Ecumenismo com pingo no “i”

Alexandre Augusto Tavares, 21/2/2021

· Apologética ·

Membros de diversas religiões num encontro ecumênico

Ecumenismo deriva da palavra grega οἰκουμένη (“ikuméne”), que significa “mundo habitado” ou “império civilizado”, uma referência, no cristianismo nascente, ao alcance da mensagem evangélica no Império Romano e, mais tarde, em todo o mundo cristão. Seu significado original está, portanto, distante do sentido elástico que hoje lhe atribuem de “união de credos”.

É legítimo ao católico buscar uma “união de crenças” com pessoas de outras religiões? A resposta a esta pergunta deveria ser óbvia: “Não!” Mas... no mundo globalizado de hoje, em que tudo é relativo, em que tudo é permitido, muitos fiéis vão engolindo essa ideia de ecumenismo, com a aprovação ─ quando não incentivo ─ de autoridades religiosas.

E o grande problema está no “detalhe” de que cada religião possui seu próprio credo, contendo ensinamentos contrários aos revelados por Cristo (a maioria já devidamente refutada pela apologia católica ao longo da História).

Se ecumenismo significa ESTENDER a mão ao não-católico, convidando-o à conversão, e SOLTAR assim que ele disser “não”, aí tudo bem! Mas continuar de mãos dadas mesmo que ele prefira manter suas crenças é uma atitude – no mínimo ingênua – de cumplicidade com o erro, incompatível com a nossa fé, que nos proíbe de nos expormos ao contágio maléfico de doutrinas erradas. Ademais, temos a obrigação moral de proteger e proclamar a nossa fé, sem medo de escandalizar pessoas de outros credos.

Ou seja, não se trata de uma atitude de rejeição e menos ainda de ódio, mas simplesmente de afastamento, para, de um lado, evitar contaminação da fé que acreditamos ser verdadeira e, de outro lado, permitir que um convívio imprudente se torne conivência, o que seria compartilhar erros.

Longe de pretender esclarecer os vastos e complexos meandros deste tema, ponho aqui em foco apenas o perigo dessa ideia perniciosa de um ecumenismo sincrético e indiscriminado. Até lamento que este alerta não tenha vindo de uma autoridade eclesiástica...! Ao contrário, ainda hoje ouvi um de seus representantes dizer: “Cada um tenha a fé que quiser e tudo bem!” Tudo bem, mesmo?! Foi para que “cada um tenha a sua própria fé” que Cristo derramou até sua última gota de sangue? Foi isto que Ele quis dizer quando afirmou “ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado.” (Mc 16,15-16)? Ou ainda o conselho: “Se alguém não vos receber, nem der ouvidos às vossas palavras, assim que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a poeira dos vossos pés. Com toda a certeza vos afirmo que haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra, no dia do juízo, do que para aquelas pessoas.” (Mt 10,14-15)?

Foi ecumênica a atitude de Jesus derrubando as mesas dos vendilhões do tempo? Foi ecumênico criticar pública e enfaticamente as atitudes hipócritas dos fariseus, dos doutores da lei e dos anciãos do povo, chegando a ridicularizar suas doutrinas e atitudes?

Cristo nunca se fechou ao diálogo e menos ainda ao debate, pois, como afirmou São Paulo, “heresias são oportunas” (1Cor 11,19), porque permitem, no atrito com a sã doutrina, esclarecer mais a verdadeira fé. Por isso é que Jesus discutia abertamente com os que pensavam diferente d’Ele: para instruir e “vacinar” seus discípulos, para lhes abrir os olhos: “Guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.” (Mt 16, 11)

E assim, todo o conteúdo da mensagem de Cristo tem um tom que mais poderíamos chamar de “antiecumênico” do que de conciliador, cheio de senões, condições, distinções e separações: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa.” (Mt 10,34-36) Ora, se a fidelidade à fé em Cristo leva à divisão até entre os membros de uma mesma família, o que se pode dizer em relação a quem oficialmente confessa outro credo?! Que sentido tem uma busca de ecumenismo com hereges empedernidos, quando há tantas almas aguardando nosso apostolado para realmente se converter ao Evangelho?

Lembremo-nos de que “muitos são os chamados, e poucos os escolhidos” (Mt 22,14). E com aqueles que não foram escolhidos, não percamos o nosso tempo. Eles não querem se juntar ao rebanho de Cristo. Não busquemos ecumenismo com quem rejeita a conversão; mas empreguemos nosso esforço na conversão de quem tem boa vontade para entrar na barca de Pedro. Pois, como disse o Papa Paulo VI, “não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior.” (Decreto UNITATIS REDINTEGRATIO. Vaticano, 21 de Novembro de 1964.)

O maior prejuízo desse discurso ecumênico é, sem dúvida, o incentivo ao relativismo. Porque ao estender sua mão a crenças contrárias às dela, a Igreja está desvalorizando seu próprio credo, e incutindo na cabeça dos fiéis a ideia de que todos os credos são, em alguma medida, equivalentes. E que é possível sermos apenas um dos tijolinhos do grande tempo de uma religião universal onde tudo é bom e permitido.

Desta nova religião universal, com um novo governo universal, com uma nova economia mundial, com uma nova ordem mundial, o chefe não poderia ser outro senão satanás. E por isso é que ele anda tão quietinho, sem se manifestar em possessões escandalosas, esperando esse plano diabólico se concretizar para, só então, aparecer e se proclamar o senhor do universo. Seria a grande vingança do demônio contra a Redenção de Cristo.

Certo é que este plano macabro não chegará a se concretizar antes de uma intervenção divina. Mas até onde chegaremos? E enquanto não chegar este “basta” de Deus, quantas almas continuarão se debatendo na areia movediça do relativismo moral?

Tenha Deus misericórdia de nós, cegos, fracos e pecadores, e nos envie seu divino Espírito Santo, para que nos ilumine, nos esclareça, nos encha de forças e renove a face da terra. Vinde, Senhor, não tardeis!