Equilíbrio - sacrifício e prazer
Alexandre Augusto Tavares, 4/3/2023
· Espiritualidade ·
O desequilíbrio é o denominador comum de todos os desajustes do homem moderno: problemas inúmeros de corpo e de alma têm em sua raiz o desequilíbrio. Nele se fundamentam, como causa presente em todos os males, os pecados, os vícios, os crimes e as doenças.
Em sentido oposto, o equilíbrio é o alicerce de todas as virtudes, da ética, da moral e da saúde (corporal e espiritual).
O que é o equilíbrio? É um estado firme e estável de paz e de temperança. Vamos analisar as palavras desta definição.
Estado. Um estado é temporário: apenas “está” no momento, mas pode não estar mais daqui a pouco. E nenhum estado é mais volátil para o ser humano, do que o de equilíbrio. Não será assim na eternidade, quando tudo estiver consolidado; mas neste Vale de Lágrimas a instabilidade é nossa companheira de viagem.
Firme e estável. Estas duas palavras parecem contradizer a anterior, pois se acabamos de dizer que o estado indica instabilidade, como dizer que é “firme” e “estável”?! A explicação se liga às duas próximas palavras. Paz e temperança também são instáveis, voláteis. E aqui vem o ponto mais importante quando falamos de equilíbrio: a estabilidade e a firmeza no estado de paz e temperança não podem ser obtidas sem a Graça de Deus! Sabe aquela paz “zen” de que falam certas filosofias orientais? Acredita mesmo que ela possa ser obtida só pela meditação ou alguma outra prática “mágica”? Não. Pois a paz é uma participação em Deus. Ele é paz e no-la comunica quando nos unimos ao Espírito d’Ele. E enquanto estivermos conectados a Ele ─ não simplesmente por nosso esforço, mas pela bondade divina ─, somente então (com humildade, oração e um bom relacionamento com Deus) teremos paz. Assim ─ e somente assim! ─ é que paz e temperança podem se tornar um estado “firme e estável”.
Paz. A paz é definida por Santo Agostinho como “a tranquilidade da ordem”. É próprio da desordem produzir tensão, agitação, perturbação; a ordem, pelo contrário, produz tranquilidade, calma, repouso, serenidade, silêncio interior. E o estado de tranquilidade produzido pela ordem se chama paz.
Temperança. Como o próprio nome aponta, temperança é a qualidade do que está “bem temperado”, sem excessos, sem exageros, moderado, na medida perfeita.
Esta definição diz mais respeito ao equilíbrio da alma, do que do corpo. Porque este se submete àquela, mais que a alma ao corpo.
Ora, o homem decaído pelo pecado Original, e ainda mais desajustado por seus próprios pecados e maus hábitos, tende a viver no desequilíbrio e, portanto, sem paz nem temperança. O único meio de remediar esta situação é uma vida de íntima união com Deus. Mas, hoje, lamentavelmente, a maioria das pessoas não sabem sequer o que isso quer dizer. Passam grande parte de seu tempo grudados na TV, em plataformas de vídeos ou em redes sociais, atolados em afazeres do trabalho, revezando entre momentos de fadiga estressante e de agitação apressada e ansiosa por tudo. Suas preocupações lhe tiram o sono e frequentemente lhe desajustam a digestão. Dúvida e insegurança lhe acompanham dia e noite. Desequilíbrio! E, estranhamente, quanto mais cresce o desequilíbrio, menos somos tendentes a recorrermos a Deus, até que, no extremo de um desequilíbrio, demo-nos conta de que só Ele é a solução. Então pode haver uma conversão rumo ao equilíbrio.
Viver no equilíbrio significa, pois, manter-se num estado de virtude próprio à santidade. E não é para isso que existimos?! “Sede santos porque Eu sou santo.” (Lv 19,20) “Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mt 5,48) “A paz esteja convosco!” (Lc 24,35) “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo 14,27)
Permanecer no equilíbrio é viver compartilhando a paz e a temperança do próprio Deus. E ninguém quer mais isto para nós do que Ele mesmo! Ele tem o poder e o desejo de nos dar: o único empecilho é nosso desejo de continuar no desequilíbrio.
Pelo que nos toca, o equilíbrio nos custará sempre um sacrifício: voltarmos para Deus a nossa atenção, com humildade e a intenção pura de sermos santos, e nos dispormos a fazer em tudo a vontade d’Ele.
De resto, existem algumas práticas que são propícias ao equilíbrio. E são muitas, todas ligadas à ordem e à temperança: hábitos alimentares, rotinas de horários, tempo que passamos com a atenção posta em Deus, exercícios de purificação da intenção, jejuns (de comida, de redes sociais, de falar, de pensar, de querer, etc.), hábitos de boas leituras, frequência aos Sacramentos, e tantas outras práticas salutares. Mas como Deus não abandona os seus filhos que buscam de verdade adequar-se a Ele, o Espírito Santo inspira tais procedimentos àqueles que o amam com sinceridade. E por mais árduo e prolongado que seja o caminho que nos leva a este estado firme e estável de paz e temperança, vale a pena! Pois nenhuma alegria deste mundo é capaz de substituir o prazer do equilíbrio na conexão com Deus.