Eu bom versus eu mau

Alexandre Augusto Tavares, 24/2/2021

· Espiritualidade ·

Luta entre dois guerreiros com armadura

Por mais que queira se iludir ou fechar os olhos para a realidade, na intimidade do seu coração o homem sabe, por um instinto do divino, que após a morte lhe espera ou a felicidade ou a tristeza eterna, um prêmio ou um castigo, céu ou inferno, e que é nesta vida que isto se decide.

A vida é uma prova, uma luta. Daí dizermos que nossa igreja é militante. Vivemos numa constante batalha contra três adversários, chamados de tríplice concupiscência: demônio, mundo e carne. Os dois primeiros são externos, e o outro mora dentro de nós. São Paulo exortava: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras, (...) e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.” (Ef 4, 22 e 24)

O demônio

“Foi então precipitado o grande dragão, a primitiva serpente, chamado demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (Ap 12,9) No tempo de sua prova, um terço dos anjos se revoltou contra os planos de Deus, guiados pela soberba de Lúcifer, então o mais perfeito dos anjos. Foi exatamente sua perfeição natural que o levou à queda pelo orgulho, pois julgou-se um deus. E como todo o universo pode interagir, mesmo condenados ao inferno, esses espíritos imundos trabalham noite e dia para levar o maior número possível de pessoas à mesma revolta contra Deus. E para isto tenta nos convencer, inspirando-nos, de forma sutil e velada, pensamentos, desejos e sentimentos maus.

O mundo

“Não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” (Ti 4,4) O mundo é a opinião pública, um poderoso “pensamento coletivo” capaz de ditar crenças, modas, costumes e comportamentos contrários à perfeição evangélica, para nos influenciar e nos levar ao orgulho e à sensualidade, as duas atitudes que mais nos afastam de Deus.

A carne

Eis aqui nosso pior adversário: o eu mau, que mora junto com o eu bom, como se fossem duas pessoas que lutam dentro de um mesmo ser. Não que sejamos duplos, mas temos em nós essas duas tendências, uma boa e outra má, exatamente porque a vida é uma escolha, uma prova.

O campo de batalha é nossa vontade. Leva a melhor quem consegue dominar essa rainha soberana, porque ela decide e dita nossas atitudes. E entre duas forças, a boa e a má, ela fica muitas vezes indecisa. Nosso lado espiritual, que ama a Deus, tenta levá-la para o bem; enquanto nosso lado material, enfraquecido pelo pecado, atraído por um desejo descontrolado de prazeres, influenciado pela sociedade mundana e pelas sugestões pérfidas do demônio, tenta arrastar nossa vontade para o mal.

“Deleito-me na Lei de Deus, no íntimo do meu ser.” (Ro 7,22) Mas assim como “de um lado, pelo meu espírito, sou submisso à Lei de Deus; de outro lado, por minha carne, sou escravo da Lei do pecado” (Idem, 26), e então “não faço o bem que queria, mas o mal que não quero.” (Idem, 19)

Diante desta verdade inegável, achas mesmo que podes, neste Vale de Lágrimas, viver uma vidinha cheia de prazeres, de conforto e de felicidade?! Não e não! Desce logo das alturas dos teus sonhos infantis, dos voos fictícios das tuas ilusões, dos altares de fumaça do teu orgulho e dos deleites nojentos da tua impureza, para cair na realidade da vida: estás num campo de batalha onde só ganhas quando lutas, numa peleja que só acaba com a morte.

Então, abandona de vez aquela ideia do príncipe encantado, da princesa do conto de fada, do super-herói todo-poderoso; cai na realidade, olhando de frente as tuas misérias e fraquezas. E aí, encarando humildemente tuas incapacidades e imperfeições, em vez de te entristeceres, acredita que embora tu não possas sozinho, Deus pode em ti, pois, se pedires, Ele te dá, sim, as forças de que necessitas para vencer a batalha.

E nessa grande luta da vida, o importante não é ganhar, mas simplesmente lutar até o fim, pois a única derrota é desistir. Foi o que ensinou o Cordeiro de Deus, que venceu “perdendo”. O maior guerreiro da História triunfou sendo preso, condenado e morrendo crucificado entre dois ladrões.

Sim, o mais importante dessa lida não é vencer segundo os critérios humanos, mas simplesmente não desistir, ter paciência consigo mesmo e confiar em Deus, para que Ele nos leve pelo bom caminho, apesar de nossas quedas e aparente derrotas. Aliás, a queda nos ajuda a nos conservarmos humildes, conforme Deus ensinou ao Apóstolo: “Minha graça te é suficiente, pois meu poder se aperfeiçoa na tua fraqueza.” (2Cor 12,9)

Cair é humano, mas não podemos ceder nem desanimar. E para isso é necessário recorrer a Deus confiante. Nossa prova é justamente essa batalha! “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?” (Jó 7,1) E somente “quem perseverar até o fim, será salvo.” (Mt 24,13) Mas quanto vale a pena! Pois o prêmio é inimaginável: “Coisas que ‘os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou’ (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (1Cor 2,9) “Serei eu mesmo a tua recompensa demasiadamente grande.” (Gn 15,1)

Destarte, nada te adianta batalhar para ter dinheiro, riquezas, poder, conhecimento, reconhecimento, fama, carreira, sucesso, companhia, afeto, comodidades e prazeres. Pois, como deixou bem claro Jesus, “quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por causa de mim, este a achará.” (Mt 16,25)

Levanta, pois, do divã da tua medíocre comodidade, veste a tua armadura e entra na guerra! “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é [apenas] contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os [coros diabólicos de] principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal [espalhadas] nos ares. Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, cingidos na cintura com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, abraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai as vossas orações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos.” (Ef 6,11-18)