Equilíbrio e santidade

Alexandre Augusto Tavares, 14/2/2021

· Espiritualidade ·

Silhueta de homem orando ajoelhado ao ar livre

Equilíbrio mental e paz de espírito são para nós não apenas um benefício, mas uma obrigação. Entretanto, somos incapazes de chegar sozinhos a este estado, porque ele é uma participação na santidade de Deus, que não pode ser transferida nem reproduzida por quem não é divino.

Assim, quando temos a ilusão de que “chegamos” a um estado de paz e equilíbrio, na realidade não o “adquirimos” nem o “temos” em nós: apenas Deus está compartilhando conosco sua paz e seu equilíbrio.

Deus está sempre disponível a nos levar ao equilíbrio e nele nos manter: “A paz esteja convosco.” (Jo 20,28) E o que impede de nos beneficiarmos da permanência neste estado é exclusivamente nossa vontade livre, quando, ao amar-se mais do que a Deus, não permite que Ele interaja conosco.

Então, para participar da santidade de Deus, onde moram a paz e o equilíbrio, é necessário “desativar” o nosso amor-próprio, renunciar aos nossos desejos, e olhar com submissão e amor para a vontade de Deus.

O mais impressionante é que, embora raras pessoas cheguem a este elevado nível de união e intimidade com Deus, não é difícil fazer isto por alguns instantes, e já começar a participar da divindade. A grande dificuldade é manter-se aí. Porque logo a nossa vontade se sente sufocada e recomeça a desejar de volta a sua liberdade. E isto acontece pela seguinte razão.

Para podermos participar da santidade de Deus e com Ele interagir, Ele nos criou à sua “imagem e semelhança”, ou seja, com inteligência e vontade livres. Mas em vez de usar essa nossa liberdade para nos conectarmos a Ele e assim participarmos de sua perfeição, preferimos orgulhosamente usar nossa inteligência e vontade para “imitarmos” Deus. E como não somos Deus, mas sim apenas imperfeitas “imagens e semelhanças” d'Ele, conseguimos, no máximo, chegar a uma imitação grotesca de equilíbrio, falsa e caricata.

Ora, o verdadeiro e único estado de equilíbrio e paz interior se dá na participação da divindade, onde só chegamos se voluntariamente deixarmos Deus no-lo comunicar:

“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15,4-5)

A participação na santidade de Deus acontece quando renunciamos à própria vontade e às próprias ideias, para deixar Deus guiá-las. O que significa isto em concreto? Significa parar de pensar, parar de querer e parar de sentir, conectando-se voluntária porém passivamente ao pensamento, à vontade e ao sentir de Deus. Foi o que ensinou São Paulo, ao escrever:

“O tempo é breve. O que importa é que os que têm mulher vivam como se a não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa.” (1Cor 7,28-31) É somente com esta desconexão do mundo material que podemos chegar à união com Deus, a ponto de poder dizer com o mesmo Apóstolo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo em mim.” (Gl 2,20)

A realidade é que o ser humano não nasceu para gozar a vida, para se entregar aos prazeres, para lutar por uma felicidade ilusória e incompleta a que o levam os delírios de sua liberdade, mas sim para se unir a Deus e participar, já nesta vida, da felicidade divina. Pois somente assim somos capazes de enfrentar as lutas da nossa jornada mantendo a paz de espírito e o equilíbrio verdadeiro, “porque quem quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la.” (Mc 8,35) É só perdendo, deixando, silenciando os nossos desejos e pensamentos desordenados que podemos chegar a ouvir Deus e a amá-Lo com perfeição.

Santidade não é, então, uma aquisição, mas uma simples participação, na medida que permitamos a Deus no-la comunicar. Vemos essa doutrina ensinada por Jesus quando alguém o chamou de “bom mestre”, e Ele respondeu: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom.” (Mc 10, 18) Ou seja, nem mesmo Cristo em sua natureza humana criada podia ser “bom” sem participar de sua própria natureza divina incriada.

Donde se conclui que muitos atos humanos tidos como “bons” não o são de fato, como, por exemplo, faz algum bem para se mostrar ou obter algo em troca. Fazer o bem com intenção pura e amor desinteressado é a real caridade, que não é humana, mas divina, pois só Deus “é amor”. (Jo 4, 8) E para participar desse amor, dessa santidade, desse equilíbrio, dessa paz de Deus é necessário se conectar com Ele através de um desejo humilde e submisso, o que se faz voltando para Ele a nossa atenção e a nossa intenção, silenciando nossas potências e sentidos.

Como filhos do Deus santo e perfeito, somos convocados a viver essa santidade e a perfeição: “Sede perfeitos assim como vosso Pai celeste é perfeito.” (Mt 5,48) Obviamente é impossível “ser perfeito como o Pai” sem uma participação na própria perfeição d'Ele. Mas como o próprio Jesus nos deu isso como meta, devemos crer que, da parte de Deus, está disponível essa participação.

Temos, assim, à nossa disposição, os meios para cumprir essa obrigação de ingressar na santidade divina. Sim, trata-se de uma clara obrigação: por agradecimento pela vida que de Deus recebemos; por nossa semelhança com o Pai, assim como o filho de um nobre que deve respeitosamente fazer jus à sua nobreza; também obrigação para nosso próprio bem e proveito, pois só essa participação nos permite viver no equilíbrio e na paz; e, por fim, obrigação por causa do fim para o qual fomos criados, que é a bem-aventurança eterna, após nosso tempo de vida terrena.

É a melhor coisa que possamos fazer nesta vida: abandonar o nosso desejo egoísta de viver sem Deus, e dispor o nosso coração ao controle d’Ele, pois somente a divina sabedoria é capaz de nos conduzir nas vias da santidade rumo ao Céu. E assim, agradecidos pela vida que recebemos, e revestidos de humilde submissão, elevemos a Deus nossa atenção e a Ele nos entreguemos de coração:

“Senhor, a Vós me entrego totalmente, como um escravo que ama obedecer. Desfaço-me do meu ser e da minha liberdade, entregando-me sem reservas, para que Vós me governeis como quiserdes. Vivei em mim esta vida que me destes. E para isto, renuncio, Senhor, ao meu falho saber e às minhas ideias desordenadas, permitindo que doravante penseis em mim; renuncio à minha vontade egoísta e inquieta, permitindo que queirais em mim; renuncio à minha sensibilidade instintiva e animalesca, para que sintais em mim; renuncio aos prazeres dos sentidos corporais, para que todas as informações que receberem sejam filtradas e ordenadamente fixadas por Vós em minha memória. E assim, agindo em mim sem meu estorvo, podeis guiar o meu ser para a perfeição. Assumi-me por completo, Senhor, impedindo minha liberdade de retomar o controle e de desejá-lo sequer por um segundo. Livrai-me das ciladas do maligno e confirmai-me na vossa graça, dando-me a perpétua convicção de que participar da vossa santidade não me torna possuidor dela. Ensinai-me a vos amar sempre mais e a me unir intimamente a Vós na quietude da oração, para assim conseguir vos ouvir e receber tudo o que me quereis me comunicar. Amém.”