Elã comportamental

Alexandre Augusto Tavares, 15/1/2023

· Geniologia ·

Família se divertindo num carro conversível

A palavra elã é pouco usada atualmente no Brasil. Sua origem é do latim ex-lancea (lança para fora), como no ataque repentino de um lanceiro. Daí o verbo francês élancer (atacar com lança) e o substantivo élan, que ao português chegou grafado elã, com o sentido de “ímpeto”, “impulso”. Fazer algo com elã é fazer de forma instintiva, levado por um impulso quase irresistível.

Elã comportamental é uma expressão usada na genioterapia para se referir às atitudes instintivas geradas por um impulso criado por um conceito moldado em nossa alma como um padrão comportamental. Tal conceito é originário de uma experiência marcante, que, se boa, dará origem um comportamento de busca instintiva do prazer; e, se má, provocará atitudes defensivas.

É um conceito semelhante ao de crença limitante na linguagem terapêutica. Mas aqui, elã comportamental se refere tanto a comportamentos defensivos quanto aos apetitivos. E enquanto muitas terapias não consideram prejudiciais certos padrões apetitivos, a genioterapia vê nisso um potencial empecilho para o equilíbrio e o progresso espiritual.

Ilustremos com um exemplo. Uma criança tem 6-8 anos. É verão. Seus tios a convidam para uma viagem ao litoral. Seu pai não tem carro, mas o tio tem um carro lindo e confortável. Durante a viagem, ela sente um prazer especial de estar sentada no banco macio do carro, ouvindo uma música agradável e, principalmente, conversando com os priminhos. Aquele prazer é sorvido de tal forma por suas necessidades primitivas de conforto e convívio, que surge em sua mente uma “conclusão”, geralmente mais sentimental que racional: “Passear com amigos num belo carro é viver bem.”

Dias depois termina o passeio e a criança está de volta à sua casa. Em vários momentos, talvez inadvertidamente, volta à sua memória aquela alegria sentida durante a viagem. E isso fixa ainda mais aquele conceito de que passeio-carro-amigos é uma combinação super prazerosa, um banho de felicidade.

Conclusão: aos 80 anos essa criança ainda buscará ─ se não possível na prática, pelo menos em sua imaginação ─ refazer ou reviver aquele passeio ou passeios semelhantes. Durante a vida, ela sempre quis ter um carro confortável, sempre buscou a companhia de parentes e amigos, para gozar novamente daquela “alegria”.

Por outro lado, uma experiência negativa marcante pode gerar reações comportamentais de fuga do incômodo. Se, na mesma viagem: a criança ficou resfriada porque o ar condicionado estava muito frio; os primos lhe pareciam chatos; ficaram muito tempo na estrada porque houve um acidente que travou o trânsito; o clima estava chuvoso, não permitindo irem à praia... tudo isso poderia lhe marcar a alma, carimbando-lhe o conceito de que “passear de carro com amigos é péssimo”. Então, convidada para uma viagem, ela diz arranja uma desculpa e diz “não”.

Para dar outro exemplo, esta mesma criança, quando tiver 20-30 anos, tenderá a gostar ou não de ouvir música ambiental, dependendo daquela experiência marcante, positiva ou negativa. Portanto, uma pessoa que, enquanto faz a limpeza da casa, deixa música ambiente ligada em sua casa, pode estar ─ talvez inadvertidamente ─ “alimentando” seu elã comportamental.