana

A vida é um curto espaço de tempo entre duas eternidades, a que sempre existiu antes de eu nascer, e a que sempre existirá após minha morte.

Vida é o presente que recebo de Deus ao nascer, para comprovar que o reconheço como meu Criador, que sou-Lhe grato como Redentor, e que o amo como Deus, acima de tudo o que existe.

Vida é, pois, o tempo de prova para a avaliação que acontece no momento da morte, ocasião em que se define o meu destino eterno e irrevogável.

Cada instante da vida é uma oportunidade para me aproximar do Céu ou do Inferno.

Durante a vida, meu principal aliado é o próprio Deus, que me criou para a glória e quer me levar para lá, disponibilizando para isso sua Graça, com a qual me torna possível ser santo; meu principal inimigo sou eu mesmo, que com minha vontade livre sou capaz de rejeitar a Graça divina para realizar meus desejos egoístas.

Para que existo

Sou criado para amar e servir a Deus e, assim, alcançar a glória eterna. (Cf. Santo Inácio de Loyola. Exercícios Espirituais, 23,2)

Sendo criado por Deus e para Deus, o desejo de encontrar teu Criador está escrito em teu coração: “Para vós nos fizeste e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós.” (Santo Agostinho)

Deus criou tua alma como um recipiente configurado para estar sempre cheio, repleto, preenchido pelo amor.

Ora, há somente dois tipos de amor: o amor a Ele e o amor a ti mesmo. E o tipo de amor que tens determina quem és.

Deus espera que tua vontade livre escolha sempre amá-lo, acima de todas as coisas. Pois te criou para a felicidade eterna, resgatou-te do pecado por altíssimo preço, e te oferece toda a ajuda necessária para isso.

Mas tua vontade é livre para decidir entre o bem e o mal.

O amor reside na vontade humana, que, por sua vez, trabalha em conjunto com a inteligência e a sensibilidade para tomar suas decisões.

Esta é a tua essência, todo o teu ser se move por tuas ideias e decisões, influenciadas ou pela razão ou pelos sentimentos.

Numa alma ordenada e cheia do amor divino, a inteligência é esclarecida por Deus para ditar à vontade os caminhos de Deus, mesmo que os sentimentos não estejam de acordo.

Numa alma desordenada, cheia de amor próprio, a vontade despreza a razão (iluminada por Deus), para seguir os sentimentos.

Então, se desejas encher-te de Deus, precisas ordenar a tua vontade conforme a fé, que ilumina a razão.

Tudo o que a tua razão precisa conhecer para ordenar a tua vontade foi revelado por Deus nas Escrituras Sagradas, em especial nos Evangelhos.

Uma vez que Deus demonstra a todo instante o seu amor por ti, criando-te para a glória e te disponibilizando os meios para alcançá-la, entende-se que se rejeitares esses benefícios infinitos cometerás uma grave ofensa contra o Criador, digna de severíssima punição. Depende, pois, da tua escolha, trilhar o caminho do amor a Deus ou o do teu próprio amor. Não há uma terceira via.

Como amar a Deus

Como se ama a Deus? Reconhecendo o seu amor por nós, e retribuindo-Lhe com a entrega do que há de mais precioso no ser humano: a vontade.

Amar a Deus é renunciar à própria vontade para fazer o que Deus quer.

O que Deus quer? Sempre o melhor para nós.

É fácil fazer a vontade de Deus? Sim e não: não, porque somos seduzidos pelo demônio, pelo mundo e pela carne a fazer o que gostamos, o agradável, o prazeroso; sim, porque não somos nós que fazemos (por nossa própria força) a vontade de Deus, mas a Graça, que nos é dada para realizar essa impossibilidade humana.

Sem Deus nada podes fazer (Jo 15,5); mas n’Ele tudo podes (Fl 4,13).

Portanto, não existe obstáculo algum instransponível para ter unires totalmente a Deus, pois quem remove os empecilhos é Ele próprio, que tudo sabe e tudo pode.

Assim, se não amas a Deus acima de ti mesmo e, por isso, não lhe és fiel, a culpa é toda tua.

É prazeroso viver no amor de Deus. Sim, muito mais do que viver no pecado. Mas amá-Lo pelo bem-estar que tens não é amá-Lo e sim amar-te.

Como diz o poema de Santa Teresa, “ainda que não houvesse Inferno eu te temeria, e ainda que não houvesse Céu eu te amaria”. Porque Deus é digníssimo de nosso amor, louvor e fidelidade.

Jesus comprou-te pelo preço de seu Preciosíssimo Sangue, pelo que és propriedade d’Ele, tens uma seriíssima obrigação, um dever gravíssimo e justíssimo de retribuir esse amor divino, cumprindo alegremente os compromissos do teu Batismo.

Dois caminhos

Como mostra a imagem que ilustra a capa deste livro, há duas opções de caminho nesta vida, e só podemos seguir por um deles: o que leva ao Céu e o que leva ao Inferno. Não existe uma terceira via.

Esta escolha se põe em nossa caminhada logo que adquirimos o uso da razão, pela segunda infância, quando começamos a distinguir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o amor a Deus e o amor ao nosso ego.

Portanto, “entra pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram” (Mt 7,13-14).

Tu, meu Criador

Meu Deus, tu és santo, perfeitíssimo e todo-poderoso. Tu és a bondade, a verdade e a beleza.

Tua essência é simplesmente ser eternamente feliz por seres Deus.

Incriado, completo e autossuficiente, desde todo o sempre te regozijas na contemplação de tua divindade.

Ao contemplar a perfeição da tua Pessoa, tua inteligência gera, involuntariamente, uma imagem tão perfeita que é, em Ti, uma segunda Pessoa. E do amor de ambas, ao se contemplarem, procede uma terceira Pessoa. Tu que te contemplas és o Pai; Tu, que és gerado pela contemplação do Pai, és o Filho; e Tu, amor do Pai e do Filho, és o Espírito Santo.

Três Pessoas divinas, num único Deus, o Deus trino e uno a quem adoro.

Integridade do amor

A decisão de amar a Deus não pode ser parcial, fraca, medíocre. Tem que ser radical, íntegra, completa, proporcionada ao amor de Deus por ti, ao sacrifício que Jesus ofereceu por ti.

“Como és morno, eu te vomito da minha boca.” (Ap 3,15)

Deves estar disposto, a todo instante, a morrer por Deus, como Jesus morreu por ti.

Mas a morte da vontade é tão dolorosa para a alma quanto a morte do corpo. E esta é que determinará o teu fim, quando morrer o teu corpo.

Somos criados para morrer no amor divino, pela entrega da nossa vontade, até o momento extremos de nosso último suspiro.

Não existe um terceiro caminho: ou sacrificas a tua vontade por amor a Deus (e conquistas tua eterna salvação) ou realizas tuas vontades por amor próprio (e serás eternamente castigado).

Quanto ao momento da entrega completa, é agora, não daqui a pouco, nem amanhã ou depois.

Como começar? Direcionando a tua intenção. É ela que guia a tua vontade.

Se tua intenção de amar a Deus for pura, limpa, sincera, já começaste a retribuir o seu amor neste instante.

Tua intenção pura te põe imediatamente no caminho de Deus.

Deseja, pois, agora, de todo o teu coração, amá-Lo mais que a ti mesmo, dar-Lhe a máxima glória que te seja possível.

Se fizeste isto com sinceridade, estejas certo de que Ele te deu a Graça para isto, e que começa agora um caminho sem volta na tua vida, que dependerá apenas da tua perseverança nesta intenção.

É a fé que te move a ver que Deus é a infinita bondade, que te ama de uma forma insondável, que morreu por ti, e que te dá tudo o que precisares para alcançar a perfeição.

A perfeição começa quando dizes com pureza de intenção: quero ser perfeito, porque isto é o que quer a Perfeição divina que me criou semelhante a Si: “Sede santos como eu sou santo” (1Pd, 1,15); “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.” (Mt 5,48)

A entrega da minha vontade a Deus não pode ser movida meramente pela obrigação lógica, pela necessidade racional da retribuição. Ela deve se mover pela alegre contemplação da realidade de que Deus é santo, lindo, nobre, Rei, bondoso...

Como disse o Apóstolo, “a caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará.” (1 Cor 13, 4 a 8) Assim é o amor generoso, liberal e cheio de afeto que devemos a Deus.

Eis o extremo de amor que nos ensina Jesus: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem àqueles que vos odeiam; abençoai aqueles que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos caluniam. E a quem te bate numa face, apresenta-lhe também a outra. E a quem te leva o manto, não recuses a túnica. Dá a quem te pede e não reclames de quem toma o que é teu. Como quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. E se amais apenas os que vos amam, que méritos tereis? Os pecadores também amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem aos que vo-lo fazem, que méritos tereis? Até mesmo os pecadores agem assim.” (Lc 6, 27-33)

O amor a Deus não é como o sentimento terno e agradável que podemos experimentar ao ver um lindo bebê gracejando, ou um belíssimo por de sol, ou um céu todo estrelado, ou uma música maravilhosa; o verdadeiro amor produz em nós boas atitudes mesmo que não tenhamos prazer algum.

O amor não está no sentimento, mas na vontade. Do contrário, um casal deixaria de amar-se quando, em pouco tempo, se desfaz o sentimeto de afeto inicial. Ora, o amor é que os mantém fiéis na provação, na doença, na dor, na contrariedade de ideias e desejos, o que poderá ocorrer com ou sem sentimentos amorosos. Amar é querer bem, é querer o bem, independente de sentir o amor.

Assim também, não acredites que só amas a Deus quado sentes que O amas, pois será mais comum nada sentires. Daí estar o amor ligado à fé, que trabalha na inteligênca (racional) e não ao sentimento volátil.

União com Deus

Para que consigas te unir a Deus é necessária uma purificação prévia. Porque se não houver um mínimo de semelhança entre o teu espírito e o Espírito Santo, a incompatibilidade não permitirá a conexão entre ambos. Assim como dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, também dois espíritos não podem se unir, a não ser que sejam semelhantes, compatíveis, que se sintonizem, que se harmonizem; do contrário, eles se repelem.

Por este princípio, um espírito bom jamais pode estar unido a um espírito mal, jamais podem ambos, juntos, agir sobre uma alma: apenas um pode agir de cada vez. Se, portanto, Deus ou seus anjos ou santos estão agindo sobre uma alma, naquele momento o demônio se afasta; e se é o demônio que está agindo, os espíritos bons se afastam.

Unir-te a Deus é estabelecer com Ele um vínculo presente de consonância, de combinação, de mistura, de amálgama, de sintonia, de harmonia, de sincronia, de síntese, de conexão, de absorção. E, quanto maior for o teu desejo de permanecer nesta união, maior será seu caráter de aliança, de pacto, de incorporação e de fusão indissolúvel. Deseja, pois, estar totalmente embebido do Espírito de Deus, de sorte que, em ti, Ele pense, queira, sinta e te guie segundo a sua Santíssima vontade, permitindo-te, assim, dar-Lhe toda a glória que podes, merecendo por isto a máxima recompensa no Céu.

Deus te deu, pelo livre arbítrio, a possibilidade de escolheres quem deve agir sobre o teu espírito. É, pois, tua a responsabilidade de estar sendo influenciado pelo bom ou pelo mau espírito.

É este um dos enormes benefícios da oração (bem feita, atenta, sincera...): nos une ao Espírito de Deus e afasta o demônio.

Esta verdade deveria te convencer que deves a todo instante, em tudo o que fazes, conectar ─ pela tua intenção expressa e sincera ─ o teu coração ao de Deus. Quer que Ele esteja em ti, pede insistentemente que Ele venha, que Ele fique, e que Ele jamais se separe de ti: “Meu Jesus, fica em mim eternamente, pelas lágrimas de nossa queridíssima Mãe.” Podes ainda, nesma mesma oração, desejar que Jesus esteja eucaristicamente em ti, beneficiando-te assim das Graças de uma comunhão espiritual.

A luta contra o pecado

Para reparar um só pecado, ainda que venial, Jesus teria oferecido todos

os tormentos de sua Paixão e Morte. Nada é pior do que o pecado:

ele é a causa de todos os males.

No que consiste a perfeição

A perfeição não consiste na sensação de união com Deus, mas na abnegação da vontade própria, até nas pequenas coisas, para adaptar-se à vontade de Deus.

Trata-se, pois, de uma luta séria contra o ego, que é preciosa diante de Deus.

A anulação dos desejos desordenados ─ até os mínimos ─ é mais agradável a Deus que jenjuns, penitências e obras de caridade como o apostolado, pois é na aniquilação dos apetites egoístas que consiste o Reino de Deus no coração humano.

Na caminhada espiritual não podem faltar quatro armas: desconfiança de si mesmo; confiança em Deus; exercícios espirituais; e orações.

Desprezo de si mesmo

A filosofia moderna é mestra em incutir e alimentar nas mentes grande quantidade de mentiras e ilusões egoístas. Ensina-nos que devemos ter autoconfiança, autoestima (orgulho), vaidade, ousadia... Cristo, entretanto, nos prega o contrário: o desprezo de si mesmo, considerarmo-nos os últimos, os mais indignos, contemplar a nossa maldade e confiar exclusivamente na ajuda de Deus para sermos humildes, puros e santos.

Nossa natueza nos leva facilmente a nos iludirmos sobre nós mesmos.

Uma verdade que não pode ser esquecida é que nenhuma boa ação e nenhum bom hábito que pratiquemos nos pertence como um bem adquirido: tudo é Graça de Deus, até um mínimo bom pensamento.

Fazes muito bem ao contemplar tuas misérias, erros e fraquezas, considerar-se vil, débil e incapaz de todo bem, pois assim distinguirás o que é a Graça em ti e o que é a tua natureza.

A contemplação da Paixão de Cristo é muito propícia a te deixar sempre bem disposto a ser desprezado, mal-visto e perseguido pelos outros.

Necessidade e benefícios das quedas

Todas as nossas quedas são necessárias para corrigir o orgulho e a impureza; mas são dispensáveis se houver um autoconhecimento que nos leve ao estado de humildade e pureza. Portanto, quedas (pecados) indicam falta de humildade e pureza, ausência de união com Deus.

As quedas são mais comuns no início da caminhada espiritual, enquanto o neoconvertido está abandonando seus maus hábitos e aprendendo a ser puro e humilde. Na medida que avanças na perfeição, aumentas tua união com Deus e isto te impede de cair.

Contra isto poder-se-ia objetar que “o justo peca sete vezes por dia” (Pr 24, 15). Porém, nesta passagem bíblica a palavra peca é interpretada por exegetas como “cai na tribulação”, ou seja, passa por dificuldade “mas se levanta em seguida” (como algumas traduções completam), significando, portanto, exatamente o contrário: que o justo se mantém de pé mesmo passando por dificuldades muitas vezes ao dia (onde o número 7 representa “muitas”). Outros exegetas interpretam “peca” como “resvala em pequenas imperfeições” (que não constituem sequer pecados veniais). Acreditar que o santo (justo) realmente “peca” diversas vezes ao dia pode ser extremamente desencorajador para quem inicia o caminho de perfeição, pois considerar que cairá sempre (mesmo travando tão árdua luta contra seus defeitos) é próprio a causar desânimo. Ora, a realidade é que uma pessoa unida a Deus é sustentada por Ele a ponto de não cair. E na medida que progride nessa união, chega, sim, a não cometer sequer pequenas imperfeições, pois é o próprio Deus que age nela, compartilhando suas perfeições divinas. E isto não se opõe à afirmação do provérbio, pois são raras e excepcionais as almas que atingem tão alto grau de união com Deus, embora o chamado “sede perfeitos como o Pai celeste” é para todos, está disponível para quem quiser.

Abandono

Abandonar-me a Ti, Senhor, é deixar-Te ditar as regras, as decisões e os rumos da minha vida, de sorte que sejas Tu a governar-me e não eu.

É importante, pois, buscar sempre a tua vontade, principalmente na oração.

Nos casos em que seja ambígua ou duvidosa as tuas respostas ou instruções, deverei sempre guiar-me pelas tuas Leis, pela lógica, pelo senso moral e pelo senso comum.

São necessárias, para esse abandono, duas atitudes: uma passiva e outra ativa. A passiva consiste no deixar-me levar pela divina Providência, confiando que me guiareis em tudo, e que providenciareis tudo para mim. A ativa consiste no esforço para realizar uma vontade que, para ser realizada, Tu queres o minha colaboração.

Companhia e presença de Deus

A união plena com Deus me põe numa situação de solidão em relação às pessoas, porque ninguém que queira estreitar seus laços com Deus consegue fazê-lo em meio a uma vida social intensa. O contato com Deus exige solidão e silêncio, principalmente o silêncio interior.

Por outro lado, a vida de intimidade interior com Deus gera inevitavelmente o desprezo dos gostos mundanos, afastando-me do mundo e das pessoas que o amam.

Ocorre, então, que a companhia das pessoas vai sendo substituída pelo convívio com Deus, com seus anjos e santos, que passam a ser os interlocutores que satisfazem minhas necessidades sociais.

Na medida em que vai-se tornando mais íntimo e profícuo este convívio, minha mente se habituará a viver na presença de Deus e seus amigos celestes, fazendo com eles todos os “diálogos mentais” (pensamentos), que antes tinham como interlocutores eu mesmo e outras pessoas.

Esse procedimento vai purificando e ordenando mais e mais o pensamento, a imaginação, o raciocínio, a consciência e os conceitos, distanciando-me sempre mais do mundo e aproximando-me sempre mais de Deus.