Escravidão por amor
Alexandre Augusto Tavares, 24/4/26
· Espiritualidade ·
O que imprime valor e mérito às ações humanas é a intenção com que elas são feitas. É principalmente para isso que Deus olha. E um dos fatores que mais influenciam a intenção é a empostação de espírito.
Empostar é um verbo utilizado principalmente na arte musical e cênica. No canto, empostar a voz é direcionar a corrente de ar na posição ideal para vibrar corretamente; na encenação, empostar é revestir-se do papel, adequar a atitude ao personagem. Empostar o espírito focar a atenção nos aspectos mais elevados, e adequar a atitude do espírito.
Por exemplo, nada há de mais banal do que caminhar de um lugar a outro. Ação tão comum que geralmente fazemos isto de forma distraída, pensando em outras coisas. Se as coisas nas quais pensamos ao caminhar são elevadas e importantes, a empostação de espírito ideal é continuar pensando nelas. Porém, se não há nada importante para se pensar, empostar o espírito seria refletir sobre algo como: “Em Deus somos e nos movemos: estou caminhando em Deus; Ele me vê e sonda os meus mais profundos pensamentos. Ele sabe que estou agora pensando n’Ele e andando n’Ele.” Empostar o espírito é sempre elevar o pensamento e adequar a atitude da alma aos aspectos superiores.
Então, quando a visão é medíocre, a intenção é mesquinha, imprimindo mediocridade na atitude e na ação; quando, porém, a visão é ampla e panorâmica, a intenção é elevada, imprimindo nobreza e grandiosidade à ação.
Esquematicamente, a ação é o resultado da intenção moldada pela visão (empostação). A fórmula matemática seria: visão + intenção = ação.
Para exemplificar, tomemos um astronauta que decola num foguete em direção à Lua. Se a sua visão for algo como “explorar o satélite natural para trazer grandes benefícios à humanidade”, sua impostação de espírito será elevada, com atitudes grandiosas; mas se ele decola pensando “ih... será que esta nave não vai explodir ao cruzar a atmosfera?”, sua empostação de espírito imprimirá medo e insegurança em todas as suas atitudes durante a viagem, afetando negativamente suas ações.
Outro exemplo: três pedreiros estão trabalhando na construção de uma catedral gótica, fazendo exatamente a mesma coisa. O primeiro está pensando: “Estou assentando tijolos.”; o segundo: “Estou levantando uma parede.”; o terceiro: “Estou edificando uma catedral!”
O nível de visão de cada um influenciará suas intenções e, em consequência, seu ímpeto na hora de trabalhar. Obviamente, o último, que tem a visão mais ampla e elevada, terá mais ânimo e perspectiva para a ação imediata, que consiste especificamente em assentar os tijolos. E o primeiro, sem visão panorâmica, tenderá a ver só os aspectos prosaicos e desagradáveis das ações realiza.
Assim também, o astronauta que decola com medo tenderá a ver perigo e entrar em pânico por qualquer micro irregularidade da nave, tornando sua viagem um tormento, impedindo-lhe o equilíbrio emocional necessário à sua missão.
Se a empostação de espírito influencia tanto até as pequenas ações humanas, quão mais importante é ela no tocante à relação do homem com Deus! Pois nenhuma ação humana é mais relevante que sua atitude perante o Criador.
Um dos santos que conseguiu explicitar de forma ampla e brilhante esta empostação foi São Luís Maria Grignion. Ensina ele que atitude mais adequada do homem em relação a Deus é a de escravidão por amor.
Como somos criados à imagem de nosso Autor divino, e como Ele é Amor, nenhuma atitude nossa pode ser tão nobre e elevada quanto amá-lo. Por isto mesmo, a Lei divina natural nos ensina que existimos para “amar a Deus acima de todas as coisas, com todo o nosso coração”.
Criados à semelhança divina, somos chamados a agir como nosso Pai Criador. Ora, agir de forma divina não é uma capacidade humana. E para que isto aconteça, Deus nos oferece sua Graça, uma participação em sua própria natureza divina, que nos possibilita agirmos divinamente.
Mas há aí dois enormes problemas…
O primeiro é que a pequena semelhança que temos com Deus faz com que nossas micro capacidades físicas, intelectuais e espirituais nos pareçam divinas, a ponto de nos considerarmos deuses: queremos, então, criar, dominar, ensinar, corrigir, castigar, ser respeitados, obedecidos, servidos, amados e até adorados...
A segunda dificuldade humana é que, ao receber a Graça de Deus, a nossa semelhança com Ele sai do nível micro e passa a participar efetivamente da divindade: pela ação do Espírito Santo começamos agir como Jesus, o Homem-Deus.
E se já tendemos naturalmente a nos achar deuses pelo simples fato de termos inteligência, vontade livre e sensibilidade, quanto maior é a tentação de nos julgarmos deuses ao agirmos divinamente pela Graça…
A consequência natural dessa divinização do homem é a ilusão de uma diminuição entre a distância infinita entre nós e Deus. Pois “tornando-nos outros deuses, estamos no nível d’Ele”.
E, infelizmente, nada pode diminuir tanto o homem quanto esta visão deformada e arrogante. Por isso, o maior adversário do homem em sua relação com Deus é o orgulho. O mesmo orgulho que derrubou do Céu os anjos maus, o mesmo orgulho que levou Eva a comer o fruto proibido.
A principal causa do pecado é a falta de humildade, o achar-se superior, o arrogar-se direitos e capacidades de fato inexistentes.
Notemos, então, que a visão que temos de nós mesmos em relação a Deus é o que determina a empostação de espírito que dominará e moldará nossas ações.
Deus é a causa, o centro e o motor de todo o universo, de modo que nossas atitudes são modeladas pela visão que temos d’Ele: se o consideramos o nosso Amado, a quem devemos todo respeito, obediência e submissão, agiremos divinamente; se o desprezamos porque nos consideramos micro deuses independentes e autossuficientes, a Graça não nos chegará, provocando em nós uma desordem existencial, que nos levará inevitavelmente ao desequilíbrio mental e corporal.
Pois sem a Graça o homem é só miséria e dissemelhança com Deus: “Sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,5) Daí ter Santa Teresinha afirmado: “Tudo é graça!”
A causa de todos os males da terra, de todos os crimes, de toda desordem humana é a ausência da Graça, que se chama exatamente desgraça.
Em síntese, somos criados à imagem e semelhança de Deus para, efetivamente, nos tornarmos mais e mais semelhantes a Ele, até nos divinizarmos, participativa e “passivamente” pela Graça. E não há limites para essa divinização, conforme o próprio Jesus ensinou: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5,48)
Dissemos aqui “passivamente” (entre aspas) porque, de fato, embora possamos e devamos ter uma participação voluntária na aquisição da Graça – principalmente através da oração –, essa participação precisa imperiosamente vir dosada pela empostação de espírito da humildade, obediência, submissão e compenetração de que, para tudo, dependemos da Graça; e sem ela nada somos e nem podemos. Ou seja, nossa participação na aquisição da Graça se dá pela conscientização de que a necessitamos e a devemos suplicar, esperando “passivamente” a bondade divina vir em nosso socorro. De sorte que, embora devamos desejá-la e pedi-la, não dirigimos nem dominamos a Graça, não podemos controlar a nossa santidade, o nosso progresso espiritual: tudo depende só de Deus. Mesmo se atingirmos um elevadíssimo grau de santidade, e isso se tornar habitual durante anos em nós, a qualquer instante podemos cair no mais fundo dos abismos, se perdermos a noção de que é o próprio Deus que está continuamente nos santificando e nos mantendo fiéis.
Eis, então, a lógica da nossa existência: nascemos de Deus, semelhantes a Ele, chamados a nos assemelharmos a Ele tanto quando possível nesta vida; o amor a Deus é, pois, a visão mais nobre e elevada que possamos ter da nossa relação com o nosso Pai celeste. E a empostação de espírito que essa visão gera é de respeito, inferioridade e submissão. Pois Ele é tudo; e nós, nada.
Foi esta lógica existencial que inspirou São Luís Grignion a se considerar um “pequenino verme e miserável pecador” (em francês, petit vermisseau et misérable pécheur). E, a partir daí, concluir que a melhor empostação de espírito para nos relacionarmos com Deus é considerando-nos seus escravos de amor.
A noção de escravidão traz habitualmente a ideia de injustiça, sujeição forçada, e espírito de revolta da parte do escravo. Pelo contrário, esta santa escravidão nossa em relação a Deus é desejada e incentivada pelo amor. E como o Senhor (dono do escravo) é o próprio Deus, esta submissão voluntária pode ser chamada de Sagrada Escravidão.
Historicamente, a perfeição dessa escravidão sagrada foi atingida pela Mãe de Deus, Maria Santíssima, que se proclamava ancilla Domini (escrava do Senhor), como narrado, por exemplo, nos episódios da Encarnação e Visitação.
E foi esta empostação de espírito de Maria, a criatura mais unida a Deus, que São Luís Grignion concebeu a ideia de se consagrar como escravo de Jesus pela mediação de sua santíssima Mãe.
O fato de uma pessoa se consagrar a Deus por meio de Maria é claro sinal de humildade. Observa ainda São Luís que o próprio Jesus, mesmo estando hipostaticamente unido ao Verbo de Deus (segunda Pessoa da Santíssima Trindade), quis vir ao mundo como uma frágil criança, passando nove meses no ventre de Maria e a ela se submetendo obedientemente durante toda a sua infância e ainda depois, como demonstra o episódio da transformação da água em vinho, pelos rogos de Maria.
De fato, são altamente eficazes as orações dirigidas ao Senhor por meio dos Santos e dos Anjos: pois ao nos considerarmos pequenos diante da Grandeza divina, e não confiando na impureza de nossas próprias intenções (pois vermizinhos e pecadores), recorremos à intercessão segura de quem já atingiu se confirmou num elevadíssimo grau de união com Deus: os bem-aventurados.
A escravidão de amor a Deus é, então, a empostação de espírito mais perfeita para bem se relacionar com o Criador. Ela constitui a visão contrária ao espírito de revolta e insubmissão que provocou a ida dos demônios ao Inferno, bem como o exílio da humanidade e sua degradação, em consequência do pecado Original de Adão e Eva.
Por fim, merece especial atenção um aspecto particular da prova de submissão do homem: sua atitude em relação à dor.
Dotados de natureza mista, que une uma alma espiritual a um corpo material, ficamos sujeitos – após a perda da integridade original, pela queda de Adão – à sensação da dor, tanto na alma quanto no corpo.
Nossa natureza foge da dor, e tende a evitá-la de todos os modos. Mas ela nos persegue e serve como instrumento de avaliação do nosso amor e submissão a Deus.
Por que a dor existe? Ela é uma consequência natural do pecado: pelo pecado uma parte dos anjos foi precipitada no abismo infernal; pelo pecado nós homens tornamo-nos sensíveis ao sofrimento. A dor é o contrário da felicidade divina.
Todos os seres inteligentes (anjos e homens) que conseguem demonstrar amor e submissão a Deus durante o período de sua prova existencial, alcançam a paz e a felicidade eternas. Mas, durante a prova, dobrar a sua arrogância, privar-se de sua liberdade e submeter-se por amor às regras de sua existência e à vontade de Deus é penoso!
Deus nos criou para a felicidade eterna. Deu-nos inteligência, vontade e sensibilidade para sermos capazes desse gozo perpétuo, mas Ele não pode nos introduzir nessa alegria sem que a nossa decisão (livre e voluntária) esteja confirmada no desejo de recebê-la. Daí a necessidade lógica do período de prova.
E faz parte da prova a dor.
Jesus, que é o Modelo e Centro de todo o universo (material e espiritual), deveria aparecer na “plenitude dos tempos” da história da Criação. E se o homem não tivesse pecado, Cristo não precisaria sofrer. Mas tendo havido o pecado, o homem tornou-se indigno da felicidade eterna. Ou seja, as portas do Céu se fecharam.
Foi então que o Homem-Deus, sendo o único capaz de reparar a ofensa contra o Criador (porque suas ações são atos do próprio Deus, seu mérito é divino e de valor infinito), ofereceu-se Ele – o Inocente, o Imaculado, o Cordeiro sem mancha – como vítima expiatória para o perdão e reconciliação da humanidade pecadora.
Para demonstrar seu amor voluntário, fez-se “obediente até a morte, e morte de cruz”. Dotado de uma empostação de espírito realmente Divina, Jesus declarou que sua intenção era “fazer a vontade do Pai”. E Ele a fez de um modo perfeitíssimo, instruindo-nos durante três anos, dando-nos exemplo de como amar a Deus e, por fim, padecendo as dores atrozes de sua Paixão e morte na Cruz.
Até então a dor era tida como a maior vilã da humanidade, uma terrível e malvada contra-deusa, de quem todos fugiam a todo custo. Mas, uma vez imolado na Cruz o Homem-Deus, a dor tomou outro sentido. Embora ainda terrível, temida e incômoda, ela passou a ser vista como amiga salutar, capaz de elevar o ser humano – conforme o exemplo de Cristo – a um novo e altíssimo patamar de amor a Deus.
Quem, então, possui a capacidade de enfrentar os sofrimentos da vida são os que consideram Deus como seu Amor. Porque se mantêm dispostos a tudo para fazer sua santíssima Vontade. Sua empostação de espírito é de servir, como escravos amorosos, ao seu Senhor, custe o que custar: se preciso, oferecendo-lhe a própria vida. Sua intenção é pura, despretensiosa, sincera e generosa.
Consideram-se pequeninos, vermes e pecadores, indignos até de sofrer pelo seu Amado. Por isso, compreendem a fundo o papel reparador, expiatório e regenerador do sofrimento. Sabem que é pela cruz que se chega à luz (“per crucem ad lucem”).
Estão cientes de que vivem num Vale de Lágrimas, e que qualquer desvio em sua empostação de espírito pode desvirtuar sua intenção, levando-os ao pecado e colocando-os perigosamente no caminho da perdição eterna.
Escolhem então viver sob a ação contínua da Graça divina, implorando-a constantemente com doce submissão e profunda humildade, compenetrados de que sem Deus nada são e nada podem.
Ó Mãe Maria, perfeita escrava do Senhor, que, por vossa humildade exemplar, fostes estabelecida Rainha dos anjos e dos homens, rogai por nós ao vosso divino Filho, suplicando-lhe em nosso favor a Graça de vivermos sempre humildes e submissos à Vontade do Pai, dispostos a tudo para demonstrarmos a nossa decisão perene de ingressar nas alegrias do Paraíso, onde vivem eternamente na presença e na visão de Deus os anjos e santos vencedores. Assim seja.