Divinizando-nos na oração
Alexandre Augusto Tavares, 21/7/2022
· Espiritualidade ·
A boa oração exige primeiramente atenção: um olhar atento para Deus, sem que nada nos distraia. Seria desrespeitoso dirigirmo-nos a Ele, chamar a atenção d’Ele, começarmos a nos comunicar com Ele e, em seguida, nos distrairmos e deixarmos de prestar-Lhe atenção.
Em segundo lugar, o silêncio. Devemos silenciar nosso interior, abandonando toda preocupação, dissipação e ansiedade. Sem a quietude interior não podemos ouvir Deus, que se comunica no silêncio da alma.
E, por fim, toda oração deve ter uma intenção pura e bem definida. O bom resultado na nossa oração depende da sinceridade dessa intenção, pois comprova a verdadeira pureza do desejo.
Para nos comunicarmos com Deus, que observa em profundidade o nosso coração, é importante que purifiquemos nossa intenção. Do contrário, estaríamos pedindo-Lhe algo que não desejamos de verdade.
Por exemplo, se nossa intenção é de nos livrarmos de um vício que nos incomoda, mas, no fundo, namoramos o prazer ele nos proporciona, não adianta expressarmos esse desejo incompleto: mesmo que detestemos os incômodos que se seguem ao prazer (como acontece em todo vício), não será suficiente para sermos atendidos.
Faz-se necessária uma intenção pura de união com Deus, na qual o vício não cabe, não combina, não tem lugar, é repelido por ser contrário à pureza de Deus. Aí, sim, haveria uma sinceridade capaz de “convencer” e “comover” o Coração de Deus.
Numa linguagem mais popular, pedir algo sem ter real intenção de obter é “papagaiar a oração”, é pedir “da boca para fora” (e não com o coração).
Usando ainda o exemplo mencionado, digamos que quando o nosso desejo de união com Deus for suficientemente grande e sincero, maior que o apego ao vício, este começa por si a se desfazer, cedendo lugar à paz da santidade e à presença de Deus em nós. E a veracidade deste amor é para Deus como uma contínua oração, que produz o efeito desejado da pura intenção na oração: a conversão, a santificação, a metamorfose (transformação), que diviniza o nosso ser por conaturalidade.
Notemos que nesta forma de rezar, em que manifestamos a Deus a sinceridade de uma intenção ─ que Ele já viu e conhece antes mesmo de a manifestarmos ─, não há muitas palavras, expressões, preces lidas ou decoradas. Foi o conselho de Jesus: “Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras [...].” (Mt 6, 7) “Vosso Pai celeste sabe do que necessitais.” (cf. Mt 6, 32)
E aqui entramos num dos aspectos mais lindos e pouco conhecidos da oração: o silêncio. Mas para melhor compreender a conexão com Deus na oração silenciosa, façamos uma breve reflexão filosófico-teológica.
Deus é “puro Espírito”, e ─ como ensina São Tomás de Aquino ─ um espírito “está onde age”. Não é difícil entender isto quando pensamos na ação do anjo ou, mais fácil ainda, na ação do homem, cujo espírito está conectado ao corpo.
Mas falar sobre “locais” onde Deus age é bem mais complexo, porque todo o universo está “em Deus”, uma vez que o “fora d’Ele” não existe. Mas digamos, por este princípio tomista de que o espírito está onde age, que o “lugar” onde o Espírito Santo mais se manifesta é em Jesus, ao qual Ele está unido pela misteriosa união hipostática.
Assim, Cristo é o lugar perfeito e preferido de Deus, seu próprio e exclusivo Céu. E, depois de Jesus, Maria, a “cheia de graça”, ou seja, a “cheia do Espírito de Deus”.
No caso de Jesus, existe uma fusão completa das naturezas Humana e Divina, na Pessoa trinitária do Verbo. No caso de Maria, há uma divinização parcial, mas tão abundante que só parou porque, se fosse mais, entraria no plano hipostático.
Maria é a criatura não divina mais divina que existe. Ora, esta mesma Graça com a qual Deus cumulou a Mãe do Homem-Deus em grau pleno (plena gratia) está disponível para nos divinizar. E esta santificação acontece, de forma semelhante à que se deu com Maria, pela ação do Espírito Santo em nosso espírito.
Quando oramos, estabelecemos uma comunicação com o Espírito Santo ─ seja diretamente, seja por intermédio de Cristo, de Maria ou de qualquer anjo ou santo. E nesta comunicação de Espírito com espírito, a linguagem é espiritual. Não exitem palavras, expressões ou fórmulas físicas capazes de criar uma interlocução adequada. Então, como dialogar com Deus?
É óbvio que Deus entende nossas palavras, nossos gestos e pensamentos. Mas a linguagem apropriada, mutuamente compreensível entre nós é a iluminação, que para nós acontece através da intenção. Assim é que espíritos se comunicam: iluminando-se com sua intenção.
Dissemos, no início do artigo, que o primeiro passo para a boa oração é a atenção; o segundo, o silêncio; e, por fim, a intenção. Tomemos aqui intenção como um desejo principal, profundo, sincero, aquilo que realmente queremos. E está subentendida nesta afirmação que há desejos que não são “reais” em nós, que são “superficiais”. Pois é: somos capazes de agir ocultando verdadeiras intenções. Mas Deus olha sempre para as intenções de fundo, as reais. Podemos enganar o próximo com segundas intenções; podemos nos autoiludirmos, para tentar esconder da nossa consciência desejos ilícitos; mas a Deus não enganamos!
Com efeito, tentar falar com Deus na oração com um desejo falseado, é razão de sobra para Ele não estabelecer conosco qualquer conexão: o Espírito de Verdade se retira, e nos deixa lá, “falando” e “mentindo” sozinhos. Pois a divina Veracidade se sente insultada pela falsidade. Este é, aliás, um pecado contra o Segundo Mandamento, o qual nos obriga a “não desrespeitar o Nome de Deus”.
Por isso, ao falarmos com Ele, devemos por n’Ele toda a nossa atenção e purificar a sinceridade da nossa intenção. Ora, esta intenção (pura, verdadeira, do fundo do coração) é precisamente o meio de comunicação com Ele, a nossa linguagem para dialogar com o Espírito Santo!
E aqui a importância do silêncio. A intenção é, por natureza, silenciosa: não precisa de palavras. Ao olharmos para Deus com nossa atenção (que é o “olhar do espírito”), já podemos incluir a nossa intenção.
Como bem escreveu a grande mestra da oração, Santa Teresa de Jesus, o objetivo primordial da oração é a santificação. Portanto, a intenção principal, que deve nortear nossa oração, é a de nos santificarmos em Deus. Mesmo que desejemos outras coisas, mesmo que tenhamos pedidos importantes para apresentarmos na oração, nenhum deles será tão necessário quanto este: divinizarmo-nos.
Já temos aqui uma ótima impostação de espírito para orar bem: atenção total, silêncio, e intenção sincera (de nos divinizarmos n’Ele).
Ao estabelecermos conexão com Deus na oração, imaginemo-nos como sob a luz solar, aquecendo-nos no Sol divino; ou pensemos que somos pequenos objetos de metal, sendo imantados pelo Ímã divino; ou ainda, que somos como esponjas mergulhadas e embebidas na Água sagrada da Graça. De sorte que quanto mais tempo passarmos sob a influência do Sol, do Ímã ou da Água, mais nos aqueceremos, nos imantaremos e nos embeberemos na divindade do Espírito Santo. E quanto mais pura for nossa intenção de que isto aconteça, mais intensa e efetiva será a ação de Deus.
E como “o espírito está onde age”, ao agir em nós, Ele “está” em nós! Não no distante Céu Empíreo, mas “em” nós, no nosso espírito, no lugar que Deus criou em nossa alma exatamente para Se comunicar conosco. Por isso disse o Apóstolo que somos “templos do Espírito Santo” (1Cor 6, 19).
Atenção, silêncio, intenção!
Divinizemo-nos na oração, parados ou em movimento, sozinhos ou em companhia, na ausência ou na presença de barulho, agitação, preocupação, medo, dor, provação, insegurança... Sim, aprendamos a nos mantermos em oração, no silêncio interior e conectados a Deus, mesmo quando o ambiente não favoreça. Nada deve impedir nossa perfeita união e constante conexão com o nosso real Amor.